Café = propina: mensagens obtidas pela PF revelam palavras usadas em esquema milionário de fraudes para evitar investigações
Publicado em: 13/11/2025 01:00
PF prende vice-prefeito e secretário da educação de Hortolândia por suspeita de fraude
A Polícia Federal (PF) identificou que os envolvidos no esquema de fraudes em licitações com verbas federais usavam vocabulário próprio para se referir a propina e operações ilegais. Termos como “café”, “mimos”, “alpha”, “pega”, “encomenda” e até “convites de festa” aparecem em agendas, áudios e mensagens analisadas nas investigações, indicando entregas de dinheiro vivo e vantagens indevidas - confira abaixo.
O esquema de fraudes foi revelado na Operação Coffee Break, da PF de Campinas (SP), nesta quarta-feira (12) — a operação levou esse nome por conta do uso da palavra "café". Durante a ação, foram cumpridos 50 mandados de busca e apreensão e seis mandados de prisão preventiva, nos estados de São Paulo, Distrito Federal e Paraná.
A investigação contou com o apoio da Controladoria-Geral da União (CGU) e da Polícia Militar. Entre os presos está o vice-prefeito de Hortolândia (SP), Carlos Augusto Cesar, conhecido como Cafu.
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Segundo a apuração, as prefeituras de Sumaré(SP), Hortolândia (SP), Morungaba (SP) e Limeira (SP) contrataram a empresa Life Tecnologia Educacional para fornecimento de kits e livros escolares com recursos públicos. As investigações apontam superfaturamento, pagamento de propina a servidores, direcionamento de editais e lavagem de dinheiro por meio de empresas de fachada e doleiros. Confira o que dizem os envolvidos aqui.
Como funcionava o esquema?
Investigações apontam que o ciclo da fraude operava desde 2021 e envolvia agentes públicos, lobistas e operadores financeiros clandestinos ("doleiros");
André Mariano, proprietário da Life Tecnologia Educacional, estabelecia contato com secretários de educação e servidores dos municípios;
A empresa vencia os certames com forte indício de pagamentos de propina a servidores;
As licitações eram fraudadas desde a base: os termos eram elaborados de forma que apenas os produtos da Life pudessem ser fornecidos e concorrentes eram desclassificados;
A apuração aponta que o sobrepreço praticado pela Life chegava até 35 vezes o preço de aquisição do produto comercializado;
Após receber os pagamentos superfaturados dos municípios, a empresa direcionava grandes quantias para empresas de fachada, muitas controladas por "doleiros" (operadores financeiros clandestinos);
Os "doleiros" usavam métodos como pagamentos fracionados de boletos e empresas de prateleira para lavar dinheiro e gerar quantias em espécie para o pagamento de propinas;
Esse dinheiro vivo, que André Mariano se referia como "café", era então usado para pagar vantagens indevidas a servidores públicos e lobistas, garantindo o funcionamento do esquema.
Segundo a PF, a Life registrou uma entrada de R$ 128 milhões, por meio de mais de 305 transferências, sendo quase todas provenientes de prefeituras.
LEIA MAIS
Lobistas, doleiros e políticos: quem é quem no esquema de fraude em licitações de materiais escolares no interior de SP
Operação da PF cumpre mandados contra fraudes em licitações em dois estados e no DF
Vocabulário próprio
Da esquerda para direita: Carlos Augusto Cesar, vice-presidente de Hortolândia; e André Gonçalves Mariano, líder da Life Educacional
Reprodução/Redes Sociais e Polícia Federal
A partir de eventos salvos agendas, áudios e mensagens obtidas pela Polícia Federal, a corporação identificou o uso de um vocabulário próprio para se referir à propina. Segundo a PF, nos agendamentos feitos por André Mariano em sua agenda online, o termo "café" foi registrado ao menos 104 vezes, entre 2021 e 2024.
Nos agendamentos, o termo aparecia seguido do município ou nome da pessoa que seria beneficiado, por vezes acompanhado de números que indicariam o valor da propina. As datas dos agendamentos com "café" coincidem com as datas em que valores foram retirados em espécie ou pagamentos foram efetuados a doleiros, servidores públicos e lobistas, segundo a PF.
Ainda conforme as investigações, o termo "Alpha" aparece associado a encontros no bairro Alphaville, em São Paulo, onde doleiros entregavam dinheiro vivo a Mariano. Em conversas de áudio, uma servidora questiona Mariano sobre a distribuição de "mimos", e o empresário chega a perguntar se os "mimos" se referem a "aquela situação" ou "alguma coisa adicional", o que evidenciaria um acordo financeiro.
Além desses, os termos "pega", "encomenda" e "convites da festa" foram expressões codificadas usadas para entregas de dinheiro, segundo a apuração.
50 mandados de busca e seis de prisão
Durante a operação, foram executados 50 mandados de busca e apreensão e seis mandados de prisão preventiva em São Paulo, no Distrito Federal e no Paraná. Todos foram expedidos pela 1ª Vara Federal de Campinas (SP).
Ao todo, foram cumpridos 19 mandados de busca e três de prisão na região de Campinas (SP). Além da metrópole, as ações também ocorreram em Hortolândia, Sumaré (SP), Limeira (SP) e Piracicaba (SP), segundo apuração da EPTV, afiliada da TV Globo.
Os envolvidos podem responder por crimes como corrupção, peculato, fraude em licitação, lavagem de dinheiro, contratação irregular e organização criminosa.
O que dizem os envolvidos?
A prefeitura de Hortolândia disse que aguarda o acesso às informações da denúncia para avaliar quais medidas serão adotadas.
Mario Botion, que era prefeito de Limeira na época das irregularidades, informou que, durante sua gestão, a licitação junto à empresa Life Educacional foi regular e transparente e que está à disposição para esclarecimento. Já a atual administração da prefeitura disse que não renovou o contrato com a empresa, nem fez qualquer pagamento à Life neste ano.
A empresa Life Educacional, principal alvo da investigação, apenas informou que não vai se pronunciar.
O g1 pediu posicionamento a todos os envolvidos e até a publicação desta reportagem não teve retorno dos demais.
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A Polícia Federal (PF) identificou que os envolvidos no esquema de fraudes em licitações com verbas federais usavam vocabulário próprio para se referir a propina e operações ilegais. Termos como “café”, “mimos”, “alpha”, “pega”, “encomenda” e até “convites de festa” aparecem em agendas, áudios e mensagens analisadas nas investigações, indicando entregas de dinheiro vivo e vantagens indevidas - confira abaixo.
O esquema de fraudes foi revelado na Operação Coffee Break, da PF de Campinas (SP), nesta quarta-feira (12) — a operação levou esse nome por conta do uso da palavra "café". Durante a ação, foram cumpridos 50 mandados de busca e apreensão e seis mandados de prisão preventiva, nos estados de São Paulo, Distrito Federal e Paraná.
A investigação contou com o apoio da Controladoria-Geral da União (CGU) e da Polícia Militar. Entre os presos está o vice-prefeito de Hortolândia (SP), Carlos Augusto Cesar, conhecido como Cafu.
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Segundo a apuração, as prefeituras de Sumaré(SP), Hortolândia (SP), Morungaba (SP) e Limeira (SP) contrataram a empresa Life Tecnologia Educacional para fornecimento de kits e livros escolares com recursos públicos. As investigações apontam superfaturamento, pagamento de propina a servidores, direcionamento de editais e lavagem de dinheiro por meio de empresas de fachada e doleiros. Confira o que dizem os envolvidos aqui.
Como funcionava o esquema?
Investigações apontam que o ciclo da fraude operava desde 2021 e envolvia agentes públicos, lobistas e operadores financeiros clandestinos ("doleiros");
André Mariano, proprietário da Life Tecnologia Educacional, estabelecia contato com secretários de educação e servidores dos municípios;
A empresa vencia os certames com forte indício de pagamentos de propina a servidores;
As licitações eram fraudadas desde a base: os termos eram elaborados de forma que apenas os produtos da Life pudessem ser fornecidos e concorrentes eram desclassificados;
A apuração aponta que o sobrepreço praticado pela Life chegava até 35 vezes o preço de aquisição do produto comercializado;
Após receber os pagamentos superfaturados dos municípios, a empresa direcionava grandes quantias para empresas de fachada, muitas controladas por "doleiros" (operadores financeiros clandestinos);
Os "doleiros" usavam métodos como pagamentos fracionados de boletos e empresas de prateleira para lavar dinheiro e gerar quantias em espécie para o pagamento de propinas;
Esse dinheiro vivo, que André Mariano se referia como "café", era então usado para pagar vantagens indevidas a servidores públicos e lobistas, garantindo o funcionamento do esquema.
Segundo a PF, a Life registrou uma entrada de R$ 128 milhões, por meio de mais de 305 transferências, sendo quase todas provenientes de prefeituras.
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Operação da PF cumpre mandados contra fraudes em licitações em dois estados e no DF
Vocabulário próprio
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Reprodução/Redes Sociais e Polícia Federal
A partir de eventos salvos agendas, áudios e mensagens obtidas pela Polícia Federal, a corporação identificou o uso de um vocabulário próprio para se referir à propina. Segundo a PF, nos agendamentos feitos por André Mariano em sua agenda online, o termo "café" foi registrado ao menos 104 vezes, entre 2021 e 2024.
Nos agendamentos, o termo aparecia seguido do município ou nome da pessoa que seria beneficiado, por vezes acompanhado de números que indicariam o valor da propina. As datas dos agendamentos com "café" coincidem com as datas em que valores foram retirados em espécie ou pagamentos foram efetuados a doleiros, servidores públicos e lobistas, segundo a PF.
Ainda conforme as investigações, o termo "Alpha" aparece associado a encontros no bairro Alphaville, em São Paulo, onde doleiros entregavam dinheiro vivo a Mariano. Em conversas de áudio, uma servidora questiona Mariano sobre a distribuição de "mimos", e o empresário chega a perguntar se os "mimos" se referem a "aquela situação" ou "alguma coisa adicional", o que evidenciaria um acordo financeiro.
Além desses, os termos "pega", "encomenda" e "convites da festa" foram expressões codificadas usadas para entregas de dinheiro, segundo a apuração.
50 mandados de busca e seis de prisão
Durante a operação, foram executados 50 mandados de busca e apreensão e seis mandados de prisão preventiva em São Paulo, no Distrito Federal e no Paraná. Todos foram expedidos pela 1ª Vara Federal de Campinas (SP).
Ao todo, foram cumpridos 19 mandados de busca e três de prisão na região de Campinas (SP). Além da metrópole, as ações também ocorreram em Hortolândia, Sumaré (SP), Limeira (SP) e Piracicaba (SP), segundo apuração da EPTV, afiliada da TV Globo.
Os envolvidos podem responder por crimes como corrupção, peculato, fraude em licitação, lavagem de dinheiro, contratação irregular e organização criminosa.
O que dizem os envolvidos?
A prefeitura de Hortolândia disse que aguarda o acesso às informações da denúncia para avaliar quais medidas serão adotadas.
Mario Botion, que era prefeito de Limeira na época das irregularidades, informou que, durante sua gestão, a licitação junto à empresa Life Educacional foi regular e transparente e que está à disposição para esclarecimento. Já a atual administração da prefeitura disse que não renovou o contrato com a empresa, nem fez qualquer pagamento à Life neste ano.
A empresa Life Educacional, principal alvo da investigação, apenas informou que não vai se pronunciar.
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Palavras-chave:
tecnologia
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