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Atrito entre Trump e UE reflete nova ordem mundial e acende alerta para o Brasil

Publicado em: 22/01/2026 15:54

EUA estão negociando 'acesso total' à Groenlândia, diz Trump O presidente americano, Donald Trump, cruzou o Oceano Atlântico nesta quarta-feira (21) para, da cidade suíça de Davos, questionar de forma contundente os países europeus e a aliança transatlântica entre Estados Unidos e Europa, estabelecida após a Segunda Guerra Mundial. O chefe da Casa Branca reafirmou que deseja ver a Groenlândia, um território autônomo da Dinamarca, incorporada aos Estados Unidos – apesar do rechaço do governo dinamarquês e de outros países da União Europeia (UE), parceiros de aliança militar na Otan. Em discurso no Fórum Econômico Mundial, o presidente americano disse que não pretende usar a força para anexar o território, chamou a Dinamarca de "ingrata", minimizou a questão como um "pequeno pedido" e argumentou que uma aquisição não representaria uma ameaça à Otan – que, segundo ele, custa muito para Washington e oferece pouco retorno. O discurso foi salpicado de outras críticas ao continente. O presidente americano disse que a Europa "não está indo na direção certa", que seu foco em energias renováveis é equivocado e que "a migração em massa feriu" os países europeus. Horas depois veio o recuo: após um "encontro muito produtivo" com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, Trump disse que ambos definiram "o quadro geral de um futuro acordo em relação à Groenlândia" e que, diante disso, as novas tarifas comerciais aos aliados europeus estavam canceladas. Abalo à noção de Ocidente A fala de Trump não trouxe grandes novidades em relação ao que ele e seus assessores já vinham dizendo sobre a Europa. Em fevereiro de 2025, no início do segundo mandato do republicano, seu vice, JD Vance, já fizera duras críticas à Europa num discurso de teor semelhante na Conferência de Segurança de Munique. Mas a insistência em anexar a Groenlândia, território da aliada Dinamarca, é um forte abalo à própria noção de Ocidente, afirma à DW o professor de relações internacionais Vinicius Vieira, da FAAP, e representa "o potencial fim de uma categoria política que, para o bem ou para o mal, serviu de baliza para uma série de decisões internacionais até mesmo antes da Segunda Guerra Mundial". "A noção de Ocidente como um bloco único de superioridade em relação ao mundo fez com que houvesse uma espécie de unidade político-cultural" entre Estados Unidos, de um lado do Atlântico Norte, e os países europeus, do outro. Agora, a política externa de Trump trata a Europa, "na prática, como um quintal dos Estados Unidos, tal como ironicamente os Estados Unidos sempre fizeram com a América Latina", diz Vieira. Ele vê a possível emergência de uma "nova era", na qual a Europa deixaria de ser vista como uma parceira estratégica dos Estados Unidos e estaria numa posição de subordinação. "De qualquer forma, será um mundo novo, porque a Europa, que sempre foi um exemplo de direitos humanos, de direitos sociais, terá menos recursos para isso porque vai precisar se rearmar." Ao tratar a aquisição de um território autônomo pertencente a um país europeu como algo legítimo, ainda que sob a retórica da compra, Trump rompe abertamente com princípios centrais das relações transatlânticas, reforça a pesquisadora Neusa Bojikian, da Unicamp e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU). Segundo ela, isso é particularmente preocupante para a Europa, que por um bom tempo "se apoiou justamente na defesa de que regras, instituições e interdependência econômica funcionariam como amortecedores de conflitos e aplacariam os arroubos de determinados governantes voluntariosos e as clássicas investidas de política de poder duro". Bojikian ressalta que essa era uma realidade já conhecida de muitos países e regiões, mas não dos europeus continentais, do Reino Unido, do Canadá, que eram os principais aliados e pareciam estar seguros de sua inviolabilidade territorial. "Agora esses aliados históricos estão testemunhando, de forma dura, que as regras estão sendo aplicadas de maneira seletiva e que nenhum país está resguardado com base no direito internacional." Palco para a extrema direita Quando Trump critica o pesado investimento feito pela Europa em energias renováveis e diz que o continente foi "ferido" pela migração, Vieira pontua que ele está dando vazão a posições racistas da extrema direita mundial, inclusive da europeia, que acredita na teoria da conspiração da "grande substituição" da população branca cristã por estrangeiros, em especial muçulmanos. O especialista considera que o presidente americano possa estar interessado, na verdade, em desmantelar a União Europeia, ou qualquer unidade europeia, e estabelecer laços com políticos e governos mais alinhados aos seus interesses. Ao atacar a transição energética europeia, Trump também tenta desqualificar a agenda climática como pilar da governança global, acrescenta Bojikian. "Para um continente que tenta conciliar urgentemente crescimento econômico, sustentabilidade e segurança energética, esse tipo de ataque atua como fator desestabilização", diz. Riscos para o Brasil A disposição de Trump de fazer bullying com a Europa, um aliado tradicional dos Estados Unidos, para obter a Groenlândia envia um sinal ruim também para outros aliados, como o Brasil, ou qualquer outro país rico em recursos naturais ou com territórios de valor geopolítico estratégico, avalia Vieira. Essa percepção é reforçada pela nova estratégia de segurança dos EUA para o Hemisfério Ocidental – que inclui o aumento da presença militar dos EUA e a disposição de realizar operações com uso de força militar, como a que capturou o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, no início do ano. Vieira diz que, em meios militares brasileiros, circulam temores relacionados às ilhas marítimas brasileiras – incluindo Fernando de Noronha – e à Base Aérea de Natal, no Rio Grande do Norte, construída em parceria com os EUA e usada pelos Aliados durante a Segunda Guerra. "Algo que seria muito fácil num [futuro] governo de direita, mais próximo à visão de mundo do Trump", observa. Vieira lembra que, durante a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos tinham planos para ocupar partes do Nordeste e do Norte brasileiros para assegurar o fornecimento de borracha. A revalorização explícita das zonas de influência, como fizeram os Estados Unidos em relação à América Latina em sua nova estratégia de segurança, estimula temores como esses. Ao mesmo tempo reduz a margem de manobra de países como o Brasil para adotar estratégias de desenvolvimento que combinem crescimento econômico, inclusão social e transição ecológica, afirma Bojikian, do INCT-INEU. Efeito positivo para o Mercosul Por outro lado, Bojikian avalia que as ameaças de Trump contra a Europa funcionam como um choque externo para os governos europeus e os forçam a buscar alternativas para reduzir sua vulnerabilidade estratégica. "Por exemplo retomando o acordo com o Mercosul" como parte de uma estratégia defensiva de diversificação de parceiros, diz. De fato, em entrevista à DW, o presidente do Paraguai, Santiago Peña, não se furtou de agradecer a Trump pelo acordo entre o Mercosul e a UE. "Um grande agradecimento ao presidente Trump, é claro, porque ele veio com essa nova agenda sobre tarifas, o que assustou muitos países europeus. Então, eles acharam que seria bom assinar um acordo com outras regiões", disse Peña à DW em Assunção, no dia da assinatura do acordo.

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Cuidado! Fones da JBL, Xiaomi, Logitech e outras marcas podem ser hackeados para espionar você

Publicado em: 22/01/2026 02:37 Fonte: Tudocelular

E parece que nem ao usar fones de ouvido estamos protegidos de invasores. Uma nova vulnerabilidade em dispositivos Bluetooth está colocando em risco milhões de usuários no mundo todo. Pesquisadores da Universidade KU Leuven, na Bélgica, descobriram falhas graves no protocolo Fast Pair — Pareamento Rápido — do Google, tecnologia usada para emparelhar fones e alto-falantes com apenas um toque. Essa mesma conveniência, que se assemelha ao recurso presentes nos iOS, pode ser explorada por hackers para se conectar a acessórios sem permissão, chegando a níveis assustadores. Clique aqui para ler mais

Palavras-chave: hackerhackerstecnologia

Como um brasileiro invadiu os sistemas da Nasa e foi reconhecido pela agência espacial dos EUA

Publicado em: 21/01/2026 02:00

Como um brasileiro invadiu os sistemas da Nasa e foi reconhecido pela agência americana "Frustrante e muito irritante". É assim que o brasileiro Carlos Eduardo Zambelli Aloi, de 38 anos, profissional de segurança da informação, descreve os seis meses que passou, ao longo de 2025, em busca de falhas de segurança em sistemas da Nasa, a agência espacial americana. Segundo ele, os problemas encontrados nem sempre eram aceitos quando reportados à Nasa e, em alguns casos, o retorno com feedback demorava semanas. Em novembro de 2025, a agência reconheceu duas das 26 falhas de segurança identificadas por Carlos Eduardo em sistemas próprios. 'Me sinto suja', diz brasileira vítima de foto editada de biquíni pelo Grok Em uma das vulnerabilidades, ele afirma ter acessado um documento no Google Docs com um artigo científico que deveria estar restrito a funcionários da Nasa. Na outra, foi possível acessar informações sensíveis, como senhas (saiba mais abaixo). Carlos Eduardo Zambelli Aloi trabalha há mais de 20 anos com tecnologia da informação. Arquivo pessoal Como resposta, Carlos recebeu uma carta de agradecimento assinada pela diretora de segurança da informação da Nasa, Tamiko Fletcher. Segundo ele, o reconhecimento não envolve recompensa financeira (leia a carta na íntegra ao final da reportagem). "Para mim, é uma conquista pessoal, de testar até onde consigo ir e saber se estou no caminho certo. Isso reforça que meus estudos e o trabalho que venho fazendo na área estão dando resultado", disse ao g1. Procurada, a Nasa não quis comentar as descobertas do brasileiro por "questões de segurança". Em nota, um porta-voz afirmou que a agência mantém um programa para o relato responsável de falhas encontradas por pesquisadores externos, aberto a qualquer pessoa. Além dele, o g1 encontrou outros dois brasileiros que também foram reconhecidos pela agência norte-americana. Os nomes aparecem no site Bugcrowd, plataforma usada pela Nasa para receber relatórios de vulnerabilidades. O g1 não conseguiu contato com eles até a publicação desta reportagem. Tamiko Fletcher, diretora de segurança da informação da Nasa. Divulgação/Nasa Seis meses de tentativas até a carta Os esforços de Carlos Eduardo começaram no meio do ano passado. A partir de novembro, ele intensificou as buscas, dedicando de três a quatro horas por dia (geralmente entre 21h e 2h da manhã) após o expediente de trabalho e as aulas da pós-graduação de cibersegurança ofensiva. No primeiro teste, Carlos afirma ter acessado diretórios restritos e manipulado identificadores de login para baixar documentos internos. Segundo ele, chegou a obter permissão de edição em um artigo científico armazenado no Google Drive. "Era um estudo sobre condições de vento solar e eventos magnéticos, possivelmente ligado à astronomia e à física espacial", afirmou. "Eu entrei e inseri um link para um site falso. A partir daí, se quisesse, poderia roubar credenciais, como e-mails e senhas, de pessoas da Nasa". O arquivo, ao qual o g1 conseguiu visualizar parte, continha a mensagem "for more content click here:" ("para mais conteúdo, clique aqui:"), acompanhada do site falso criado por ele. No segundo teste, o brasileiro afirmou ter encontrado uma pasta restrita com dados internos da Nasa, como repositórios de sistemas, credenciais de acesso (senhas) e endereços de IP usados pela agência. O material foi localizado após uma série de tentativas para mapear falhas na estrutura digital da instituição. Segundo ele, foram usadas técnicas de reconhecimento e enumeração para identificar diretórios e pastas que não deveriam estar visíveis. Ao encontrar uma brecha, disse ter conseguido explorá-la como ponto de entrada para acessar outras áreas do sistema, até localizar a pasta restrita. "Você encontra uma brecha, entra nela e descobre outra, avançando aos poucos", explicou. "É como um rato procurando um caminho. Nesse processo, acabei chegando a informações muito sensíveis da infraestrutura interna deles". Segundo ele, a Nasa demorou a responder. O relatório sobre a vulnerabilidade ficou semanas em análise e o retorno só veio após a correção do problema. "Você passa muito tempo testando, monta o relatório, envia e ele não é aceito ou a falha é considerada sem impacto. É frustrante ficar horas trabalhando e não receber retorno", disse. O g1 teve acesso a parte das evidências encontradas, mas a divulgação do material depende de autorização da Nasa. A liberação foi solicitada pelo brasileiro, mas não houve resposta até a publicação desta reportagem. Mensagem da Nasa que pede autorização para divulgação de materiais Reprodução/Nasa LEIA TAMBÉM: Segurança da informação tem salário de R$ 38 mil, mas não encontra profissionais Apple fecha parceria com Google para levar o Gemini aos iPhones 'Você Morreu?': app faz sucesso por monitorar pessoas que vivem sozinhas Brasileiro trabalha com TI há mais de 20 anos Carlos Eduardo vive em São Paulo e diz que trabalha com tecnologia da informação (TI) há mais de 20 anos. Ele atua na área de cibersegurança há cerca de uma década. Atualmente, é analista de sistemas sênior em uma das maiores redes de estacionamentos do Brasil. Segundo ele, a persistência em buscar falhas nos sistemas da Nasa também foi influenciada por um momento pessoal delicado: a morte do pai, em outubro de 2025. Carlos afirma que o desafio técnico serviu como forma de distração durante o luto. "Eu me apoiei nisso para distrair a cabeça, porque é uma coisa que eu gosto de fazer", disse. Ele já tinha experiência em testes de invasão por meio de programas oferecidos por empresas, que convidam profissionais da área a buscar vulnerabilidades em seus sistemas. Segundo ele, em alguns desses casos há recompensas financeiras. Receber um reconhecimento da Nasa, mesmo sem pagamento, era um objetivo pessoal. "Eu sempre quis ter essa carta. Acompanhava outras pessoas que recebiam esse reconhecimento depois de encontrar falhas. Eu queria muito isso", contou. A carta foi emitida em nome de "Kazam", apelido que ele usa em comunidades de hacking (grupo de hackers) e que reúne "Kadu", seu apelido, com o sobrenome Zambelli. O feito também garantiu ao brasileiro um lugar na "hall da fama" da Nasa no site da Bugcrowd, plataforma de cibersegurança colaborativa usada pela agência para receber relatórios de falhas (veja na imagem abaixo). O site Bugcrowd é uma das principais plataformas que reúnem empresas interessadas em incentivar pesquisadores a identificar falhas de segurança. Em muitos casos, o reconhecimento se limita a uma menção no "hall da fama", mas algumas companhias oferecem recompensas mais atrativas, como dinheiro ou produtos. Em nota, a Nasa confirmou que o Bugcrowd é o canal usado por pesquisadores para relatar vulnerabilidades em seus sistemas, com concessão de cartas de reconhecimento após a correção dos problemas, e que o "hall da fama" é gerenciado pela própria Bugcrowd. Brasileiro aparece no "hall da fama" da Nasa no site da Bugcrowd. Reprodução/Bugcrowd O reconhecimento veio por meio da Vulnerability Disclosure Policy (Política de Divulgação de Vulnerabilidades), programa que conta com a ajuda de pesquisadores para identificar problemas de segurança em sistemas da agência, incluindo sites oficiais como nasa.gov e nsc.nasa.gov. Em seu site, a Nasa informa que nem todos os relatórios resultam em uma carta de reconhecimento, chamada de "Letter of Recognition" (LOR). Segundo a agência, o documento é concedido apenas a relatórios validados, aceitos e confirmados como corrigidos (veja todas as regras aqui). Na carta enviada ao brasileiro, a Nasa afirma que o relatório dele "contribuiu para ampliar a conscientização sobre vulnerabilidades que, de outra forma, poderiam permanecer desconhecidas, ajudando a proteger a integridade e a disponibilidade das informações da agência". Carlos diz conhecer outros brasileiros já reconhecidos pela Nasa e afirma que, após o reconhecimento, passou a receber mensagens de pessoas interessadas em participar do programa. Carta da Nasa enviada ao Brasileiro Eduardo Zambelli Aloi Arquivo pessoal/Eduardo Zambelli Aloi Leia a tradução da carta "Administração Nacional da Aeronáutica e do Espaço Sede da NASA Mary W. Jackson Washington, DC 20546-0001 Prezado Kazam, Em nome da Administração Nacional da Aeronáutica e do Espaço e da Política de Divulgação de Vulnerabilidades (VDP) da NASA, gostaríamos de reconhecer seus esforços como pesquisador independente de segurança, tanto na identificação da vulnerabilidade que você submeteu quanto no cumprimento da política e das diretrizes da VDP da NASA ao reportá-la de forma responsável. A capacidade de detectar e relatar vulnerabilidades de segurança é uma habilidade valiosa na indústria de segurança da informação. Seu relatório contribuiu para ampliar a conscientização da NASA sobre vulnerabilidades que, de outra forma, poderiam permanecer desconhecidas, e nos ajudou a proteger a integridade e a disponibilidade das informações da NASA. Por favor, aceite esta carta como um sinal de nossa apreciação por seus esforços na detecção dessa vulnerabilidade, contribuindo para que a NASA possa continuar avançando nas áreas de ciência, tecnologia, aeronáutica e exploração espacial, com o objetivo de ampliar o conhecimento, a educação, a inovação, a vitalidade econômica e a preservação da Terra. Estamos todos juntos nisso como uma comunidade de segurança, e sua participação e expertise são dignas de reconhecimento. Atenciosamente, Tamiko Fletcher Atuante como Diretora Sênior de Segurança da Informação da Agência (SAISO) Escritório do Diretor de Informação da NASA (OCIO) Política de Divulgação de Vulnerabilidades da NASA (VDP) 22 de dezembro de 2025" O que diz a Nasa "A NASA reconhece que vulnerabilidades externas podem ser descobertas por qualquer pessoa a qualquer momento e criou a Política de Divulgação de Vulnerabilidades para que pesquisadores de segurança relatem de boa-fé as vulnerabilidades que descobriram. Relatórios de vulnerabilidades pelo canal oficial são reconhecidos, e pesquisadores de segurança podem ser contatados durante a remediação. Por questões de segurança, não é apropriado que a NASA comente relatórios específicos. Por favor, entre em contato com a Agência de Segurança de Cibersegurança e Infraestrutura para obter informações adicionais sobre sistemas federais. - Porta-voz" Ferramenta gratuita da rede social X tem sido usada para criar imagens íntimas falsas Cerco ao 'gatonet' derruba milhares de sites e apps piratas no Brasil Crise da memória RAM pode deixar celulares, notebooks e até carros mais caros no Brasil

Palavras-chave: hackerhackerstecnologia

Mar avança de novo e forma paredão de areia em praia de Matinhos, ao lado da estrutura onde Governo do Paraná promove shows de verão

Publicado em: 20/01/2026 10:50

Forte ressaca causa estragos no litoral do Paraná e forma novo paredão de areia A forte ressaca que atingiu Matinhos, no litoral do Paraná, formou um novo degrau de cerca de 2 metros de altura na faixa de areia no fim da tarde de segunda-feira (19). Banheiros químicos instalados na orla também caíram. O paredão surgiu após uma ressaca — quando ventos fortes e marés mais altas provocam a erosão da orla — e se formou próximo à estrutura dos shows do Verão Maior, promovido pelo Governo do Estado. ✅ Clique aqui e siga o g1 PR no WhatsApp A primeira ocorrência do fenômeno foi registrada em 4 de janeiro. Na ocasião, equipes do governo estadual fizeram uma contenção emergencial no local. No dia seguinte, a areia começou a ser recolocada na tentativa de nivelar a orla da praia. Segundo o Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar), os ventos no litoral chegaram a 50 km/h. Uma equipe da Defesa Civil estadual esteve no local para avaliar os estragos, e a Prefeitura de Matinhos confirmou a ação intensa da ressaca na cidade. Degrau praia Matinhos Reprodução/RPC Degrau areia Matinhos Reprodução/RPC Em nota, o Instituto Água e Terra (IAT) informou que mobilizou equipes para atuar na região afetada. Segundo o órgão, os trabalhos de recomposição da areia serão feitos em conjunto com a empresa responsável pela obra, durante a noite e ao longo dos próximos dias. "A proteção que foi feita no começo do ano ajudou a conter a perda de estrutura da praia e evitou alagamentos na área central de Matinhos", disse o instituto. A ressaca também provocou transtornos no transporte marítimo. Quem tentou retornar da Ilha do Mel, enfrentou dificuldades por causa das condições do mar. A Prefeitura de Pontal do Paraná informou que o transporte por barca foi suspenso por determinação da Marinha. LEIA TAMBÉM: Agressão: Mãe é presa por espancar filhas após elas se recusarem a acompanhá-la em festa Doutor Camargo: Vice-prefeito é preso após ser parado em blitz e polícia descobrir que moto usada por ele tinha alerta de furto Foz do Iguaçu: Família tenta embarcar com mais de 100 iPhones escondidos em nove malas em aeroporto Alertas anteriores sobre a engorda da praia Obras de engorda da faixa de areia em Matinhos foram concluídas em 2022. Alessandro Vieria/AEN Entre 2020 e 2021, um grupo de pesquisadores da UFPR publicou três notas técnicas apontando para "graves consequências ambientais, paisagísticas e financeiras do empreendimento, assim como para a qualidade de vida da população afetada, especialmente a longo prazo". O parecer final recomendou o "cancelamento dos procedimentos de execução da obra e novo rito de licenciamento e viabilidade ambiental". De acordo com os pesquisadores, a erosão que atinge a orla de Matinhos tem origem na ocupação irregular da região de areia e degradação da vegetação nativa. "Com a retirada da vegetação primária de restinga, somada à ocupação da faixa de areia por edificações antrópicas, perdeu-se demasiadamente o equilíbrio ecossistêmico na região. Esses impactos culminam com o aumento da vulnerabilidade das áreas costeiras a ressacas", destacava o documento. Vídeos mais assistidos do g1 Paraná: Leia mais notícias em g1 Paraná

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Brasil é denunciado à Comissão da OEA por violação de direitos humanos nas operações Escudo e Verão

Publicado em: 20/01/2026 05:02

Família protesta morte de jovem em audiência pública sore a operação escudo/verão Gustavo Honório/g1 A Defensoria Pública de São Paulo e o Conectas Direitos Humanos denunciaram o Brasil à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), da Organização dos Estados Americanos (OEA), por violações dos direitos humanos nas operações Escudo e Verão. As operações ocorreram entre julho de 2023 e maio de 2024, na Baixada Santista, no litoral de São Paulo, e resultaram na morte de 84 pessoas em supostos "confrontos" com policiais militares. Segundo a denúncia de 252 páginas, obtida com exclusividade pelo g1, as ações — que ficaram conhecidas como "operações vingança" — foram marcadas por execuções sumárias, tortura, racismo institucional, impunidade, falha nas investigações e violência estrutural do Estado. Signatário e membro fundador da OEA, o Estado brasileiro cometeu as seguintes violações, de acordo com a denúncia: Direito à vida: execuções extrajudiciais e uso letal da força sem ameaça real; Proibição da tortura: maus-tratos, execuções, sobreviventes algemados em coma e humilhações; Falta de investigação e impunidade: inquéritos arquivados, perícias falhas e prevalência da palavra policial; Uso desproporcional da força: emprego de fuzis, tiros pelas costas e mortes dentro de casas; Violação de direitos de crianças e adolescentes: mortes de adolescentes e abordagens armadas em horário escolar; Destruição de famílias e trauma coletivo: medo permanente, depressão e ruptura da vida comunitária; Racismo e discriminação: letalidade concentrada em pessoas negras e periféricas; Intimidação e silenciamento: ameaças a testemunhas e medo de denunciar; Descumprimento de decisões internacionais: Brasil não implementou reformas exigidas pela Corte Interamericana. Veja os vídeos que estão em alta no g1 🔎 O que é a Comissão Interamericana de Direitos Humanos? Criada em 1959, a CIDH é um órgão da OEA que recebe e analisa denúncias de violações de direitos humanos cometidas por países das Américas. Ela pode investigar casos, solicitar informações aos governos e emitir recomendações. Se o Estado não cumpre os pedidos, o caso pode ser enviado à Corte Interamericana, que pode condenar o país. Em julho do ano passado, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) arquivou os inquéritos que investigavam as mortes nas operações Escudo e Verão — mesmo diante indícios de execuções, fraude processual e adulteração das cenas dos crimes. A defensora pública Surrailly Fernandes Youssef, do Núcleo de Direitos Humanos, explica que a denúncia é mais uma etapa na luta das famílias das vítimas e dos sobreviventes por justiça, memória e reparação frente às violações de direitos humanos identificadas no decorrer das operações. A denúncia quer chamar a atenção para a persistência de um padrão de alta letalidade policial no estado de São Paulo, que teve um aumento nos últimos três anos do governo Tarcísio, exemplificando a importância de que a gente interrompa esse ciclo de aumento da letalidade policial e de perpetuação de padrões de atuação no uso excessivo da força. Procurada, a Secretaria da Segurança Pública afirmou que "todas as ocorrências de mortes registradas durante as operações foram rigorosamente investigadas". A pasta ainda disse que "a Polícia Militar atua dentro da legalidade, com base na Constituição e nas leis, e não tolera desvios de conduta de seus agentes" (veja a nota completa mais abaixo) . Já o Ministério Público de São Paulo informou, em nota, que "as alegações mencionadas pela reportagem não guardam a mínima relação com os fatos" e que "atuou de forma eminentemente técnica" (leia na íntegra abaixo). LEIA TAMBÉM: Mortes cometidas por PMs em serviço aumentam em SP em 2025; alta é maior no 2º semestre, após mudança no modelo de câmeras Operação Escudo: MP arquiva investigação contra motoboy baleado desarmado por PMs EXCLUSIVO: Corpos de vítimas da PM na Baixada Santista são levados a hospitais para evitar perícia, dizem funcionários da saúde Policiamento em Guarujá (SP) foi reforçado durante 'Operação Escudo' (esq.) / Soldado Patrick Reis foi assassinado em julho de 2023 (dir.) Montagem/g1/Reprodução Solicitações à Comissão Interamericana Na denúncia apresentada à CIDH, a Defensoria Pública e o Conectas solicitam, inicialmente, a decretação de sigilo absoluto sobre a identidade e os dados pessoais das vítimas diretas e indiretas das Operações Escudo e Verão, além de seus familiares, em todas as fases do processo. As instituições também pedem que o Estado brasileiro seja responsabilizado internacionalmente por violações a direitos previstos na Convenção Americana de Direitos Humanos e em outros tratados. Entre os pontos citados estão a violação ao direito à vida, à integridade física e psicológica, às garantias judiciais e à proteção judicial, além de práticas discriminatórias baseadas em raça e condição social, falta de acesso à informação e violações aos direitos de crianças e adolescentes. Como medidas de reparação, são solicitadas ações para evitar a repetição das violações, como o fortalecimento do controle sobre as polícias, a criação de uma perícia independente, regras claras para operações em comunidades e apoio material às famílias das vítimas. O pedido inclui ainda reabertura das investigações, atendimento psicológico e de saúde, reparação financeira, um pedido público de desculpas, a criação de um memorial e políticas permanentes de assistência às vítimas e seus familiares. Relembre as operações Escudo e Verão A Operação Escudo foi desencadeada logo após a morte do soldado Patrick Bastos Reis das Rondas Ostensivas Tobias Aguiar (Rota) em 27 de julho de 2023 em Guarujá. A ação tinha como objetivo inicial identificar e prender os suspeitos de envolvimento no assassinato do policial. Mesmo após a prisão dos suspeitos, a Polícia Militar manteve sucessivas incursões em comunidades da região, com o uso de armamento pesado, que resultaram na morte de 28 pessoas e deixaram outras duas gravemente feridas. Segundo a denúncia, "a motivação da operação foi retaliatória, caracterizando vingança institucional". A pesquisa “Vingança, uso da força e a utilização de provas nos casos de violência letal e lesões graves: dois anos da Operação Escudo/2023”, realizada pelo Grupo de Estudos de Novos Ilegalismos (GENI) da UFF e usada para embasar a denúncia, aponta que as operações foram realizadas sem planejamento operacional, análise de risco ou supervisão independente. Já a Operação Verão foi deflagrada em fevereiro de 2024, com os mesmos padrões da Escudo, e intensificada após as mortes dos policiais militares Marcelo Augusto da Silva, Samuel Wesley Cosmo e José Silveira Santos, ocorridas em 26 de janeiro, 2 de fevereiro e 7 de fevereiro de 2024, respectivamente. Ao todo, 84 pessoas foram mortas durante as duas operações. Segundo a denúncia, “a alta letalidade e o fato de as ações terem sido deflagradas após a morte de agentes do Estado revelam que as Operações Escudo e Verão configuraram práticas de retaliação institucional, incompatíveis com o Estado Democrático de Direito”. De acordo com o documento, as duas operações tiveram em comum: intensificação após a morte de agentes do Estado; alto índice de letalidade policial; boletins de ocorrência padronizados; denúncias das comunidades locais de violações de direitos e uso excessivo da força. Perfil das vítimas e criminalização Homens negros, jovens e moradores de regiões periféricas da Baixada Santista. Este é o perfil das vítimas das operações Escudo e Verão que revela um padrão seletivo e sistemático de direcionamento da força letal do Estado, segundo a denúncia. O relatório aponta ainda um histórico de vulnerabilidade social entre as vítimas. Entre os 28 mortos analisados na Operação Escudo, havia dois adolescentes, de 15 e 17 anos, e oito pessoas em situação de extrema vulnerabilidade (com dependência química, em situação de rua ou com transtornos mentais). Jovem morto em confronto com a polícia durante Operação Verão era deficiente visual Reprodução Um dos exemplos citados é do jovem Hildebrando Neto, de 24 anos, executado em março de 2024, durante a Operação Verão. Na época, a polícia alegou que ele apontou uma arma na direção deles e que, por isso, os agentes atiraram três vezes em legítima defesa. Contudo, o jovem era cego de um olho e tinha apenas 20% de visão no outro — condição que inviabilizaria o manuseio ou a mira de uma arma de fogo, de acordo com a denúncia à CIDH. Outro caso é do motoboy Evandro Alves da Silva, um dos sobreviventes da Operação Escudo. Em agosto de 2023, três PMs atiraram contra o homem, enquanto ele estava nu e usava o banheiro num imóvel onde funcionava um ponto de apoio para mototaxistas em Santos. Mesmo ferido com tiros de calibre 12, Evandro conseguiu pular a janela do banheiro, após quebrar o vidro, e caiu de uma altura de 7 metros nos fundos da casa. O g1 e a GloboNews divulgaram com exclusividade as imagens das câmeras corporais dos PMs que registraram toda a ação (veja abaixo). Exclusivo: câmeras corporais mostram PMs atirando em motoboy durante operação Para Gabriel Sampaio, diretor de litigância e incidência da Conectas, tanto as operações quanto as investigações evidenciam uma seletividade das vítimas marcada pelos aspectos racial e social. "As operações atingiram fundamentalmente pessoas negras, pobres, periféricas. E as investigações invisibilizaram todo o contexto onde as mortes ocorreram. Algo que é bastante representativo disso tudo é o fato de que versões, declarações de vítimas e familiares não tiveram peso na avaliação e nas conclusões feitas por parte de investigadores e do próprio Ministério Público", afirma Sampaio. Na avaliação da defensora Surrailly Youssef, as investigações também revelaram um processo de criminalização das vítimas, ocorrendo desde a seleção dos alvos das operações até o encerramento das investigações. Esse processo se deu por meio dos seguintes mecanismos por parte do Ministério Público e das polícias de São Paulo: Estigmatização territorial: comunidades da Baixada Santista foram tratadas como “áreas hostis” ou “zonas de risco”. Morar ou circular nesses locais, especialmente de madrugada, era considerado indício de envolvimento com o crime; Antecedentes criminais: cerca de 77,7% das vítimas fatais tinham histórico criminal. Há relatos de consultas prévias a fichas criminais para localizar pessoas específicas e justificar as mortes; Tatuagens como indício de crime: o MP teria usado a presença de tatuagens para associar vítimas à criminalidade, sem respaldo em provas técnicas; Suspeita de fraude processual: foram relatados flagrantes forjados, com armas e drogas supostamente “plantadas” nas cenas dos crimes. Câmeras corporais teriam registrado policiais inserindo objetos após os disparos; Versão padrão de confronto: boletins de ocorrência repetiam justificativas de legítima defesa e reação armada antes da realização de perícias; Tratamento a sobreviventes: pessoas feridas foram interrogadas ainda em estado grave, sob escolta armada, e passaram a ser investigadas por crimes como resistência e porte ilegal de arma; Desconsideração de testemunhas: depoimentos de familiares e moradores que relataram execuções sumárias foram tratados como relatos isolados ou suspeitos; Remoção de corpos: em 91,6% dos casos da Operação Escudo, os corpos foram retirados do local sob alegação de socorro, apesar de já estarem sem vida, dificultando a perícia. Em 2024, o g1 também revelou com exclusividade que pessoas baleadas pela Polícia Militar na Operação Verão, intensificada em fevereiro após a morte de um policial, já estavam mortas quando foram levadas às unidades de saúde. Impacto nas famílias e na comunidade Além das famílias das vítimas, toda a comunidade foi atravessada pela morte e teve a vida marcada pelas consequências do uso excessivo da força policial. Os impactos são de longo prazo e múltiplos: psicológico, social e econômico. Segundo Gabriel Sampaio, a omissão do Estado nas investigações e na responsabilização dos agentes de segurança também tira das vítimas e dos familiares o direito à memória e ao acesso à justiça, à verdade e à ampla defesa. Moradores descreveram à Defensoria um ambiente de terror, com a circulação quase diária de batalhões de choque, Rota e Baep (Batalhão de Ações Especiais de Polícia) armados com fuzis, entradas repentinas em vielas e abordagens indiscriminadas, inclusive de crianças. Em algumas regiões, como a Vila dos Pescadores, moradores relataram que as operações ocorriam nos horários de entrada e saída das escolas, interrompendo a rotina, gerando medo de deslocamento e levando à suspensão de atividades básicas. Há relatos de crianças abordadas com fuzis apontados para a cabeça, pressionadas a indicar supostos traficantes. A defensora Gabriele Estabile Bezerra, do Núcleo da Infância e Juventude, também chama a atenção para o impacto das mortes e as consequências entre as crianças e adolescentes, que passa pela desestruturação da família e dificuldades financeiras. "Tem os adolescentes que foram vítimas diretas. Então é o impacto de perder um ente que tinha todo um projeto de vida, que poderia ter se desenvolvido para ser arrimo de família e sustento - fora o luto dessas mães que têm que lidar e se reestruturar para ocupar esse espaço. Também o ponto de vista das crianças que vão ter que fazer o seu desenvolvimento pessoal, seja no aspecto financeiro, emocional, educacional, sem o sustento dos pais", explica Gabriele. Moradores, familiares de mortos e associações dizem que operação policial, em Guarujá (SP), foi 'chacina' Diego Bertozzi/TV Tribuna Condenações anteriores O Brasil já foi condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos por ações policiais consideradas violações de direitos humanos. Dois dos casos mais emblemáticos são os da Favela Nova Brasília, no Rio de Janeiro, e da Operação Castelinho, em São Paulo. Em 2017, a Corte responsabilizou o Estado brasileiro por duas chacinas ocorridas na Favela Nova Brasília, no Complexo do Alemão, em 1994 e 1995. Nas operações, 26 pessoas foram mortas e três mulheres sofreram violência sexual praticada por agentes de segurança. Já em 2024, o Brasil foi condenado pela Operação Castelinho, realizada em 2002, quando 12 pessoas foram executadas extrajudicialmente pela Polícia Militar de São Paulo. Segundo a decisão, a ação foi planejada para resultar em mortes ilegítimas e não foi seguida de investigação adequada. Na época, a sentença determinou medidas para reforçar o controle da atividade policial, como o afastamento temporário de agentes envolvidos em mortes durante as apurações e o aprimoramento de registro como câmeras corporais. Apesar dessas determinações, o Brasil promovou poucos avanços na avaliação da defensora Cecilia Nascimenyo Ferreira, do Núcleo de Direitos Humanos. A defensora aponta que o MP presidiou investigações sobre as operações Escudo e Verão - diferentemente do que aconteceu no caso Castelinho e em outros casos. Contudo, as apurações, incluindo a perícia, não foram executadas de forma autônoma em relação à Polícia Civil. "No caso Castelinho, já tinha uma condenação do Brasil para que provesse o Ministério Público de recursos financeiros e pessoais para esse tipo de atuação [independente]. Então, a gente vê que é um caminho, mas, de fato, muitas coisas que já foram repetidas em outras condenações internacionais contra o Brasil continuam sendo um problema. A gente vive muitos retrocessos. O caso da Favela Novo Brasília e o que aconteceu agora na Penha mostra repetição. Esses casos de violência policial mostram que os avanços ainda são muito tímidos, se é que eles existem de fato", afirma Cecília. A defensora pública Surrailly Youssef destaca que o uso de câmeras corporais representou um avanço importante na redução da letalidade policial, mas afirma que o recurso não foi utilizado de forma adequada nas Operações Escudo e Verão. "A gente percebeu que foi um padrão de não uso dessa tecnologia ou o mau uso dessas câmeras corporais pelos policiais envolvidos nessas ocorrências, com câmeras descarregadas, câmeras deixadas na viatura durante a operação [...] A criação de alguns mecanismos institucionais foram fragilizados nos últimos anos", afirma. O que diz a Secretaria da Segurança Pública "As operações Escudo e Verão, realizadas na Baixada Santista com foco no combate ao tráfico de drogas e ao crime organizado entre 2023 e 2024, resultaram na prisão de mais de dois mil criminosos, sendo 826 foragidos da Justiça, além da prisão de importantes lideranças de facções criminosas. As ações também possibilitaram a retirada de 119 armas de fogo das ruas, incluindo fuzis de uso restrito, e a apreensão de mais de 3,6 toneladas de drogas. Todas as ocorrências de mortes registradas durante as operações foram rigorosamente investigadas pelas polícias Civil, por meio do Deic de Santos, e Militar, com acompanhamento das corregedorias, do Ministério Público e do Poder Judiciário. O conjunto probatório reunido nas apurações, incluindo imagens de câmeras corporais, foi devidamente compartilhado com os órgãos de controle. A Polícia Militar atua dentro da legalidade, com base na Constituição e nas leis, e não tolera desvios de conduta de seus agentes. A Secretaria da Segurança Pública investe continuamente na capacitação do efetivo, na atualização de protocolos, no uso de equipamentos de menor potencial ofensivo e no aprimoramento das estruturas investigativas, com foco na redução da letalidade policial. Até o momento, a pasta não foi formalmente notificada sobre a denúncia mencionada." O que diz o Ministério Público "O MPSP informa que as alegações mencionadas pela reportagem não guardam a mínima relação com os fatos. O Ministério Público atuou de forma eminentemente técnica. Após analisar as imagens das câmeras corporais, colher depoimentos de testemunhas, ouvir a versão dos agentes e confrontar todos esses dados com os laudos periciais produzidos no curso da investigação — via perícia produzida pela instituição -, o MPSP ofereceu 7 denúncias, além de ter promovido arquivamentos, devidamente homologados pelo Poder Judiciário. Insta consignar, ainda, que a Defensoria Pública se habilitou em vários procedimentos, promovendo diligências e requerimentos que foram todos analisados pelo Parquet, de forma assim a promover uma investigação participativa e mantendo a centralidade da vítima. Houve também, no campo da tutela coletiva, a instauração de dois inquéritos civis para apuração de falhas no campo de Direitos Humanos, com a expedição de recomendação técnica para aperfeiçoamento de instrumentos do sistema de investigação na Secretaria da Segurança Pública. Ademais, no âmbito de um procedimento de acompanhamento, o MPSP expediu uma Recomendação ao secretário de Estado da Segurança Pública e ao comandante-geral da PM para que determinassem e assegurassem que todos os policiais militares envolvidos nas operações portassem câmeras corporais, ainda que os equipamentos não estivessem vinculados às tropas em sua rotina ordinária, ou que utilizassem efetivo proveniente de batalhões que já estivessem contemplados no Programa Olho Vivo, de modo a adequar a ação policial a parâmetros já consignados em precedentes nacionais e internacionais, sem prejuízo, ainda, do acompanhamento da linha de decisão do STF na Suspensão de Segurança 1.296, em que a Procuradoria-Geral teve protagonismo técnico. Por fim, reitera-se que todos os caos denunciados são acompanhados atualmente pelos promotores naturais, reiterando o compromisso do Ministério Público paulista com os Direitos Humanos, com o Estado Democrático de Direito e com as vertentes mais avançadas do efetivo controle concentrado da segurança pública."

Palavras-chave: tecnologia

Por que sistema de defesa antiaérea que Venezuela comprou da Rússia e China não adiantou contra os EUA

Publicado em: 17/01/2026 05:00

Diretor da CIA vai até a Venezuela e se reúne com a nova presidente do país "Nossa pátria é inexpugnável [inconquistável], ninguém poderá tocar nem um centímetro da pátria, que é sagrada". Com essas palavras pronunciadas em 2013, o então presidente Nicolás Maduro assegurava que seu governo havia instalado na Venezuela "o sistema antiaéreo mais poderoso do mundo" para que "jamais algum avião estrangeiro pudesse entrar e pisar no sagrado céu da pátria". ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp No entanto, no último dia 3 de janeiro, quase 13 anos após o anúncio de Maduro, não um, mas mais de 150 aviões e helicópteros dos Estados Unidos atravessaram o espaço aéreo venezuelano e chegaram até Caracas em uma inédita operação militar que terminou com a captura do governante e de sua esposa, Cilia Flores. Os vídeos e as gravações dos acontecimentos que circularam nas redes sociais mostram pouca resistência por parte das custosas defesas antiaéreas venezuelanas, o que reforçou a tese de que houve algum tipo de colaboração interna, versão rejeitada pelas autoridades. "Aqui ninguém se entregou, aqui houve combate e houve combate por esta pátria e houve combate pelos libertadores", declarou a agora presidente Delcy Rodríguez durante um ato em homenagem às vítimas militares realizado cinco dias após os acontecimentos. O que aconteceu então? O que falhou? A BBC News Mundo, serviço de notícias em espanhol da BBC, consultou especialistas militares para tentar responder a essas e outras perguntas. O melhor dos melhores, em tese Investimento milionário que Maduro e Chávez fizeram se mostrou insuficiente AFP "A ineficácia da defesa aérea venezuelana é um mistério, já que, ao menos em teoria, ela era formidável", diz Mark Cancian, coronel reformado da infantaria de marinha dos Estados Unidos e pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos Internacionais, em Washington (CSIS, na sigla em inglês). Mas, antes de se aprofundar nas possíveis razões da ineficiência do sistema de defesa aérea do país sul-americano, vale explicar o que ele inclui. Desde 2009, Caracas passou a adquirir sistemas como o S-300 e o Buk-M2, de fabricação russa, no âmbito dos numerosos acordos firmados — ainda nos tempos do falecido Hugo Chávez — com o Kremlin. O S-300 é composto por lançadores móveis de foguetes, cujos projéteis, com 1.480 quilos e 7 metros de comprimento, podem atingir aviões, helicópteros ou mísseis de cruzeiro a uma distância de até 150 quilômetros, segundo dados do CSIS. Ele é considerado o rival do sistema americano Patriot. Já o Buk-M2 é um sistema semelhante, de médio alcance, capaz de destruir alvos aéreos que estejam a até 40 quilômetros de distância. Por fim, há os mísseis Pechora e Igla-S, ambos de curto alcance. Os Igla-S são portáteis, podem ser disparados por um único soldado e, por serem guiados por infravermelho, são capazes de derrubar aviões, helicópteros e drones em baixa altitude. "Qualquer força militar do mundo conhece o poder do Igla-S, e a Venezuela tem, nada mais, nada menos, que 5 mil", disse Maduro há algumas semanas. A tudo isso somam-se os radares de fabricação chinesa e os drones iranianos. "Para alguns adversários esse sistema é letal, mas para um oponente altamente sofisticado como os Estados Unidos não passa de sucata", afirmou à BBC Mundo Thomas Withington, especialista em guerra eletrônica e radares do Royal United Services Institute, em Londres (Rusi, na sigla em inglês). Essa avaliação foi compartilhada por Cancian. "Os sistemas russos parecem funcionar razoavelmente bem na Ucrânia, mas falharam contra adversários de primeiro nível, como Israel e agora os Estados Unidos", disse. O sistema de defesa aérea do Irã, assim como o da Venezuela, baseia-se em equipamentos russos e não conseguiu conter os bombardeios realizados primeiro pela aviação israelense e depois pela americana contra suas instalações nucleares, em meados de 2025. As hipóteses Forte Tiuna, a principal base militar de Caracas, foi atacada pelos Estados Unidos sem que as defesas aéreas venezuelanas reagissem AFP Até agora, as autoridades militares venezuelanas não explicaram por que suas defesas aéreas não reagiram. No entanto, os especialistas consultados consideram que houve uma combinação de fatores. "Nos últimos seis meses, os Estados Unidos começaram a formar uma frota no Caribe, e essa frota lhes deu a oportunidade de mapear as defesas aéreas da Venezuela e estudar seus pontos fortes e fracos", afirmou Withington, do Rusi. E, observando como os acontecimentos se desenrolaram, as forças americanas teriam identificado os pontos vulneráveis. "É provável que tenham ocorrido ataques cibernéticos aos computadores do sistema, ao mesmo tempo em que foram lançadas interferências que inutilizaram os radares e as comunicações", afirmou o especialista britânico. Essa avaliação foi confirmada por um major reformado do Exército venezuelano. "A tecnologia de guerra eletrônica dos Estados Unidos é muito avançada. Eles dispõem de equipamentos que anulam os radares e fazem com que seus aviões se tornem invisíveis", explicou o militar à BBC Mundo. "Ao neutralizar os radares, o restante foi muito fácil, porque eles tinham o fator surpresa", acrescentou o ex-comandante de uma unidade de tanques. Apenas alguns soldados venezuelanos foram capazes de tentar usar os Igla-S, mísseis capazes de derrubar aviões e helicópteres a uma curta distância AFP Já Cancian, do CSIS, afirmou que, além da superioridade tecnológica dos Estados Unidos, as forças venezuelanas cometeram erros graves durante a preparação para um eventual confronto com Washington. "Muitos sistemas estavam posicionados a céu aberto, sem camuflagem, o que facilitou sua destruição", afirmou. "Em retrospectiva, parece óbvio que essas unidades deveriam ter estado bem camufladas e deveriam ter utilizado iscas", acrescentou o coronel reformado da Infantaria de Marinha. Imagens divulgadas após os ataques mostraram uma bateria do Buk-M2 destruída ao lado da pista de pouso da base aérea de La Carlota, visível a partir da rodovia adjacente. "O treinamento e a preparação dos militares venezuelanos provavelmente foram poucos, como demonstra o mau posicionamento dos sistemas", acrescentou. Apesar de, nos últimos meses, as autoridades venezuelanas terem anunciado numerosos exercícios militares, o que ocorreu em 3 de janeiro mostra que eles não foram suficientes. "Não houve tempo para contra-atacar. Eles foram muito rápidos", declarou, ao jornal caraquenho Tal Cual, um militar que sobreviveu aos bombardeios. Algo semelhante disse à emissora Telesur o terceiro sargento Ricardo Salazar, que ficou ferido durante o bombardeio a La Carlota, a base aérea localizada no leste de Caracas. "Peguei meus dois Igla e coloquei o mecanismo de lançamento, mas quando os coloquei no ombro, caiu uma bomba ao meu lado e saí voando (…) e fiquei inconsciente", relatou. Mais que um Exército, uma polícia Algumas das baterias antiaéreas venezuelanas estavam posicionadas a céu aberto, o que facilitou às forças dos Estados Unidos localizá-las e destruí-las AFP Cancian também atribui os desdobramentos dos acontecimentos de 3 de janeiro às mudanças doutrinárias sofridas pelas Forças Armadas venezuelanas sob o chavismo. "Durante anos, o Exército concentrou-se mais na segurança interna do que nas ameaças externas", afirmou. Essa tese foi respaldada pelo general venezuelano Hebert García Plaza. "[Nos Estados Unidos] perceberam que a Força Armada Nacional Bolivariana estava preparada apenas para um esquema de guerra de resistência, e não para uma guerra convencional", declarou ao portal Infobae o ex-ministro dos Transportes e da Alimentação do governo Maduro. O oficial responsabilizou pelo ocorrido o atual ministro da Defesa, general Vladimir Padrino López, e o general Domingo Hernández Lárez . "Padrino e Hernández Lárez foram os responsáveis por levar adiante essa doutrina da suposta guerra de resistência, que na realidade era uma guerra para conter a oposição política na Venezuela e garantir a governabilidade da revolução bolivariana", acrescentou. Por sua vez, veículos de imprensa internacionais como The New York Times também afirmaram que parte dos equipamentos de defesa aérea não estava ativa no momento da operação ordenada por Trump. O motivo? As dificuldades econômicas enfrentadas pelo país nos últimos anos e também a má gestão administrativa. "A corrupção nunca ajuda, sobretudo quando se trata de defesa e segurança nacional", observou Withington. Há algumas semanas, Andrei Serbin Pont, analista internacional especializado em política externa e defesa e presidente da Coordenadora Regional de Pesquisas Econômicas e Sociais (CRIES), já havia colocado em dúvida a eficácia do sistema venezuelano. "Há uma grande discrepância entre o que a Venezuela tem na teoria e o material que de fato está operacional", disse Pont à BBC News Mundo. Golpeado, mas não derrotado Os aviões F-22 conseguiram entrar no espaço aéreo venezuelano depois que os radares do país foram neutralizados por recursos de guerra eletrônica Força Aérea Americana via Getty Images e BBC Embora os ataques e bombardeios dos Estados Unidos tenham atingido seriamente as defesas aéreas venezuelanas, o sistema não foi liquidado. "Os Estados Unidos quiseram destruir todo o sistema. Criaram um corredor para que os helicópteros pudessem entrar e retirar Maduro", afirmou Withington. A Venezuela ainda dispõe de vários lançadores de foguetes. Além disso, seu arsenal de drones parece permanecer intacto, assim como sua frota de caças Sukhoi Su-30MK2. Ainda assim, o especialista afirmou que o ocorrido obriga a liderança militar venezuelana a passar por uma revisão. "Não sabemos o que está acontecendo internamente, se cabeças rolaram, mas, para voltar a ter capacidade de combate, será necessária uma revisão", disse. Até o momento, apenas a destituição do general Javier Marcano Tábata veio a público. Ele era chefe da Casa Militar e do Regimento da Guarda de Honra Presidencial. Também circulam rumores sobre a demissão do major-general José Luis Tremont Jiménez, chefe do Comando de Defesa Aeroespacial Integrada (Codai). Não se sabe se haverá mudanças na estrutura militar após uma operação que expôs vulnerabilidades que, até pouco tempo atrás, pareciam impensáveis. VÍDEOS: mais assistidos do g1

Palavras-chave: cibernéticotecnologia

Serra da Saudade, cidade menos populosa do Brasil, recebe o primeiro 'sistema antiapagão' do país

Publicado em: 17/01/2026 04:00

Serra da Saudade inaugura sistema antiapagão com energia solar e baterias Dono de uma mercearia em Serra da Saudade, cidade menos populosa do Brasil, no Centro-Oeste de Minas Gerais, Aloísio Aparecido Alves recebeu a notícia de que os prejuízos causados pela perda de mercadorias devido a falhas no fornecimento de energia podem estar chegando ao fim. “Já perdi muito picolé, sorvete e muitos pães. E não foi uma vez, não. Foram muitas vezes. Teve um dia que ficou quase 24 horas sem energia aqui. Se a energia firmar, melhora né?!” ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Centro-Oeste de Minas no WhatsApp A esperança do comerciante é a instalação da microrrede da Cemig, em funcionamento no município desde quinta-feira (15). A cidade é a primeira do Brasil a receber o sistema antiapagão, que promete reduzir quase a zero as ocorrências de falta de energia para os 856 serrano-saudalenses, como são chamados os moradores da cidade. À base de energia captada por placas solares e armazenada em baterias, a microrrede de Serra da Saudade será utilizada como alternativa quando a energia convencional apresentar algum problema na distribuição. “A Cemig estudou esse projeto junto com a Universidade Federal de Minas Gerais. Não é um projeto-piloto, é um projeto definitivo que vai servir a população de Serra da Saudade com energia limpa e sustentável”, explicou o gerente de engenharia da companhia. A experiência em Serra da Saudade operou por 15 dias de forma experimental e, a partir de agora, servirá de referência para a expansão da tecnologia em Minas Gerais. A Cemig já mapeou pelo menos dez localidades que poderão receber sistemas capazes de operar de forma independente da rede principal. A prioridade são regiões que enfrentam maior vulnerabilidade no fornecimento e onde a construção de infraestrutura convencional se mostra inviável ou onerosa. Aloízio relata perdas de mercadoria devido a problemas no fornecimento de energias TV Integração/reprodução Como funciona a microrrede instalada em Serra da Saudade De acordo com a Cemig, foram instaladas 800 placas fotovoltaicas que transformam a luz do sol em eletricidade. O diferencial do sistema é que essa energia alimenta um banco de baterias que, segundo Henrique Parreiras Couto, engenheiro de gestão de ativos da Cemig, são utilizadas quando há falhas no fornecimento convencional, podendo manter o abastecimento de energia da cidade por até 48 horas. “No dia a dia, a rede que atende a Serra da Saudade continua sendo a rede convencional, com os cabos de distribuição, as redes e postes. Se houver qualquer problema na rede da Cemig, a gente consegue desconectar a Serra da Saudade da rede tradicional e utilizar as baterias para manter a cidade atendida enquanto a gente faz os reparos ou a manutenção necessária”, detalhou. As baterias são recarregadas pelas placas solares em cerca de 24 horas. O uso desse sistema é fundamental também para garantir um fornecimento mais consistente à população. “Apenas a usina solar não seria capaz de atender a cidade porque a geração solar é muito intermitente. A gente precisa das baterias para firmar essa rede e mantê-la estável”, completou Henrique. De acordo com a Cemig, o investimento para a instalação do sistema foi de R$ 7 milhões. Países como Estados Unidos e China já utilizam tecnologias semelhantes. No Brasil, existem outras soluções que usam baterias, mas que ainda operam integradas à rede convencional. 800 placas solares abastecem baterias para serem usadas em caso de necessidade Dirceu Aurélio/Imprensa MG LEIA TAMBÉM: Cidade menos populosa do país foi vítima de fake news envolvendo guerra na Ucrânia; entenda Na cidade menos populosa do país, jovens migram em busca de emprego Medidores inteligentes e redução de custos públicos Os moradores de Serra da Saudade também receberam novos aparelhos de medição de energia, conhecidos como “medidores inteligentes”. Eles permitem que o morador acompanhe, em tempo real, o consumo e a qualidade da energia fornecida por meio de um aplicativo no celular. Segundo Darlan Júnior Gonçalves, coordenador de engenharia de medição da Cemig, a tecnologia pretende agilizar a resolução de problemas enfrentados pela população. “Ele tem um alarme de falta de energia. Cada medidor que perceber que a rede está desenergizada envia, automaticamente, um aviso de que ali está faltando energia.” A Cemig também anunciou a instalação de placas solares na prefeitura, em um centro municipal de educação infantil e no único posto de saúde da cidade. A iniciativa gerou uma economia de 70% na conta de energia dessas três unidades. Para além do impacto financeiro da energia limpa, Guilherme Neves de Azevedo, médico do posto de saúde, afirma que o fornecimento ininterrupto de energia, garantido pela microrrede, trouxe reflexos ainda mais significativos. “Já teve vezes da gente perder várias vacinas e não atingir algumas metas de cobertura vacinal. Hoje mudou, a gente tem experienciado uma segurança maior. E acho que nunca mais depois que aconteceu a instalação”, contou. A microrrede usa baterias carregadas como alternativa para fornecimento de energia Dirceu Aurélio/Imprensa MG VÍDEOS: veja tudo sobre o Centro-Oeste de Minas

Palavras-chave: tecnologia

'Revolta do Roblox' se divide em protestos a favor e contra Felca; g1 cobriu manifestações

Publicado em: 17/01/2026 02:00

Roblox ampliará verificação de idade em meio a críticas sobre proteção a crianças A plataforma de jogos Roblox alterou as regras na última quarta-feira (7), restringindo o uso do chat. A partir de agora, jogadores terão que verificar a idade e só poderão conversar com usuários de faixas etárias parecidas. A medida não agradou parte do público, que começou uma série de protestos virtuais na plataforma. Até esta quinta (15), muitos dos protestos virtuais tinham cartazes pedindo justiça pelo chat, o fim das restrições, etc. Mas agora o grande tópico é outro: o influenciador Felca. Eu entrei na plataforma nesta sexta (16) para entender como é a nova verificação de idade e como estão os protestos. Veja como foi: Como é o cadastro e a verificação de idade Na hora de se cadastrar, você tem que inserir seus dados, incluindo a data de nascimento. O jogo não te impede de jogar caso você tenha menos de 18 anos, que tende a ser grande parte do público. Mas logo ao se cadastrar, a primeira recomendação é de não usar seu nome verdadeiro como nome de usuário — pra garantir um user original, fui de "stellanskarsgard2". Com as novas mudanças, a plataforma pede uma comprovação da sua idade (no meu caso, 27 anos). Então, o Roblox faz uma verificação facial, similar à de aplicativos de banco. Caso a idade esteja errada, é possível contestar mostrando seu documento de identidade. Apesar de dizer que tenho 27 anos, a verificação facial estimou que eu tinha entre 18 e 20 anos. Verificação facial identificou que eu teria entre 18 e 20 anos Captura de tela/Roblox Fez bem para a minha autoestima, mas é um deslize: oficialmente, eu só poderia conversar com pessoas acima de 20 anos. Mas já que o Roblox achou que eu tinha 19, me permitiu conversar com pessoas de 16 anos ou mais. "Estamos continuamente aprimorando nossa tecnologia de estimativa de idade facial para torná-la o mais precisa e resistente a fraudes possível", afirmou a plataforma, sobre o erro na verificação (leia o comunicado completo ao final desta reportagem). "Para isso, garantimos que nossa parceira, Persona, tenha todos os recursos relevantes de prevenção de fraudes ativados e ajustados especificamente para a Roblox - incluindo detecção de deepfake, verificações de similaridade com figuras públicas e outras salvaguardas avançadas." Onde acontecem os protestos? Não é tão simples encontrar essas manifestações. A maior parte delas acontece em "Brookhaven", um jogo dentro da plataforma que é uma cidade virtual. Dá pra passear, andar de carro, nadar na piscina e visitar as casas de outros jogadores. Mas existem várias "Brookhaven". Ao entrar, você é colocado aleatoriamente em um servidor e pode não encontrar jogadores brasileiros protestando. Para encontrá-los, é preciso reiniciar a cidade algumas vezes e contar com a sorte. Agora é sobre o Felca Se nos primeiros dias a "revolta do Roblox" reivindicava a liberação do chat, agora o grande ponto de discussão é... o Felca. O criador de conteúdo, que viralizou em 2025 por abordar a exposição infantil de crianças na internet, passou a ser associado às novas regras do Roblox — mesmo não tendo relação alguma com as mudanças. Por isso, no Roblox não existe esquerda ou direita, conservador ou liberal; existe pró-Felca e contra Felca. Nesta sexta (16), todos os protestos encontrados pelo g1 falavam sobre o influenciador. Protestos 'pró e contra o Felca' dominam Roblox Captura de tela/Roblox O primeiro que eu vi, na verdade, era em defesa dele. "Não foi o Felca, foi 'os dono do Roblox'", dizia um cartaz. O dono do Roblox, por sua vez, não escapou da raiva dos usuários e ganhou um "eu te odeio", ainda que os usuários não saibam o nome dele. Mais tarde, encontrei um protesto à moda francesa, com carros pegando fogo na rua (virtual). Esse falava diretamente contra o Felca: tinha cartazes como "Odiamos você", "Felca seu feio" e o vago "Você vai ver". Em comunicado, a empresa se posicionou contra ameaças feitas ao influenciador (leia o comunicado completo ao final desta reportagem). "Condenamos as ameaças feitas contra qualquer pessoa online e incentivamos nossa comunidade a tratar todos com respeito, tanto dentro quanto fora da Roblox. Conforme consta em nossas Regras da Comunidade, não permitimos conteúdo que ameace outros com danos no mundo real ou online, incluindo incitação à violência." Festas ainda estão rolando... No meio de algumas manifestações, algumas placas chamavam para "festinhas" em casas virtuais, churrascos e até um "rolê com carreta furacão". "Vamos na festa da casa 13, fingir que odiamos o Felca", brincou um usuário. Como o chat não está liberado entre os jogadores, a principal forma de se comunicar é através de placas, cartazes e até caminhões com escritos. Então, tentei conversar com os manifestantes segurando uma placa com os dizeres: "por que vocês odeiam o Felca?". "Porque ele tirou o chat do Roblox. Pelo menos é o que eu acho", me respondeu um jogador, também com uma plaquinha. 'Ele tirou o chat do Roblox', disse jogadora Captura de tela/Roblox O que diz o Felca? O próprio Felca relatou nas redes sociais que passou a receber ameaças após mudanças anunciadas pela plataforma de jogos Roblox. Segundo o influenciador, as mensagens têm chegado por meio de sua conta no Instagram e teriam sido enviadas por usuários que se identificam como crianças. Em uma das mensagens compartilhadas por Felca, o autor escreve: “Olá, Felca. Todo mundo do Roblox está ficando doido, dizendo que você deixou a gente sem chat" e "Felca, eu vou te matar”. Os comunicados do Roblox (na íntegra) Sobre o Felca: "Estamos cientes das recentes manifestações na plataforma sobre nosso processo de verificação de idade para acessar o chat na Roblox. Essas mudanças foram projetadas para ajudar a proteger nossos usuários, especialmente os mais jovens. Estamos exigindo que todos passem por uma verificação de idade para usar nossos recursos de chat, a fim de ajudar a manter a Roblox a mais segura possível para a imaginação, diversão e criatividade. Condenamos as ameaças feitas contra qualquer pessoa online e incentivamos nossa comunidade a tratar todos com respeito, tanto dentro quanto fora da Roblox. Conforme consta em nossas Regras da Comunidade, não permitimos conteúdo que ameace outros com danos no mundo real ou online, incluindo incitação à violência. Entendemos que a comunicação é uma parte fundamental da experiência na Roblox e acreditamos que essas medidas são importantes para a segurança de nossa comunidade a longo prazo. Continuamos comprometidos com um diálogo contínuo com especialistas e pais, enquanto trabalhamos para continuar a liderar a inovação em segurança online." Sobre os problemas na verificação: "Estamos continuamente aprimorando nossa tecnologia de estimativa de idade facial para torná-la o mais precisa e resistente a fraudes possível. Para isso, garantimos que nossa parceira, Persona, tenha todos os recursos relevantes de prevenção de fraudes ativados e ajustados especificamente para a Roblox - incluindo detecção de deepfake, verificações de similaridade com figuras públicas e outras salvaguardas avançadas. Além disso, conduzimos regularmente nossos próprios exercícios de ‘red-team’ (equipe de ataque) para identificar possíveis vulnerabilidades e trabalhamos em estreita colaboração com a Persona para fechar quaisquer brechas que encontramos. Para um mergulho mais profundo na engenharia e nas políticas por trás desses sistemas, você pode ouvir este episódio do Tech Talks. O Fundador e CEO da Roblox, Dave Baszucki, está acompanhado por Rajiv Bhatia (Diretor de Produto), Naren Koneru (Líder de Engenharia, Segurança) e Eliza Jacobs (Diretora de Políticas de Segurança) para discutir como funciona a Estimativa de Idade Facial, o design focado em privacidade por trás dela e como estamos resolvendo o desafio de permitir uma comunicação autêntica enquanto mantemos os usuários seguros. Para lidar com pessoas que usam disfarces, IA, bonecos ou outras tentativas de falsificação ('spoofing'), nosso fluxo de Estimativa de Idade Facial usa uma abordagem em camadas. Além de verificar a existência de um rosto, o sistema procura por sinais de 'liveness' (prova de vida), evidências de artefatos comuns em conteúdo sintético ou gerado por IA, e sinais que detectam hardware comprometido ou virtual (frequentemente usado para ataques). Também temos proteções contra abuso em escala e envios repetidos. Embora nenhuma verificação única seja perfeita, a combinação de sinais visuais e não visuais ajuda a reduzir a eficácia de disfarces ou rostos sintéticos, e continuamos a ajustar essas detecções à medida que novos métodos de evasão surgem."

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Projeto oferece aulas gratuitas de tecnologia para idosos no Ceará; saiba como participar

Publicado em: 14/01/2026 07:42

Curso de tecnologia para idosos Cerca de 15 cidades do Ceará já estão recebendo novas turmas do projeto Chá Tecnológico e Social Itinerante, realizado pelo Instituto Idear, que oferece uma formação na área de tecnologia para idosos com mais de 60 anos. A ação é gratuita e voltada para autonomia, cidadania e promoção da qualidade de vida desse público. A programação começou no dia 13 de janeiro no Conjunto Palmeiras. Nesta quarta-feira (14), o projeto realiza dois encontros: às 8h, no Centro de Cidadania e Direitos Humanos (CCDH) do Conjunto Palmeiras, e às 14h, no CCDH do bairro Cristo Redentor. Os novos alunos somam-se aos que começaram as aulas ainda em 2025, resultando em mais de 500 pessoas beneficiadas nesta edição. Ao todo, são 15 cidades atendidas atualmente pelo projeto. LEIA TAMBÉM: Carnaval 2026 em Fortaleza: inscrições para ambulantes estão abertas Filipe Ret, Alok, Pedro Sampaio e mais: Carnaquiraz anuncia programação De acordo com a organização do projeto, o Chá Tecnológico e Social Itinerante promove aulas voltadas à independência da pessoa idosa no mundo digital, com conteúdos práticos como uso seguro da tecnologia, comunicação online, aplicativos bancários e de transporte, além de temas relacionados à inteligência artificial, segurança digital, memória e raciocínio lógico. ➡️ O projeto também desenvolve atividades nas áreas de direitos, saúde física e mental, bem como o estímulo a novas habilidades. 🤳🏽Para participar, é necessário atender aos critérios obrigatórios do projeto: ter idade igual ou superior a 60 anos residir no município atendido saber ler e escrever ter disponibilidade de tempo e ter interesse em participar do projeto. 📌São critérios preferenciais: mulheres, pessoas em situação de vulnerabilidade social e econômica. pessoas negras, povos originários e pessoas LGBTQIA+. Projeto leva aulas de tecnologia para idosos em 15 cidades do Ceará Congerdesign para Pixabay Como funciona A primeira aula do projeto é presencial e tem caráter introdutório. Nesse momento, os participantes recebem o kit do aluno, incluindo tablet com internet, apostila e camisa, além de orientação para utilização do equipamento e acesso às aulas online. Após essa etapa, os encontros passam a ocorrer de forma virtual, com aulas ao vivo de três a quatro vezes por semana. Além da formação tecnológica, os alunos podem escolher duas entre 14 áreas de interesse, que incluem atividades como cultivo de plantas, pintura, culinária, crochê, dança e canto. O projeto também contempla ações voltadas à saúde mental e à cidadania, com rodas de conversa conduzidas por psicóloga e palestras sobre direitos da pessoa idosa e cuidados com a saúde. Sobre o projeto Para participar, é necessário atender aos critérios obrigatórios do projeto Divulgação Desde 2019, o Chá Tecnológico e Social já beneficiou mais de 3000 pessoas idosas, segundo a organização. Na versão itinerante do projeto, já foram atendidas mais de 2.000 pessoas em 22 municípios do Ceará. Com participação totalmente gratuita, o projeto é realizado através de parceria com o Conselho Estadual dos Direitos do Idoso, a Secretaria dos Direitos Humanos do Ceará e as prefeituras dos municípios atendidos. Assista aos vídeos mais vistos do Ceará:

Ameaçada de extinção e com cores do Brasil: conheça a arara-canindé, espécie que acompanhou ciclistas no interior de SP

Publicado em: 13/01/2026 07:13

Arara 'escolta' ciclistas de Jaú durante treino em rodovia no interior de SP O encontro inusitado de uma arara-canindé com um grupo de ciclistas em Guarapuã, distrito de Dois Córregos, no interior de São Paulo, é considerado raro por especialistas. Conhecida pelas cores vibrantes que remetem à bandeira do Brasil, a espécie está ameaçada de extinção. Segundo o adestrador de animais Vinicius Bittencourt, a ave não costuma se aproximar de pessoas, o que torna o encontro ainda mais incomum. De acordo com ele, a principal explicação para esse comportamento é que a ave seja domesticada ou treinada para praticar voo livre. 📲 Participe do canal do g1 Bauru e Marília no WhatsApp "O movimento, por si só, não costuma atrair essa espécie. Esse tipo de aproximação indica que provavelmente é uma ave criada fora do ambiente natural ou que tenha sido domesticada e treinada desde filhote", conta. O vídeo foi registrado por Willian Padilha, morador de Jaú (SP), e chegou a ser confundido com Inteligência Artificial nas redes sociais. Até a noite de segunda-feira (12), a gravação já havia ultrapassado 16 milhões de visualizações. Ao analisar as imagens a pedido do g1, Bittencourt confirmou que a ave é uma arara-canindé, cujo nome científico é Ara ararauna. Ele explicou que essa espécie não é comum na região de São Paulo, sendo mais frequente em áreas próximas ao Mato Grosso. "Não é muito comum nessa região do estado de São Paulo. Na vida selvagem, a ocorrência começa mais próxima do Mato Grosso", revela. Adestrador de animais Vinicius Bittencourt Arquivo pessoal Nas redes sociais, surgiu também a hipótese de que a ave pudesse estar "pedindo ajuda", voando baixo e tentando contato com humanos, mas Bittencourt descartou a ideia. "Não, esse comportamento está muito mais ligado ao 'imprinting', quando o psitacídeo cria vínculo com humanos ainda filhote", comenta. Por fim, ele comentou sobre a raridade do encontro e a possibilidade de domesticidade da ave. "O encontro é raro, apesar de o número de psitacídeos como pet ter crescido muito no mundo todo. Hoje, com técnicas mais avançadas baseadas na etologia da ave, é possível praticar o voo livre com o animal, sem precisar aparar as asas como antigamente", comenta. Arara 'escolta' ciclistas durante treino em rodovia de Jaú (SP) a Dois Córregos (SP) Reprodução/Instagram 🦜Conheça a arara-canindé A arara-canindé, que traz nas penas as cores da bandeira do Brasil, também é conhecida como arara-de-barriga-amarela ou simplesmente arara-amarela, e está ameaçada de extinção. Arara-canindé mede cerca de 80 centímetros de comprimento Percival Gonzales Uma das razões para a vulnerabilidade da espécie é o fato de se deslocar a grandes distâncias durante o dia, entre locais de descanso e alimentação, tornando-se presa fácil. Quando as aves são caçadas para venda, as árvores que abrigam seus ninhos costumam ser derrubadas, prejudicando a reprodução de diversas araras que utilizam os mesmos ninhos e alterando o habitat natural dela. Essas aves fazem seus ninhos em buracos no tronco, onde colocam os ovos, e os filhotes permanecem no ninho até a décima terceira semana, sendo alimentados pelos pais, que regurgitam o alimento em seus bicos. Arara-canindé em grupo Luciana Pires - Prefeitura de Palmas/Divulgação O bico forte da arara-canindé também é usado para ingerir pedrinhas, que auxiliam na trituração de sementes de palmeiras como buriti, tucum, bocaiúva, carandá e acurí. Por triturar as sementes, as araras-canindé são consideradas "predadoras" de algumas palmeiras, já que impedem a dispersão dessas plantas. Em geral, essas aves voam em pares ou em grupos de três indivíduos, mantendo a mesma combinação mesmo em bandos de até 30 aves. Em cativeiro, podem viver até 60 anos, o que reforça a importância de proteger tanto os indivíduos quanto seu habitat natural. Nome científico: Ara ararauna. Família: Psittacidae. Ordem: Psittaciformes. Distribuição: no Brasil, é encontrada desde a Amazônia até o Paraná, além do Panamá, Colômbia, Guianas, Equador, Peru, Bolívia, Paraguai e Argentina. Alimentação: frutas e sementes, em sua maioria de palmeiras. Reprodução: período de incubação de aproximadamente 28 dias, botando de um a três ovos. Conservação: em perigo – ameaçada de extinção. Penas de arara-canindé Guilherme Provenzano Giovanni/Arquivo pessoal Initial plugin text Veja mais notícias da região no g1 Bauru e Marília VÍDEOS: assista às reportagens da região

Palavras-chave: inteligência artificial

Forbes Under 30 e certificada pela Nasa: astronauta que 'não sai da Terra' relembra início da carreira no interior de SP

Publicado em: 09/01/2026 07:15

Forbes Under 30 e certificada pela Nasa: astronauta análoga relembra início de carreira Celebrado nesta sexta-feira (9), o Dia do Astronauta homenageia a coragem e a dedicação de profissionais que desafiam os limites do conhecimento humano em busca de novas fronteiras no espaço. Em Sorocaba (SP), esse sonho de alcançar as estrelas tem nome, história e muitos feitos: Maria Larissa Pereira Paiva, conhecida como Larittrix. Aos 20 anos, a jovem já participou da detecção de mais de 25 asteroides em colaboração com a Nasa e analisou mais de 2 mil galáxias para o Observatório Astronômico Nacional do Japão (NAOJ). O apelido artístico é uma referência à estrela Bellatrix, da constelação de Órion, a mesma das populares Três Marias, que despertaram sua curiosidade ainda na infância. 📲 Participe do canal do g1 Sorocaba e Jundiaí no WhatsApp Larittrix é astronauta análoga (termo usado para pessoas que realizam simulações de missões espaciais na Terra), embaixadora do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e integra a lista Forbes Under 30, que reconhece jovens líderes e inovadores com menos de 30 anos. Foi em uma faculdade de Sorocaba que ela também estudou psicologia e formou uma parceria que visava estimular o interesse dos alunos por este universo. "Aos oito anos de idade, perguntei à minha avó quais eram os nomes das estrelas, porque, na minha concepção, era justo que elas tivessem nomes, assim como a gente. Ela me contou a história das Três Marias, e eu cresci fazendo perguntas sobre o mundo ao meu redor, mas nunca me conformei com as respostas", conta. Larittrix é astrounata análoga certificada pela Nasa, já detectou mais de 25 asteroides e integra a lista Forbes Under 30 Arquivo pessoal Do interior do Ceará ao 'espaço' Larissa cresceu em uma pequena cidade do interior do Ceará e, mesmo sem acesso à internet durante parte da infância e adolescência, não abandonou o sonho de se tornar astronauta. Participou de olimpíadas científicas e buscou alternativas para estudar. "As escolas onde eu estudei não tinham acesso à internet. Eu mesma tive que buscar isso com muita dificuldade e levar para as escolas por onde passei. Antes como estudante e hoje em mais de 350 escolas como palestrante, incluindo CEIs e EJAs", conta. Aos 16 anos, foi certificada pela Nasa após identificar um asteroide durante um projeto internacional de incentivo à ciência. "Hoje, já são mais de 25", afirma. Larittrix é astrounata análoga certificada pela Nasa, já detectou mais de 25 asteroides e integra a lista Forbes Under 30 Arquivo pessoal Vinda para o interior paulista Motivada pela curiosidade e pelo desejo de conhecer o mundo, Larissa deixou sua cidade natal, Pires Ferreira (CE), e chegou a Sorocaba por meio de uma parceria entre a prefeitura local, as iniciativas Força Meninas e Medalhei Olimpíadas Científicas, e a UniFacens. Na cidade, ingressou no curso de psicologia do centro universitário e passou a integrar projetos voltados ao estímulo científico. "Se Pires Ferreira me deu o sonho, Sorocaba me deu as ferramentas e a escala para o mundo. Amo aquele lugar. Foi um período de muita imersão no ecossistema de engenharia e inovação, essencial para entender como transformar ciência teórica em impacto prático, além da cultura olímpica linda que plantamos por lá", relata. Incentivo às mulheres na ciência Na universidade sorocabana, Larittrix, junto de outra colega, liderou um clube de incentivo à participação feminina na ciência e representou o Brasil em um projeto astronômico da Nasa. As estudantes participaram do programa Disk Detective, que analisa dados telescópicos em busca de sistemas planetários ocultos. A iniciativa surgiu a partir da percepção de que meninas ainda enfrentam obstáculos significativos para ingressar nas áreas de ciências exatas. Amanda e Larittrix lideram clube que incentiva meninas a se interessarem pela ciência Facens/Divulgação Hoje, Larittrix já impactou mais de 20 mil estudantes por meio de projetos de popularização científica, como Pires Ferreira nas Estrelas, Sobral nas Estrelas e o Time Larittrix & Medalhei, que oferece bolsas a alunos em situação de vulnerabilidade social. "Hoje realizo palestras, mentorias e busco empreender ajudando estudantes. As crianças dizem que eu sou como a 'Xuxa da Astronomia', porque minhas palestras de astronomia básica incluem música, arte, cultura. Para os adolescentes, sou como a melhor amiga ou irmã mais velha. O que começou como curiosidade se tornou minha missão de vida: democratizar a ciência para quem, como eu, veio do nada, com pouquíssimos privilégios", conta Larissa. "Sinto que minha maior função é ser uma 'ponte', provando que morar em cidade pequena não limita o tamanho do seu sonho, e mostrar para uma menina que ela pode ser uma cientista premiada pela Nasa. É o que dá sentido a tudo isso", completa. Comunicação e novos caminhos Em Sorocaba, Larittrix também teve experiências como produtora de conteúdo e atriz, gravando vídeos educativos sobre astronomia. "Sorocaba também me profissionalizou na comunicação. Atuar como atriz e produtora na Batuta Filmes e no ED+ Content Hub foi um divisor de águas. Sair do amadorismo do celular para gravar em um estúdio profissional, com luz, câmera e roteiro, me lembrou o poder do storytelling novamente, desde a época em que fui voluntária em Fortaleza (CE). Eu me sentia realizando um sonho de infância toda vez que as luzes se acendiam para eu falar de astronomia. Confesso que sinto uma saudade enorme daquela rotina criativa", relembra. Larittrix impactou mais de 20 mil estudantes por meio de projetos de popularização científica Arquivo pessoal Principais prêmios e conquistas Prêmios e honrarias Forbes Under 30 Brazil (2024-25): destaque na categoria "Ciência e Educação"; Prêmio "Mude o Mundo como uma Garota": vencedora na categoria "Liderança", concedida pela organização Força Meninas; Moções de aplausos e congratulações: quatro homenagens recebidas da Assembleia Legislativa do Ceará (ALECE), da Câmara Municipal de Mirassol (SP) e da Prefeitura de Pires Ferreira (CE). Reconhecimento científico e acadêmico Primeira astronauta análoga do Ceará: título reconhecido pela Wogel/Habitat Marte; Colaboração com Nasa/IASC: participação em programas de caça a asteroides, com contribuição na detecção de mais de 50 corpos celestes; Projeto Galaxy Cruise (NAOJ): análise voluntária de dezenas de milhares de galáxias para o Observatório Astronômico Nacional do Japão; Certificados da Nasa: reconhecimento por participação em desafios online como FIT Explorer, DART Mission e Scientist for a Day. Medalhas em olimpíadas de conhecimento Olimpíada Brasileira de Astronomia (OBA): medalha de prata (2021); Mostra Brasileira de Foguetes (MOBFOG): medalhas de prata e bronze; Olimpíada Nacional em História do Brasil (ONHB): duas medalhas de cristal. Atuação e destaque profissional Palestrante em grandes eventos: mais de 300 palestras realizadas, incluindo participações no TEDx, Campus Party, Siará Tech Summit, Feira do Empreendedor e Rio 2C; Coordenadora de projetos pedagógicos: atuação no Complexo Cultural Parque da Luz, conhecido como Museu do Eclipse, em Sobral (CE). *Colaborou sob supervisão de Gabriela Almeida Veja mais notícias da região no g1 Sorocaba e Jundiaí VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM

Palavras-chave: câmara municipaltecnologia

Casos de violações de direitos da pessoa idosa tem aumento de 38% no Amazonas em 2025, aponta Sejusc

Publicado em: 08/01/2026 20:23

Casos de violações de direitos de pessoas idosas crescem no Amazonas. Cristian Newman/Unsplash/Divulgação Mais de 5,8 mil casos de violações de direitos da pessoa idosa foram registradas no Amazonas entre janeiro e dezembro de 2025. Os dados são do Centro Integrado de Proteção e Defesa da Pessoa Idosa (Cipdi), vinculado à Secretaria de Estado de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc). O número representa um aumento de 38% em comparação com o ano de 2024. Entre as violações mais registradas em 2025, a negligência aparece em primeiro lugar, com 1.764 casos. Em seguida, estão situações de vulnerabilidade e risco social (1.433), violência psicológica (786) e violência financeira (683). Também foram contabilizados casos de intimidação e perturbação (634), violência física (219), autonegligência (171) e abandono (161). Outras ocorrências envolvem violência patrimonial, maus-tratos, violência sexual, retenção de documentos, crimes cibernéticos, ameaças, violência doméstica e agressões verbais. 📲 Participe do canal do g1 AM no WhatsApp Segundo a coordenadora do Cipdi, Márcia Magalhães, a maioria das denúncias parte de familiares, e o perfil mais recorrente das vítimas é de mulheres entre 60 e 69 anos. “O número de casos atendidos representa não somente o aumento da violência contra a pessoa idosa no estado do Amazonas, mas também o trabalho preventivo e educativo realizado para que a informação alcance a sociedade e incentive a denúncia, já que, em muitos casos, a pessoa idosa não se sente motivada a denunciar”, explicou. Veja os vídeos que estão em alta no g1 De acordo com a secretária da Sejusc, Jussara Pedrosa, apesar do crescimento ser preocupante, ele reflete um aumento da rede de proteção e a ampliação do acesso aos canais de denúncia. “Nós intensificamos bastante os canais de comunicação, os canais de denúncia e também descentralizamos os equipamentos. Isso reflete o número maior de casos de violência sendo denunciados, um indicativo de que mais idosos estão rompendo com esse ciclo de violência e tendo seus direitos assegurados”, afirmou a secretária. Atendimentos ultrapassam 10 mil em 2025 Os atendimentos do Cipdi são realizados por uma equipe multiprofissional formada por psicólogos, assistentes sociais e advogado. Entre os serviços oferecidos estão orientação, registro de denúncias, encaminhamento à rede de proteção, visitas domiciliares, elaboração de relatórios, mediação de conflitos, orientação jurídica e ações temáticas. Somados todos os serviços, o Cipdi ultrapassou a marca de 10 mil atendimentos ao longo de 2025. Onde buscar ajuda e denunciar A Sejusc mantém três unidades do Cipdi, com atendimento de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h: Zona Centro-Sul: Rua do Comércio, ao lado da Delegacia Especializada em Crimes Contra o Idoso (Decci); Zona Leste: PAC do Shopping São José; Zona Norte: PAC do Shopping Via Norte. Casos de violência contra a pessoa idosa também podem ser denunciados 24 horas por dia pelos telefones Disque 100, 180 ou 190.

Palavras-chave: cibernético

As churrascarias e restaurantes japoneses acusados de manter trabalhadores em condições análogas à escravidão: 'Parece presídio'

Publicado em: 07/01/2026 08:43

"Não tenho dinheiro nem para um café. Estou totalmente zerado!" Era véspera do décimo dia do mês, mas Wellington, um maranhense de 26 anos nascido em Bacabal, município a 250 km de São Luís, acreditava que teria que esperar mais uma semana para receber, enfim, a primeira parte do seu salário de R$ 2 mil, um montante não muito maior do que o salário mínimo. Ele tinha desembarcado em São Paulo havia três semanas, atraído pela oferta de uma agência de empregos para trabalhar como passador na churrascaria Boizão Grill, na região em que a Marginal Tietê atravessa o bairro do Pari, no Centro da cidade. Passador é a pessoa responsável por circular — ou "passar" — por entre as mesas de churrascarias oferecendo cortes de carnes. Veja os vídeos em alta no g1 Veja os vídeos que estão em alta no g1 Até então desempregado, pai de um garoto de 6 anos, ele diz que topou a proposta mais pelos benefícios do que pelo salário em si: incluía a moradia subsidiada e três refeições diárias no restaurante. "Eu teria o dinheiro limpo para mim", disse Wellington, que teve seu nome verdadeiro preservado nesta reportagem. Ele chegou a uma rodoviária na capital paulista em um domingo cedo, com a promessa de que teria a carteira assinada após um período de experiência. Acomodou-se em um alojamento de funcionários indicado pelo novo emprego e, na manhã seguinte, estava trabalhando. "Daí, uma semana depois, fiquei doente", relatou à BBC News Brasil. "Tosse, febre, uma dor absurda no corpo. Não dava para levantar da cama." Ele conta que foi, então, a uma Unidade de Pronto Atendimento e, apesar de ter saído sem um diagnóstico, recebeu um atestado para ficar sete dias afastado do trabalho. "Mas, como eu tinha trabalhado só uma semana, eles disseram que iriam me pagar só por esses dias. O problema é que nem isso eu recebi", reclamou. Sem poder ir ao restaurante por conta da saúde, ele diz ter comido, por alguns dias, somente biscoitos e café preto — mas seguiu morando no alojamento. Era um sobrado marrom e cinza, envelhecido, de cerca de 80 m². Com dois quartos, ficava a menos de um quarteirão da churrascaria. Além dele, viviam ali outros 11 garçons e passadores — com três deles, Wellington dividia um dos dormitórios. Ele pensou na época: "Vou ficar aqui até quando eles deixarem ou até eu encontrar um lugar melhor para trabalhar. Quem sabe volte para o Maranhão". Hoje, se arrepende: "Se eu soubesse que seria desse jeito, não teria nem vindo." A Boizão Grill disse à reportagem não ter tido qualquer vínculo empregatício com Wellington e que sequer sabia que ele estava vivendo no alojamento com os outros garçons. Wellington fez esse relato à BBC News Brasil em maio do ano passado, enquanto uma força-tarefa do Ministério Público do Trabalho de São Paulo (MPT-SP) e do MTE cumpria uma ordem judicial para comprovar a denúncia de que a Boizão Grill — cujo rodízio de carne sai por cerca de R$ 170 por pessoa — mantinha ali, naquela casa, trabalhadores em condições análogas à escravidão. Na denúncia original contra a Boizão Grill, um garçom demitido meses antes contou que tinha morado ali por meio ano em condições precárias de higiene, convivendo com picadas de percevejos na sua cama. Ele reclamava ainda que as jornadas eram maiores do que o combinado e que parte dos empregados não tinha a carteira de trabalho assinada pelos patrões sob o pretexto de que estavam no "período de experiência". Pelas regras da Consolidação das Leis do Trabalho, a CLT, o funcionário deve ser formalmente registrado mesmo quando ainda está em teste. O relato era verídico, como a força-tarefa comprovou ao longo daquele dia. Denúncias contra restaurantes disparam no Brasil De maio para cá, a BBC News Brasil acompanhou outras duas operações da força-tarefa em churrascarias da capital paulista. Denúncias desse tipo eram raras no Brasil até meados de 2022, mas cresceram substancialmente de lá para cá — segundo entrevistados, em parte pela maior conscientização dos trabalhadores de que enfrentar condições degradantes é ilegal. Documentos do MTE aos quais a BBC News Brasil teve acesso apontam que, de 2022 até setembro de 2025, foram realizados 152 resgates de trabalhadores e trabalhadoras nessa situação em restaurantes no Brasil — desde estabelecimentos simples aos de alto padrão. O número de resgates por ano passou de 8 em 2022 para 71 em 2023, 34 em 2024 e 39 em 2025. Os 12 homens da Boizão Grill ainda não foram contabilizados oficialmente nessa lista, porque a ação contra a churrascaria ainda não foi ajuizada, mas, quando forem, a contagem subirá para 51 pessoas resgatadas no ano passado — um salto de 538% em quatro anos. A maioria ocorreu nos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro, mas há casos também no Ceará, Pernambuco e Pará. São Paulo tem sido o epicentro do fenômeno: segundo o MTE, todas as 34 pessoas resgatadas em condições análogas à escravidão em restaurantes no Brasil em 2024 estavam trabalhando no Estado — boa parte delas na capital. Os dados consideram apenas empresas registradas na Receita Federal como "restaurantes e similares", o que exclui estabelecimentos como lanchonetes, por exemplo. Maurício Krepsky, auditor-fiscal do MTE, aponta que a centralidade de casos em São Paulo se explica, em parte, pela maior quantidade de restaurantes da cidade — reconhecida como um polo gastronômico —, mas também pelo maior acesso à informação que os trabalhadores encontram trabalhando nas cidades. "Quanto mais fiscalização se faz, mais coisas se acham. Mas, no caso de São Paulo, há uma particularidade: a parte urbana do Estado tem mais acesso aos canais de denúncias do que no Acre, Roraima ou Rondônia, por exemplo, onde as pessoas não conseguem alcançar os meios de denunciar", diz Krepsky. "Sem contar o medo. Nessas regiões mais afastadas, se a pessoa denunciar, ela e a família ficam vulneráveis a todo tipo de retaliação. Não conseguem mais emprego, podem sofrer uma violência." Paulo Roberto Warlet, também auditor do ministério, lotado na capital paulista, afirma que a maioria das denúncias são contra churrascarias e restaurantes de comida japonesa que operam no sistema de rodízio. "Quando falamos em trabalho análogo à escravidão, algumas imagens surgem automaticamente na cabeça de todo mundo: a carvoaria, a fazenda, o garimpo, as áreas rurais, distantes. Aqui em São Paulo, também se tornou comum a associação com oficinas de costura", explicou Warlet, enquanto ouvia os relatos de trabalhadores no alojamento da Boizão. "Mas sujeitar pessoas a essas condições", apontou, girando a mão para o entorno do imóvel, "é uma prática que sempre ganha novas facetas." "Acontece lá, aqui, em lugares que não se imagina. Esse é um processo perversamente dinâmico." 'O alojamento parece um presídio' Funcionário do ministério desde 2011, Paulo Roberto Warlet coleciona histórias sobre as operações que já participou pelo Brasil. Conta que já foi recebido a tiros por garimpeiros mantidos em regime análogo à escravidão no Pará; resgatou trabalhadores que, descobriu depois, eram procurados pela Justiça por crimes hediondos; e até virou notícia em 2020, na pandemia, pela agressão que sofreu de um empresário em São Paulo que resistia em cumprir em seu escritório de contabilidade as regras sanitárias impostas pelo governo estadual. O alojamento da churrascaria em São Paulo, no entanto, conseguiu deixá-lo impressionado. Na parte de baixo da casa, quatro beliches se colavam uns aos outros, nem todos com colchões. Outras três camas avançavam pela cozinha, que, por isso, não estava sendo usada. Lençóis cobriam os vãos para dar alguma privacidade aos homens — na chegada da equipe, dois dormiam abraçados às suas malas. "A gente tem medo de ser roubado", explicou Gabriel, um dos garçons que morava no imóvel. Para preservá-lo, seu nome foi trocado. Janelas tampadas por roupas penduradas e pelos próprios beliches mantinham a sala na penumbra. Sem ar circulando, o odor era forte. Segundo um relatório da ação, no fundo, havia um banheiro "úmido, (que) ostentava lixo sobre a pia e, à falta de cesto, o papel higiênico servido era atirado sobre [sic] o chão". "O vaso sanitário, com várias peças de revestimento faltantes na parede, não tinha assento e exalava odor de urina e fezes", prosseguem os fiscais no documento. "O chuveiro elétrico não estava aterrado, o que colocava em risco, em caso de fuga acidental de corrente, a integridade física e, quiçá, a vida dos alojados." No quintal, bitucas de cigarro, restos de alimentos e roupas sujas dividiam espaço com uma faca de corte de carnes sobre o que já foi uma cama. No andar de cima, os dois quartos eram divididos por sete homens, que tinham a vantagem de ter acesso mais rápido ao outro banheiro do imóvel — o único com chuveiro, embora sem água quente. Nas portas, um aviso fixado em uma folha de papel definia as regras, como "não usar drogas", não "transitar pelo espaço durante a madrugada" e "não mexer no que não lhe pertence". A força-tarefa — formada por Warlet, pela auditora-fiscal Maria do Carmo Pimentel e pela então promotora do MPT-SP Andréa Tertuliano, além de dois policiais — não teve dúvidas: resgatou todos os 12 trabalhadores por "condições degradantes". Essa é uma das quatro categorias que caracterizam uma situação de trabalho análogo à escravidão, segundo regras do MTE publicadas em 2021. Além de condições degradantes, outras categorias são: trabalho forçado, jornadas exaustivas e servidão por dívidas (cobrar despesas ou dívidas de alguém a partir de algum tipo de vínculo de trabalho). "Parece um presídio!", exclamou Warlet enquanto caminhava pela casa. A comparação já lhe havia surgido semanas antes, quando participou de uma ação em um alojamento que abrigava garçons de um restaurante japonês em Moema, na Zona Sul da capital paulista. "As janelas tinham grades grossas, as roupas penduradas, o espaço imundo. Era um absurdo! Parecia uma cela de penitenciária", recorda. No relatório sobre os trabalhadores da Boizão, que baseará uma Ação Civil Pública (ACP) contra a churrascaria, a força-tarefa argumentou que as condições encontradas no alojamento "afrontavam a dignidade humana". Segundo o auditor-fiscal Maurício Krepsky, operações em ambientes urbanos nos últimos anos têm mostrado condições até mais precárias do que em fazendas ou garimpos no interior do país. "Colegas experientes, que trabalham na Amazônia, por exemplo, têm ficado cada vez mais chocados com o que encontram nas cidades", diz Krepsky, que acabou de defender uma dissertação na Universidade de York, na Inglaterra, sustentando que auditores atuam resguardando os direitos humanos. Ele lembra do relato de uma colega do ministério sobre o resgate de uma família em uma pastelaria no Rio de Janeiro: "Ela só chorava. Tinha encontrado um bebê de cinco meses em um local onde não cabia um adulto em pé". Krepsky afirma que os riscos de uma pessoa ser explorada estão diretamente ligados à sua vulnerabilidade social — influenciada, sobretudo, pelo recorte regional. Muitos dos resgatados pelo país são de Estados do Norte ou Nordeste, onde indicadores socioeconômicos são, em geral, piores. "Quanto mais vulnerável é, mais exposta uma pessoa fica — e mais difícil de ela perceber a precariedade em que está", afirma o auditor. Procurada pela reportagem, a Boizão Grill respondeu, por meio de sua advogada, que os esclarecimentos estão sendo prestados à Justiça. O espaço permanece aberto caso o restaurante decida se manifestar. Durante a operação, a churrascaria não negou que mantém um alojamento para os funcionários. Os fiscais relatam que alguns restaurantes, quando estão diante dos agentes, assumem que mantêm alojamentos, mas é prática comum colocar "laranjas" nos contratos de aluguel dos imóveis para haver ligação formal com as empresas. Não é ilegal que um empregador ofereça alojamento para os empregados, mas esses locais precisam atender a normas mínimas de higiene e segurança. A reportagem tentou também falar com algumas de agências que mediam o contato entre empregados e empregadores, mas não conseguiu contato com nenhuma delas. Segundo o MTE, são geralmente empresas informais, quando não recrutadores individuais. Alguns garçons relataram de fato que a intermediação tinha sido feita por uma pessoa que os havia procurado pelo WhatsApp e que sequer tinham visto pessoalmente. McDonald's e supermercados são acusados de usar trabalho análogo à escravidão no Reino Unido Máquinas podem pensar? Os 70 anos de história que levaram à inteligência artificial dos dias atuais Buscando 'rabiscos' no escuro "Imagina uma sala escura cujas paredes estão todas rabiscadas", diz Leonardo Sakamoto, jornalista que cobre o trabalho análogo à escravidão há duas décadas. "O facho de luz que nós temos para ver os rabiscos é muito pequeno, mas, toda hora que se aponta para a parede, dá para ver um pedaço deles. Onde você apontar, você vai encontrar. Só não tem como iluminar a sala inteira. Essa é a metáfora que melhor explica o esforço em combater esse tipo de crime: não há como saber tudo. Só o que a fiscalização consegue iluminar." Professor na Pontíficia Universidade de São Paulo (PUC-SP) e fundador do portal Repórter Brasil, especializado no tema, Sakamoto diz que tem ouvido falar sobre o trabalho degradante em estabelecimentos que servem comida há pelo menos 15 anos — "sobretudo em pastelarias do Rio de Janeiro". Mas, agora, ele nota que o facho de luz da Justiça se voltou com mais força para os restaurantes. "Há alguns anos, aconteceu o mesmo com o trabalho doméstico. Fizeram muitas ações e encontraram muita coisa. O processo é esse: tem uma primeira fiscalização, descobrem que se trata de algo generalizado e, então, as operações — e os casos — aumentam." Warlet corrobora a constatação: "É claro que isso vem acontecendo há muito mais tempo". Para o auditor do MTE, o aumento nas denúncias e resgates em restaurantes é, antes de tudo, reflexo do processo em que os trabalhadores vão se dando conta da precariedade à qual estão sujeitos. "Ou seja: está deixando de ser naturalizado. Isso é bom", comemora. Analistas apontam, porém, a dificuldade no reconhecimento de situações de exploração como um dos motivos pelos quais há pouquíssimos restaurantes na Lista Suja do Trabalho Escravo, relação pública de empresas autuadas e que esgotaram todas as possibilidades de recursos nas esferas administrativas. Pela lei, elas devem permanecer na relação por dois anos — período em que, entre outras punições, não conseguem acessar linhas de crédito ou participar de licitações públicas. Hoje, há 684 empresas na lista, mas apenas 11 são restaurantes — sete em São Paulo, dois no Pará, um no Ceará e um em Pernambuco. Ao menos quatro são churrascarias e dois, restaurantes de comida japonesa. Esse dado, diz Sakamoto, é uma subrepresentação do fenômeno. Primeiro porque "o que permanece invisível não está nessa estatística". Além disso, alinhado à visão de Warlet, ele destaca que o volume de denúncias depende das fiscalizações e da compreensão dos trabalhadores de que são submetidos a condições degradantes nos restaurantes. "Cada vez que os órgãos vão agindo, vão aumentando as ações, iluminando mais a 'sala'. Daí, quanto mais pessoas resgatadas descobrem que estão na situação de escravidão, mais elas denunciam", explica. Esse ciclo, porém, gira mais lentamente do que a própria força-tarefa gostaria — e muito porque São Paulo tem, hoje, somente três auditores debruçados sobre todas as denúncias de trabalho análogo à escravidão do Estado que chegam à Justiça. Há casos que demoram meses para serem descobertos. Alguns Estados, como Pernambuco e Rondônia, pior do que isso: não têm ninguém. Maurício Krepsky afirma que é comum auditores viajarem para outros Estados para suprir a falta de profissionais. "O último concurso foi realizado há 11 anos, quando entraram cerca de 3 mil auditores. Só agora que foram diplomados 825 novos auditores-fiscais para ampliar essa equipe", diz o auditor. Ele aponta também para a falta de interesse na área "porque tem mais risco em comparação a outras, como fiscalizações remotas [nas áreas tributárias, administrativas, etc.] e sem perigo à integridade física". "No caso de trabalho análogo à escravidão, você está no campo, correndo risco de ser alvejado, até de morrer...", afirma Krepsky. À BBC News Brasil, a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) afirmou que "nunca recebeu qualquer informação sobre o assunto por parte de qualquer órgão público ou privado". Procurado, o Sindicato dos Trabalhadores em Hotéis, Apart Hotéis, Motéis, Flats, Pensões, Hospedarias, Pousadas, Restaurantes, Churrascarias, Cantinas, Pizzarias, Bares, Lanchonetes, Sorveterias, Confeitarias, Docerias, Buffets, Fast-Foods e assemelhados de São Paulo e região (Sinthoresp) não respondeu. Facas escondidas, colchões infestados de percevejos e calor 'insuportável' Paranaense de Santo Antônio do Sudoeste, cidade na fronteira com a Argentina, Gabriel Garcez conta que tinha feito "de tudo" até chegar a São Paulo. "Já fui vigia de prefeitura, entregador de comida, vendi churrasco na rua...", elenca. Ele foi atraído pelo mesmo aspecto que chamou a atenção de Wellington: trabalho com casa e refeições pagas pelo patrão. Vivia no alojamento da Boizão Grill desde o final de 2024. De todos os problemas de morar ali, disse que o pior era o medo de conviver com as facas. "Olhem nos colchões", apontou à força-tarefa durante a inspeção. Enquanto os agentes iam suspendendo as camas, várias facas surgiam escondidas debaixo dos estrados, no chão ou nos travesseiros. Os passadores explicaram que precisaram comprar os equipamentos com dinheiro do próprio bolso, já que a churrascaria não havia fornecido os utensílios e não era possível trabalhar sem eles. O valor alto — uma faca para cortar carne custa, em média, R$ 200 — aumentava o risco de que elas fossem furtadas na cozinha do restaurante. Por isso, era mais "confiável" levá-las de volta para o alojamento. Um garçom contou à equipe que, na semana anterior à operação, dois homens tinham brigado no alojamento por uma desavença do trabalho. Um deles teria desembainhado sua faca e ferido o outro no braço em um confronto na rua. Ninguém soube dizer nome e localização de ambos. Em outro alojamento mantido por um restaurante inspecionado semanas depois, na Zona Norte da cidade, os trabalhadores disseram ter medo de que as facas possam ser usadas após o uso de drogas por alguns dos colegas. Como o restaurante assinou um acordo com a Justiça, o nome do estabelecimento que mantinha o imóvel será preservado pela reportagem a pedido dos auditores. Segundo Andrea Tertuliano, que liderava as forças-tarefas em São Paulo até junho, a capacidade de corte das facas utilizadas pelos trabalhadores as torna uma "arma mortal". "É um risco até para a população em geral, não só para quem vive na casa", afirma Tertuliano, que foi promovida a desembargadora do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região (TRT-2) e, assim, deixou o grupo. No primeiro momento, a Boizão Grill contestou a versão dos passadores: disse aos fiscais que havia comprado facas novas para a equipe e que as mantinha sob custódia fora do horário do expediente. Então, pressionada a mostrar os comprovantes das compras dos objetos, a churrascaria apresentou a nota fiscal da aquisição de uma única faca, comprada no mês anterior à inspeção. Semanas depois, em outra operação da força-tarefa, os percevejos nas camas eram a principal queixa dos garçons. Eles trabalhavam na Maninho's Steak House, uma churrascaria vizinha à Boizão Grill, também na Marginal Tietê, e estavam, da mesma forma, morando em um alojamento arranjado pelo restaurante. O sobrado branco grande fica na esquina do estabelecimento. Ali, dez homens dividiam um espaço de cerca de 70 m², com dois cômodos e uma sala enxuta compartilhada por três deles. No fundo, a cozinha era dormitório, e quatro trabalhadores ficavam ali. A pia servia de armário de sapatos, apoio para um ventilador — "porque o calor é insuportável", contou um dos entrevistados — e para cozinhar vez ou outra. No quintal, dava para ver alguns objetos do restaurante, como caixas e maquinário. Sem beliches suficientes para os recém-chegados, caixotes de plástico originalmente destinados a guardar garrafas de cerveja eram usados como suportes para colchões. Era possível ver percevejos nos lençóis e no chão. "Eles mandam a gente ir 'limpo' para lá [churrascaria]. Mas como?", questionou Alfredo, um baiano que, após uma década na Bahia, havia regressado a São Paulo. Ele pediu para que seu nome verdadeiro não fosse usado nesta reportagem. Ele contou que foi demitido de uma fábrica de elásticos durante a pandemia e perambulou por diferentes empregos até aceitar a proposta para ser garçom na capital paulista. "A gente amanhece todo picado", continuou ele, indicando as marcas nas costas e nos braços. Outros dois moradores do alojamento mostraram picadas à força-tarefa. Mas os agentes decidiram não resgatar os trabalhadores nessa segunda operação, já que o restaurante apresentou comprovantes de dedetizações recentes — o que mostrou, segundo o MTE, "preocupação com a resolução do problema". Entretanto, o relatório da ação descreve que "o empregador não dotara o alojamento de colchões, lençóis, fronhas, cobertores e travesseiros limpos", e que tampouco "assegurou que houvesse a coleta de lixo diária e lavagem periódica das roupas de cama, o que compromete a higiene do local". Além dos problemas encontrados no imóvel, 29 funcionários da churrascaria não tinham registro em carteira, e um deles estava recebendo seguro-desemprego por uma demissão anterior — portanto, não estava apto a trabalhar. Ao final, a força-tarefa pediu que o MPT ponha o estabelecimento "no rol daqueles sujeitos a fiscalizações reiteradas". Sobre os trabalhadores informais, notificou o Ministério Público Federal. A Maninho's Steak House disse em nota que já "regularizou integralmente todas as solicitações pontuais apresentadas" pelos órgãos. A churrascaria acrescentou que os "alojamentos" — no plural — "já se encontravam em plenas condições de uso" em novembro. Sobre a falta de registros em carteira, o restaurante argumentou que alguns profissionais eram "colaboradores eventuais" que "prestam apoio nos períodos de maior demanda", mas que também regularizou a situação deles. Enviados 'como escravos' à Rússia: os relatos de imigrantes da Coreia do Norte à BBC Mães PJ enfrentam maternidade sem direitos: 'Vamos te desligar porque você está grávida' 'A pessoa fica presa ao local de trabalho' A dinâmica do trabalho análogo à escravidão em restaurantes é, antes de tudo, um truque sobre a jornada, dizem especialistas. O tempo regulamentado de trabalho no Brasil é de 44 horas semanais, de segunda a sábado — um total máximo de 7,3 horas diárias. A lei ainda permite duas horas extras remuneradas por dia. Como churrascarias e os rodízios de comida japonesa, ao contrário de lanchonetes ou outros tipos de restaurantes, têm movimentos intensos em dois momentos – no almoço e no jantar –, eles criam as escalas de trabalho com um período de descanso na metade do dia, geralmente à tarde, quando os clientes rareiam. É uma maneira de distribuir o custo do trabalho a partir da demanda do negócio. Nas operações da força-tarefa, por exemplo, os garçons e passadores começavam a trabalhar ao meio-dia e saíam às 15h. Depois, voltavam das 18h até 22h30. "É o que explica por que os restaurantes oferecem alojamento", sugere Andrea Tertuliano. Na leitura dela, esse foi o jeito encontrado para manter os trabalhadores sempre por perto e, assim, demandá-los em horários paralelos. A consequência é que a jornada real de trabalho fica bem maior do que a combinada no ato da contratação. À medida que as denúncias de trabalho análogo à escravidão em restaurantes de São Paulo foram se avolumando, Tertuliano notou como a dinâmica dos alojamentos também foi se adaptando à vulnerabilidade dos trabalhadores. "Eles são trazidos de outros Estados, muitas vezes com as passagens rodoviárias pagas. Chegam aqui com salários baixos, sem conhecer a cidade. Na lógica comum, iriam viver na periferia, em bairros distantes, onde o aluguel é mais barato", diz ela. "Mas, assim, ficaria mais difícil para os restaurantes: não só seria mais caro, por causa do vale-transporte, como também teriam menos controle sobre a presença deles", prossegue. "O alojamento, de alguma forma, prende a pessoa ao local de trabalho." Warlet acrescenta que oferecer moradia acaba "fidelizando" a mão de obra: "Porque, morando no alojamento, o trabalhador não consegue achar outro emprego caso queira". Alfredo Rosa, um dos garçons ouvidos nesta reportagem, ilustra essa dinâmica a partir das regras da comida. Quando chegou ao restaurante, foi informado que poderia fazer as três refeições no próprio trabalho, em horários acordados antes. Pelo horário previsto no contrato, ele só poderia começar a trabalhar ao meio-dia. "Mas, para tomar café da manhã, já tem que ir uniformizado. Daí sempre surge um pedido, uma tarefa ali. E vamos ficando..." Tertuliano ressalta: "Esse é um exemplo de como até a alimentação serve para prender o trabalhador ao local de trabalho: ele não consegue comer sem intermediação do empregador". Em dias mais movimentados, como finais de semana ou datas comemorativas, ou quando grupos grandes chegam ao restaurante, o descanso também costuma ser ignorado. "Dá a hora de sair, o salão está cheio. A gente já sabe: se não ficar lá, eles te olham feio, te ameaçam. Daí a gente trabalha direto mesmo", afirmou Gabriel Garcez. Para a advogada de um restaurante de comida japonesa autuado pela força-tarefa em junho, os alojamentos são efeito da alta rotatividade. O nome dela não será revelado nesta reportagem porque o estabelecimento assinou um acordo com a Justiça e os auditores pediram sigilo para não prejudicar o cumprimento do combinado. "Ninguém para no trabalho. O 'cara' fica aqui sem gastar dinheiro, ganha Bolsa Família na cidade dele ou confia no seguro-desemprego. Os custos do excesso de contratações ficam com a gente, que temos que pagar verbas rescisórias, multas, etc..", disse ela. 'Se eu perder esse emprego, não tenho para onde ir' De maio até novembro, a BBC News Brasil questionou garçons de 13 restaurantes diferentes — oito rodízios de comida japonesa e cinco churrascarias —, em várias áreas de São Paulo, se eles viviam em alojamentos fornecidos pelos empregadores. Em 12, as respostas foram positivas. Também foram perguntados sobre condições dos imóveis, volume de pessoas por cômodo e se sabiam de alguma denúncia envolvendo esses locais, mas todos hesitaram temendo represálias ou demissões. "Se eu perder esse emprego, não tenho para onde ir", confidenciou um garçom de um restaurante japonês de Perdizes, na zona oeste. Natural de Pedro II, no Piauí, ele estava em seu segundo emprego com alojamentos do tipo na cidade. "Eu saí do alojamento de lá para vir para esse, que era melhor. Lá era bem ruim: sujo, muita gente junta...", revelou. Em meio ao aumento de denúncias, a força-tarefa paulista também percebeu uma aparente mudança no perfil de trabalhadores de churrascarias: a substituição dos "gaúchos", em referência àqueles vindos de Estados do Sul, pelos nordestinos. Não há dados quantitativos sobre isso, mas a impressão dos auditores é que, desde a pandemia, os restaurantes de São Paulo e do Rio passaram a buscar mão de obra mais do Nordeste e do Norte. "Minha hipótese é que, no Sul, existem mais opções profissionais, ao contrário do Nordeste e do Norte. É um efeito da desigualdade entre as regiões do país", sugere Tertuliano. "Até porque, nas operações da força-tarefa no Sul, as pessoas resgatadas lá tampouco são sulistas: também são nordestinas e nortistas." Nos alojamentos em que a reportagem esteve, a maioria dos trabalhadores era, de fato, de Estados como Maranhão, Piauí, Pernambuco e Bahia. Gabriel Garcez era o único "gaúcho", do Paraná. Tertuliano aponta para as raízes históricas, datando da escravidão no Brasil colonial, das denúncias verificadas atualmente. "Quando trabalhadoras domésticas são encontradas nessas condições, os donos da casa justificavam que, se não fosse por eles, elas estariam passando fome. Esse é um pensamento que existia desde a época da colônia", exemplifica. Maria do Carmo Pimentel, outra auditora-fiscal do MTE que estava nas operações, ratifica essa interpretação: "Em um país com 300 anos de escravidão, ela não acaba facilmente. Talvez nem acabe". Onde está Wellington? No fim de setembro, a BBC News Brasil voltou ao alojamento mantido pela Boizão Grill, no Pari. A casa seguia seu fluxo normal: homens vestidos com camisa branca, calça, gravata e sapatos pretos entravam e saíam conforme o ritmo do restaurante. A churrascaria havia optado por não assinar o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) oferecido pela força-tarefa na primeira operação para corrigir os problemas encontrados. Por isso, os auditores do MTE decidiram entrar com uma ação civil pública contra o restaurante no MPT-SP. Apesar de ser um instrumento administrativo, o TAC costuma ser a primeira oferta feita a um estabelecimento flagrado mantendo pessoas em analogia à escravidão. Além de ser mais rápido, por estipular as ações que devem ser tomadas dentro de um período curto, ele ainda costuma ser menos oneroso para as empresas do que um processo jurídico. Caso o TAC não seja aceito, a etapa seguinte é recorrer à Justiça. No caso da Boizão, Andréa Tertuliano, ainda na função de promotora, sugeriu que os trabalhadores resgatados fossem demitidos e tivessem verbas rescisórias pagas integralmente. Ela também pediu um ressarcimento, cujo valor não foi revelado, a cada um deles, e que, se o restaurante decidisse manter o alojamento, que o adequasse às regras que estabelecem condições básicas de conforto e higiene em locais de trabalho. O TAC teria duração de 15 dias e, se não fosse seguido, seria sucedido por uma ação civil pública. O restaurante pediu que os garçons não fossem resgatados imediatamente, já que haveria a comemoração do Dia das Mães naquele fim de semana, data em que as gorjetas dos clientes tendem a ser mais altas. Por isso, aquela escala era disputada entre eles. A força-tarefa aceitou. Mas o restaurante não quis seguir com o TAC. Até agora, a ação não foi ajuizada. Tertuliano, responsável por fazer o processo avançar no Judiciário, mudou de cargo dias depois da operação e não tem mais poder de ajuizamento — isto é, de fazer a denúncia ao Ministério Público. Seu substituto ainda não foi nomeado e, assim, o documento está engavetado. Em outubro, em uma terceira operação na Boizão, a força-tarefa descobriu que o alojamento continuava funcionando e que a churrascaria não tinha feito nenhuma adequação. A casa continuava igual. Wellington Silva, porém, não estava mais lá. Os colegas não sabiam sobre ele, mas, no relatório do MTE, um funcionário deu uma pista. "Houve notícia até de que um dos resgatados em maio, Wellington, embora com pneumonia, fora expulso do local sem que sequer as verbas rescisórias lhe houvessem sido pagas." Imóvel de cerca de 80 m² tinha 12 trabalhadores, entre garçons e passadores Vinícius Mendes/BBC

Palavras-chave: inteligência artificial

Novo presidente do Simespi aposta em qualificação e competitividade para a indústria

Publicado em: 06/01/2026 10:06

Paulo Estevam Camargo: “Liderar é ouvir, dialogar e construir consensos” Crédito: André Covolam O Simespi (sindicato patronal das indústrias metalmecânicas de Piracicaba, Saltinho e Rio das Pedras) inicia, em 2026, um novo ciclo sob a presidência de Paulo Estevam Camargo, engenheiro, economista e empresário com quase duas décadas de atuação na entidade. À frente do sindicato no triênio 2026–2028, ele assume com foco na qualificação profissional, no fortalecimento do associativismo e na preparação das indústrias para os desafios tecnológicos e econômicos do setor metalmecânico. Sindicato patronal pretende ampliar a base e incluir quatro novos municípios Crédito: Igor Mello Com trajetória construída na convergência entre teoria e prática, Camargo destaca que sua formação em economia, engenharia e empreendedorismo moldou uma liderança baseada em método, análise de dados e valorização das pessoas. “Liderar é ouvir, dialogar e construir consensos. Mais do que protagonismo individual, é mobilização coletiva”, afirma. Empresário à frente da Molas Piracicaba, associada ao Simespi desde 1995, ele destaca que as decisões mais difíceis da gestão envolvem pessoas e reforça que inovação vai além de tecnologia, exigindo cultura organizacional, confiança e comunicação clara. Seu vínculo com o sindicato evoluiu da busca por assessoria jurídica, nos anos 1990, para um compromisso institucional, consolidado a partir de 2008, quando passou a integrar a diretoria em diferentes cargos até chegar à presidência. Entre as prioridades da gestão estão a ampliação da qualificação profissional, por meio de parcerias com escolas, entidades e poder público; a capacitação de empresários e dirigentes, com foco em temas estratégicos como a reforma tributária; e a expansão da base territorial do Simespi para municípios como São Pedro, Charqueada, Águas de São Pedro e Santa Maria da Serra. Camargo assume em um cenário desafiador, marcado por alto custo Brasil, complexidade tributária, juros elevados, concorrência internacional e falta de mão de obra qualificada. “O Simespi tem papel estratégico na transição tecnológica do setor, apoiando especialmente pequenas e médias empresas na adoção de automação, digitalização e novas tecnologias”, afirma. A gestão também pretende fortalecer o papel social da entidade, que já desenvolve ações comunitárias e projetos de qualificação de jovens em situação de vulnerabilidade, além de aprofundar o diálogo com o poder público em todas as esferas. “Ninguém avança sozinho. É pela união e pela cooperação que vamos fortalecer a indústria regional”, resume o novo presidente.

Palavras-chave: tecnologia

Reservas recordes, infraestrutura em queda: o estado da indústria petrolífera da Venezuela

Publicado em: 04/01/2026 00:00

A importância e o tamanho das reservas de petróleo na Venezuela Após a captura de Nicolás Maduro neste sábado (3), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que pretende abrir o setor petrolífero da Venezuela à atuação de grandes companhias norte-americanas. A declaração amplia o alcance político e econômico da ofensiva anunciada por Washington. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias em tempo real e de graça Até então, o governo norte-americano vinha justificando as operações militares no Caribe e o endurecimento das sanções contra Caracas com o argumento de combater o narcotráfico e desarticular rotas de drogas supostamente ligadas a grupos criminosos associados ao regime venezuelano. A sinalização de Trump, no entanto, reforça que a estratégia americana envolve também interesses energéticos. A Venezuela possui cerca de 17% das reservas conhecidas de petróleo do mundo, o equivalente a mais de 300 bilhões de barris — volume quase quatro vezes maior que o dos EUA, segundo órgãos internacionais do setor energético. Com a captura de Maduro e a promessa de reorganização do setor, o controle sobre essas reservas passa a integrar o debate sobre os desdobramentos da ação americana e seus impactos econômicos e geopolíticos na região. A seguir, o g1 detalha os principais pontos do mercado de petróleo venezuelano e como eles afetam a economia do país: A dimensão do mercado de petróleo da Venezuela A Venezuela concentra a maior reserva comprovada de petróleo do mundo, com capacidade estimada em cerca de 303 bilhões de barris, segundo a Energy Information Administration (EIA), órgão oficial de estatísticas energéticas dos Estados Unidos. Esse volume coloca o país à frente de grandes produtores como Arábia Saudita (267 bilhões de barris) e Irã (209 bilhões). Boa parte do petróleo venezuelano, porém, é extrapesada, exigindo tecnologia avançada e investimentos elevados para sua extração. 🔎 Na prática, o potencial é enorme, mas segue subaproveitado devido à infraestrutura precária e às sanções internacionais que restringem operações e acesso a capital. Segundo a Statistical Review of World Energy, publicação anual do Instituto de Energia (EI), a produção de petróleo da Venezuela despencou nas últimas décadas, de um pico de 3,7 milhões de barris por dia em 1970 para um mínimo de 665 mil barris por dia em 2021. No ano passado, a produção registrou leve recuperação, retornando a cerca de 1 milhão de barris por dia, o que representa menos de 1% da produção global de petróleo. Dependência histórica do petróleo O petróleo moldou a economia venezuelana ao longo do século XX. Após grandes descobertas nas décadas de 1920 e 1930, o país rapidamente se tornou um dos maiores produtores do mundo e, em 1960, ajudou a fundar a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Em 1976, o governo nacionalizou a indústria petrolífera e criou a PDVSA, transformando o setor em um monopólio estatal. Nas décadas seguintes, durante os governos de Hugo Chávez, grande parte da renda do petróleo foi destinada a programas sociais, reduzindo outros investimentos na economia. Como resultado, entre 1998 e 2019, mais de 90% das exportações venezuelanas vieram do petróleo. Quando a produção caiu, o país passou a enfrentar sanções internacionais, agravando a crise econômica. A queda acentuada nas receitas do petróleo também contribuiu para a explosão inflacionária na Venezuela. Segundo o Banco Central, em 2019 os preços subiram 344.510% — o que significa que produtos que custavam 1 unidade monetária passaram a custar cerca de 3.400 vezes mais. Sanções, PDVSA e relações com os EUA Os Estados Unidos mantêm uma relação histórica com o petróleo venezuelano desde os anos 1920. Na década de 1930, o país já atraía grandes companhias estrangeiras, sobretudo dos EUA e da Europa. Com o avanço das sanções, essa presença diminuiu drasticamente. Hoje, a Chevron é a única empresa americana que ainda opera na Venezuela, graças a uma autorização especial concedida por Washington, apesar das restrições ao país. A PDVSA, que no passado assegurava a entrada de dólares na economia venezuelana, passou a sofrer cortes no próprio orçamento, interrompendo ciclos de manutenção e investimentos, o que agravou ainda mais a queda da produção. Em 2002, a nomeação do economista Gastón Parra para a presidência da empresa gerou forte reação interna, que culminou em uma greve que paralisou a companhia por cerca de dois meses e resultou na demissão de aproximadamente 20 mil funcionários. Petróleo e geopolítica internacional Apesar das dificuldades, o petróleo continua sendo o pilar econômico da Venezuela. Segundo a Reuters, em 2024 a PDVSA faturou cerca de US$ 17,5 bilhões com exportações, com produção média ligeiramente acima de 800 mil barris por dia. 🔎 O petróleo venezuelano é considerado estrategicamente relevante para os EUA por ser compatível com refinarias americanas. Especialistas afirmam que o interesse de Washington vai além do discurso de combate ao narcotráfico e inclui objetivos econômicos, como a tentativa de reduzir preços de combustíveis no mercado interno. Antes do endurecimento das sanções em 2019, os EUA eram os principais compradores do petróleo venezuelano. Após as restrições, a Venezuela passou a direcionar exportações para a China, em acordos de petróleo em troca de empréstimos, intensificando a disputa geopolítica na região. 👉 Segundo informações da Reuters, a Venezuela vinha quitando empréstimos por meio do envio de petróleo bruto transportado em três superpetroleiros de grande porte que, até recentemente, eram de propriedade compartilhada entre Caracas e Pequim. Dois desses navios se aproximavam da costa venezuelana em dezembro, quando Trump anunciou um bloqueio a todas as embarcações que entrassem ou saíssem do país. Desde então, as embarcações aguardam novas instruções, segundo documentos da estatal PDVSA e dados de monitoramento marítimo, em meio à paralisação da maior parte das exportações venezuelanas. Em entrevista à "Fox News" neste sábado, Trump afirmou que a China receberia o petróleo, sem detalhar como isso ocorreria. Impacto do petróleo na economia venezuelana A produção e exportação de petróleo continuam sendo fundamentais para o desempenho econômico do país. Estimativas baseadas em dados da PDVSA e da Reuters indicam que as exportações de petróleo responderam por cerca de 58% da receita da estatal em 2024. No mesmo ano, a estatal faturou US$ 17,52 bilhões com exportações de hidrocarbonetos — área que envolve a produção e venda de petróleo e gás —, dos quais US$ 10,41 bilhões foram destinados ao Tesouro venezuelano em impostos e royalties, segundo a Reuters. A economia venezuelana cresceu 7,71% no primeiro semestre de 2025, segundo boletim especial do Banco Central da Venezuela (BCV), impulsionada sobretudo pelo setor de hidrocarbonetos, que avançou quase 15% no período. O boletim mais recente da instituição aponta que o PIB venezuelano cresceu 8,71% no terceiro trimestre de 2025, em comparação com o mesmo período de 2024. No período, a atividade petrolífera avançou 16,12%, enquanto a atividade não petrolífera teve alta de 6,12%. Essa dependência, porém, gera vulnerabilidade. Um estudo do Instituto Tricontinental, com base em dados da Global South Insights, estima que as sanções lideradas pelos EUA causaram perdas de cerca de US$ 226 bilhões em receitas petrolíferas para a Venezuela entre 2017 e 2024 — valor superior ao próprio PIB venezuelano, hoje estimado em US$ 108,5 bilhões. Apesar de deter uma das maiores riquezas naturais do mundo, a Venezuela permanece entre as menores economias da América Latina, com sua trajetória condicionada ao petróleo e às tensões geopolíticas. Equipamentos com logo da PDVSA, empresa estatal venezuelana de produção de petróleo, em imagem registrada em Lagunillas, Venezuela. Isaac Urrutia/Reuters/Foto de arquivo *Com informações da agência de notícias Reuters

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