‘A ciência é a maior força de igualdade do mundo’: vencedores do Nobel de Química narram bastidores e lembram jornadas improváveis até o prêmio
Publicado em: 08/10/2025 12:49
<br /> Cientistas vencem Nobel de Química em 2025 pelo desenvolvimento de estruturas metal-orgânicas
Omar Yaghi, 60 anos, falava de dentro de um avião quando recebeu a ligação da Academia Sueca sobre a conquista do Nobel de Química. Entre risadas nervosas e a voz abafada pelo barulho do embarque, resumiu sua emoção:
“Estou encantado... é algo especial de tantas formas”, disse.
Nascido em Amã, na Jordânia, e criado em um quarto apertado que dividia com a família e o gado, Yaghi contou que seus pais eram refugiados e mal sabiam ler e escrever.
“Cresci em um lar humilde, éramos uma dúzia em um cômodo. Meu pai terminou a sexta série, minha mãe não sabia ler nem escrever. A ciência me permitiu ir além disso. Ela é a maior força de igualdade do mundo.”
Hoje professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley, Yaghi é considerado o “pai dos MOFs” — os materiais que renderam a ele e aos colegas o Nobel de Química de 2025. Essas estruturas — formadas por íons metálicos e moléculas orgânicas — funcionam como pequenas arquiteturas com “salas” onde gases e outras substâncias podem circular.
Elas permitem capturar CO₂, armazenar hidrogênio e até extrair água do ar seco, tecnologias vistas como promissoras frente à crise climática.
“Quando você aprende a controlar a matéria em nível atômico e molecular, o potencial é imenso. Você pode imaginar estruturas que resolvam grandes problemas, como água e CO₂, ou criar sensores e medicamentos. Tudo começa com a beleza das moléculas”, afirmou.
“Eu só queria publicar um artigo com cem citações”
Yaghi relembrou que iniciou a carreira sonhando pequeno — e riu ao comparar o passado com o impacto de hoje.
“Meu sonho era publicar um artigo que recebesse cem citações. Hoje meu grupo tem mais de 250 mil. Isso mostra como a química é bela — se você domina os blocos fundamentais da matéria, pode abrir uma mina de ouro intelectual.”
O pesquisador contou, ainda, que seu fascínio pela ciência começou aos dez anos, quando entrou escondido na biblioteca da escola e abriu, por acaso, um livro de diagramas moleculares.
“Não sabia o que eram aquelas figuras de bastões e bolas, mas achei lindo. Desde então, escolhi os problemas de pesquisa pela beleza das moléculas.”
Prêmio Nobel de Química 2025 vai para Susumu Kitagawa, Richard Robson e Omar M. Yaghi
Prêmio Nobel/Divulgação
“Tudo começou com bolas de madeira”
Enquanto Yaghi falava de dentro de um avião, o britânico Richard Robson, 88, atendia o telefone em casa, em Melbourne, na Austrália.
De humor cortante e modéstia desconcertante, ele contou que a ideia dos MOFs nasceu por acaso, enquanto preparava uma aula de química nos anos 1970.
“Eu construía modelos de moléculas com bolas de madeira. Um dia pensei: e se usássemos moléculas no lugar das bolas e ligações químicas no lugar dos palitos? Tudo começou ali.”
Robson chegou a achar que a descoberta seria “bobagem”.
“Alguns colegas diziam que era tudo besteira. Mas não foi. Às vezes é preciso um tipo de obsessão que te faz negligenciar outras coisas — e eu era assim.”
Hoje, ele se diverte com o tamanho que o campo alcançou.
“Não me surpreende que tenha decolado. Era óbvio que isso aconteceria. Eu só misturava coisas e via o que saía. Muitas não funcionavam. Quando uma dava certo, eu dizia: ‘hurra’.”
A simplicidade dos pioneiros
Robson diz não planejar grandes celebrações:
“Aos 88 anos, muitos dos meus amigos já se foram. Acho que isso diz tudo.”
Mesmo assim, sua contribuição foi essencial para transformar a curiosidade de sala de aula em um novo ramo da química moderna — e inspirar gerações de cientistas.
Yaghi, por sua vez, destacou que o maior legado do prêmio não é individual:
“Pessoas inteligentes e talentosas existem em todos os lugares. O que falta é oportunidade. Devemos nos concentrar em liberar esse potencial. A ciência faz isso melhor do que qualquer outra coisa.”
Como funciona a descoberta premiada
A pesquisa que rendeu o Nobel criou uma nova forma de “arquitetura molecular”, os chamados metal-organic frameworks (ou MOFs).
Eles são estruturas formadas por átomos metálicos ligados a moléculas orgânicas, criando cristais com espaços vazios em seu interior — como se fossem “condomínios de átomos”, com milhares de “salas” microscópicas.
Esses espaços funcionam como armadilhas químicas: podem capturar gases como o CO₂, armazenar hidrogênio, filtrar poluentes ou conduzir reações químicas.
Ao variar o tipo de metal e de molécula usada, os cientistas conseguem “programar” o material para desempenhar funções específicas — de remover substâncias tóxicas da água até reter o gás carbônico da atmosfera.
Na prática, isso abre caminho para aplicações que vão do combate às mudanças climáticas à produção de energia limpa e à purificação de ar e água.
Há MOFs capazes de absorver a umidade do ar do deserto e transformá-la em gotas de água potável — ou de separar PFAS (poluentes eternos) da água contaminada.
Em outras palavras, os laureados criaram uma espécie de Lego químico que pode ser moldado para resolver alguns dos maiores desafios ambientais e tecnológicos da atualidade.
Como definiu o Comitê Nobel, “suas descobertas abriram novos espaços para a química — literalmente e simbolicamente”.
Nobel de química valoriza descoberta que ajuda o planeta
Omar Yaghi, 60 anos, falava de dentro de um avião quando recebeu a ligação da Academia Sueca sobre a conquista do Nobel de Química. Entre risadas nervosas e a voz abafada pelo barulho do embarque, resumiu sua emoção:
“Estou encantado... é algo especial de tantas formas”, disse.
Nascido em Amã, na Jordânia, e criado em um quarto apertado que dividia com a família e o gado, Yaghi contou que seus pais eram refugiados e mal sabiam ler e escrever.
“Cresci em um lar humilde, éramos uma dúzia em um cômodo. Meu pai terminou a sexta série, minha mãe não sabia ler nem escrever. A ciência me permitiu ir além disso. Ela é a maior força de igualdade do mundo.”
Hoje professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley, Yaghi é considerado o “pai dos MOFs” — os materiais que renderam a ele e aos colegas o Nobel de Química de 2025. Essas estruturas — formadas por íons metálicos e moléculas orgânicas — funcionam como pequenas arquiteturas com “salas” onde gases e outras substâncias podem circular.
Elas permitem capturar CO₂, armazenar hidrogênio e até extrair água do ar seco, tecnologias vistas como promissoras frente à crise climática.
“Quando você aprende a controlar a matéria em nível atômico e molecular, o potencial é imenso. Você pode imaginar estruturas que resolvam grandes problemas, como água e CO₂, ou criar sensores e medicamentos. Tudo começa com a beleza das moléculas”, afirmou.
“Eu só queria publicar um artigo com cem citações”
Yaghi relembrou que iniciou a carreira sonhando pequeno — e riu ao comparar o passado com o impacto de hoje.
“Meu sonho era publicar um artigo que recebesse cem citações. Hoje meu grupo tem mais de 250 mil. Isso mostra como a química é bela — se você domina os blocos fundamentais da matéria, pode abrir uma mina de ouro intelectual.”
O pesquisador contou, ainda, que seu fascínio pela ciência começou aos dez anos, quando entrou escondido na biblioteca da escola e abriu, por acaso, um livro de diagramas moleculares.
“Não sabia o que eram aquelas figuras de bastões e bolas, mas achei lindo. Desde então, escolhi os problemas de pesquisa pela beleza das moléculas.”
Prêmio Nobel de Química 2025 vai para Susumu Kitagawa, Richard Robson e Omar M. Yaghi
Prêmio Nobel/Divulgação
“Tudo começou com bolas de madeira”
Enquanto Yaghi falava de dentro de um avião, o britânico Richard Robson, 88, atendia o telefone em casa, em Melbourne, na Austrália.
De humor cortante e modéstia desconcertante, ele contou que a ideia dos MOFs nasceu por acaso, enquanto preparava uma aula de química nos anos 1970.
“Eu construía modelos de moléculas com bolas de madeira. Um dia pensei: e se usássemos moléculas no lugar das bolas e ligações químicas no lugar dos palitos? Tudo começou ali.”
Robson chegou a achar que a descoberta seria “bobagem”.
“Alguns colegas diziam que era tudo besteira. Mas não foi. Às vezes é preciso um tipo de obsessão que te faz negligenciar outras coisas — e eu era assim.”
Hoje, ele se diverte com o tamanho que o campo alcançou.
“Não me surpreende que tenha decolado. Era óbvio que isso aconteceria. Eu só misturava coisas e via o que saía. Muitas não funcionavam. Quando uma dava certo, eu dizia: ‘hurra’.”
A simplicidade dos pioneiros
Robson diz não planejar grandes celebrações:
“Aos 88 anos, muitos dos meus amigos já se foram. Acho que isso diz tudo.”
Mesmo assim, sua contribuição foi essencial para transformar a curiosidade de sala de aula em um novo ramo da química moderna — e inspirar gerações de cientistas.
Yaghi, por sua vez, destacou que o maior legado do prêmio não é individual:
“Pessoas inteligentes e talentosas existem em todos os lugares. O que falta é oportunidade. Devemos nos concentrar em liberar esse potencial. A ciência faz isso melhor do que qualquer outra coisa.”
Como funciona a descoberta premiada
A pesquisa que rendeu o Nobel criou uma nova forma de “arquitetura molecular”, os chamados metal-organic frameworks (ou MOFs).
Eles são estruturas formadas por átomos metálicos ligados a moléculas orgânicas, criando cristais com espaços vazios em seu interior — como se fossem “condomínios de átomos”, com milhares de “salas” microscópicas.
Esses espaços funcionam como armadilhas químicas: podem capturar gases como o CO₂, armazenar hidrogênio, filtrar poluentes ou conduzir reações químicas.
Ao variar o tipo de metal e de molécula usada, os cientistas conseguem “programar” o material para desempenhar funções específicas — de remover substâncias tóxicas da água até reter o gás carbônico da atmosfera.
Na prática, isso abre caminho para aplicações que vão do combate às mudanças climáticas à produção de energia limpa e à purificação de ar e água.
Há MOFs capazes de absorver a umidade do ar do deserto e transformá-la em gotas de água potável — ou de separar PFAS (poluentes eternos) da água contaminada.
Em outras palavras, os laureados criaram uma espécie de Lego químico que pode ser moldado para resolver alguns dos maiores desafios ambientais e tecnológicos da atualidade.
Como definiu o Comitê Nobel, “suas descobertas abriram novos espaços para a química — literalmente e simbolicamente”.
Nobel de química valoriza descoberta que ajuda o planeta
Palavras-chave:
tecnologia
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