Novo tarifaço dos EUA é mais sério e tem potencial eleitoral
Publicado em: 02/06/2026 08:35
O relatório do Escritório de Comércio dos EUA (USTR) sugerindo 25% de tarifas gerais a produtos brasileiros é mais grave que o tarifaço anunciado no ano passado e deve ser alvo dos discursos eleitorais das principais campanhas à presidência no Brasil.
Desta vez, as novas tarifas chegam com a roupagem de uma investigação, que começou em 2025, antes do estreitamento das relações entre os presidentes norte-americano Donald Trump e presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O Brasil teve tempo de apresentar suas alegações, os ministérios brasileiros e escritórios profissionais contratados por empresas e setores atuaram com argumentos e explicações para as autoridades americanas, que parecem não ter ouvido explicações.
No caso do PIX — sistema de pagamento instantâneo criado pelo Banco Central (BC) —, alvo da investigação em que o Brasil é acusado de prática desleal, o Brasil levou números mostrando como ele ampliou a bancarização de brasileiros e, como isso, no médio e longo prazo, são bons também para empresas de cartão de crédito de bandeiras americanas (leia mais abaixo).
Lula e Trump se encontram na Casa Branca
Ricardo stuckert/Presidência da República
Desmatamento
Dados científicos sobre a queda no desmatamento, com comprovação por satélite, também foram apresentados.
Uma reclamação antiga sobre o tempo que o Brasil leva para registrar patentes foi ainda respondida detalhada na resposta de empresas brasileiras, com queda nesta espera.
Já a tarifa para entrada de etanol dos EUA no Brasil, que chegou a ser citada publicamente por Trump, é um entrave de longa data que o Brasil queria discutir, mas não levou proposta concreta.
Pontos da decisão do USTR dão pistas do conteúdo ideológico da decisão: a cotação das medidas judiciais contra empresas de tecnologia, e até a retirada do ar do X. Medidas tomadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Nos próximos dias, o Brasil terá pouco espaço para discutir o mérito do novo tarifaço. Exportadores poderão pedir modulação de tarifas. Poderão também, em conjunto com o governo, apelar à justiça dos EUA ou mesmo ampliar sua queixa na Organização Mundial do Comércio (OMC)). Pode, também, escalar o embate e aprovar medidas de reciprocidade na Câmara de Comércio Exterior (Camex).
Na prática, a decisão do USTR parece mostrar um retrocesso nas relações entre Brasil e Estados Unidos.
Desde que mergulhou nos problemas trazidos pela guerra com o Irã, Trump parece ter se desligado da América Latina e, por consequência, da sua química com Lula.
Quem toca as decisões do USTR e do Departamento de Estado é um grupo com base ideológica, basicamente os mesmos que encontraram Flávio Bolsonaro na semana passada.
Se o novo tarifaço tem a ver com relações de parte ideológica do governo Trump com a família do ex-presidente Jair Bolsonaro, ainda não se sabe ao certo. É algo que vai aparecer em breve.
A medida é ruim para parte do setor produtivo brasileiro. O que já é certo é que a nova decisão invadirá os argumentos eleitorais de direita e esquerda daqui até agosto.
Transformado em discurso eleitoral, o novo tarifaço tem ainda menos chance de ser resolvido de forma rápida e com menor prejuízo à economia.
Link original: https://g1.globo.com/economia/blog/ana-flor/post/2026/06/02/novo-tarifaco-dos-eua-e-mais-serio-e-tem-potencial-eleitoral.ghtml
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