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Windows 11 turbina limites de armazenamento FAT32 em mudança de peso após 30 anos

Publicado em: 15/04/2026 06:57 Fonte: Tudocelular

Após décadas de uma restrição imposta por escolha da própria empresa, a Microsoft finalmente aprimorou a formatação de partições FAT32 no Windows 11, aumentando o antigo limite de 32 GB para 2 TB de capacidade. A novidade facilita a vida de quem precisa preparar pendrives e cartões de memória de alta capacidade, agora sem ser preciso recorrer a programas de terceiros.O limite anterior foi imposto pela gigante há mais de 30 anos, durante o desenvolvimento do Windows 95, e curiosamente foi mantido desde então, apesar da evolução drástica das capacidades de armazenamento. Com a disponibilização das novas versões de teste (Insider Preview Build 26300.8170 e Beta 26220.8165) do Windows 11, essa barreira começa a cair. I wrote this Format dialog back on a rainy Thursday morning at Microsoft in late 1994, I think it was. We were porting the bajillion lines of code from the Windows95 user interface over to NT, and Format was just one of those areas where WindowsNT was different enough from… pic.twitter.com/PbrhQe0n3KClique aqui para ler mais

Palavras-chave: windows

Grupo criminoso que fazia transporte em larga escala de drogas é alvo de operação em Minas, Mato Grosso do Sul e São Paulo

Publicado em: 15/04/2026 06:54

Operação Luxury da Ficco em Uberlândia PF/Divulgação Uma organização criminosa especializada no transporte em larga escala de drogas é alvo da Operação Luxury, deflagrada nesta quarta-feira (15) pela Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (Ficco) em Minas Gerais. A ação cumpre 27 mandados de prisão e 42 de busca e apreensão nas cidades de Uberlândia e Uberaba, São Paulo (SP), além de Campo Grande, Dourados, Ribas do Rio Pardo e Vista Alegre (MS). Coordenada pela Polícia Federal (PF) e com participação das polícias Militar, Civil e Penal, a operação mobiliza cerca de 160 agentes. A Justiça também autorizou o bloqueio de até R$ 61 milhões em bens ligados aos investigados. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Triângulo no WhatsApp Segundo as investigações, o grupo atuava há pelo menos um ano e meio de forma estruturada e contínua. Os suspeitos tinham divisão de tarefas e uma logística organizada para transportar drogas, principalmente maconha, do Mato Grosso do Sul para o Triângulo Mineiro e outras regiões do país. A quadrilha utilizava a chamada “rota caipira”, considerada estratégica para o tráfico entre as regiões Centro-Oeste e Sudeste. Para dificultar a fiscalização, os criminosos usavam comboios com veículos carregados e carros “batedores”, que seguiam à frente e atrás para avisar sobre possíveis operações policiais. Veja os vídeos que estão em alta no g1 De acordo com a PF, as apurações também indicaram o uso de tecnologia de ponta, como internet via satélite, o que permitia comunicação constante mesmo em áreas rurais. Além disso, o grupo usava estradas vicinais, fazia deslocamentos durante a noite e recorria a veículos clonados ou registrados em nome de terceiros. Operação Luxury ocorre em três estados A Operação Luxury corre simultaneamente em Minas Gerais, São Paulo e Mato Grosso do Sul e o nome faz referência. O nome faz referência à vida de luxo ostentada pelos alvos da investigação. Em Uberlândia, houve cumprimento de mandados de busca e apreensão em condomínios de luxo, localizados no setor sul da cidade. Segundo a Polícia Federal, os principais alvos da operação estão em Uberlândia, onde ficam integrantes ligados à chefia da organização criminosa e ao núcleo financeiro da quadrilha. Em Uberaba, as investigações identificaram o núcleo responsável pelo transporte da droga, incluindo motoristas e os chamados “batedores”. Já em Mato Grosso do Sul, o grupo buscava a droga que era distribuída para o Triângulo Mineiro e outras regiões. Dois dos principais investigados se mudaram recentemente para São Paulo, após venderem uma casa em um condomínio de luxo em Uberlândia. LEIA TAMBÉM: Operação 'Resort do Crime' mira tráfico e lavagem de dinheiro em Ituiutaba Operação Tolerância Zero: PM remove motocicletas e bicicletas motorizadas irregulares Homem chamado para acompanhar operação policial acaba preso por não pagar pensão A PF começou a investigar o grupo criminoso após a apreensão de cerca de 1,1 tonelada de maconha na cidade de Frutal, no Triângulo Mineiro. A partir desse caso, os investigadores conseguiram relacionar os suspeitos a outras remessas, que somaram aproximadamente 5,9 toneladas da droga apreendidas ao longo das investigações. Além do tráfico de drogas, os investigados também são suspeitos de lavagem de dinheiro. Segundo a polícia, o grupo usava empresas de fachada e “laranjas” para ocultar a origem ilícita dos recursos. Ao todo, são cumpridos 22 mandados de prisão preventiva e cinco de prisão temporárias. A Operação Luxury é considerada a maior ação do ano da Polícia Federal em Minas Gerais. A Polícia Federal fará coletiva às 10h, em Uberlândia, para apresentar os resultados da força-tarefa. Operação Luxury da Ficco em Uberlândia TV Integração/Reprodução VÍDEOS: veja tudo sobre o Triângulo, Alto Paranaíba e Noroeste de Minas

Palavras-chave: tecnologia

Amazon renova linha Fire TV Stick HD e lança TVs Artline para competir com a Samsung

Publicado em: 15/04/2026 06:44 Fonte: Tudocelular

A Amazon anunciou nesta quarta-feira, 15, uma renovação importante no seu ecossistema de entretenimento doméstico com a nova geração do Fire TV Stick HD, além de iniciar a pré-venda da linha de televisores Ember Artline. Os lançamentos focam em dois públicos distintos: o consumidor que busca um acessório de entrada veloz e discreto e o usuário que deseja uma TV com estética de quadro para decorar a casa.O novo Fire TV Stick HD chega com um corpo 30% mais fino em comparação ao modelo anterior. Essa mudança no design facilita a instalação em televisores fixados muito próximos à parede ou com entradas de difícil acesso. Além da redução física, o dispositivo recebeu um salto de performance de 30% na velocidade de processamento, que promete melhorar o carregamento de aplicativos e a fluidez na navegação nos menus. O dongle de streaming da Amazon agora conta com suporte para Wi-Fi 6 e Bluetooth 5.3, tecnologias que garantem uma conexão de internet mais estável para conteúdos em alta definição e uma latência menor em fones de ouvido sem fio. Outro destaque é a integração com a Alexa Plus, a nova versão da assistente virtual que utiliza inteligência artificial para entender comandos de voz mais complexos sobre filmes, séries e controle de dispositivos da casa inteligente.Clique aqui para ler mais

Palavras-chave: tecnologia

Câmara de Campinas vota, em definitivo, prorrogação do contrato do transporte público por até 2 anos

Publicado em: 15/04/2026 06:36

Câmara de Campinas aprovou na noite desta quarta-feira (8), em 1ª votação, o projeto que prorroga o atual contrato do transporte público por até 2 anos Câmara Municipal de Campinas A Câmara de Vereadores de Campinas analisa e vota na noite desta quarta-feira (15), em definitivo, o projeto de lei complementar que prorroga o atual contrato do transporte público, que se encerra em 29 de abril de 2026. ➡️ Também será votada a emenda que reduz de três para, no máximo, dois anos o período de extensão do contrato. Somente se aprovada em 2ª votação é que a prorrogação excepcional poderá ser efetivada pelo Executivo. 📲 Participe do canal do g1 Campinas no WhatsApp A discussão do projeto de extensão do contrato do transporte público pela Casa Legislativa ocorre em meio à espera da finalização do processo de licitação, após a realização do leilão em março. 📆 Atualmente, a Comissão de Licitação analisa as planilhas enviadas pelas empresas vencedoras do leilão ocorrido em 5 de março. Não há prazo estipulado pelo edital nessa fase - leia mais abaixo. Em 1ª votação, com o Plenário marcado por debates sobre divergências no prazo da extensão do atual acordo, alvo de contestação do Tribunal de Contas do Estado (TCE-SP), tanto o projeto quanto a emenda foram aprovados por 25 votos favoráveis e seis contrários. A Emdec justificou que o prazo maior do projeto foi estruturado como uma "margem de máxima segurança jurídica" para o período de transição da nova concessão, estimada entre 11 e 14 meses, "necessário para garantir a continuidade da prestação dos serviço". ⚠️ O projeto possui uma cláusula resolutiva que assegura a extinção automática da prorrogação tão logo concluído o procedimento licitatório e iniciada a operação pelos novos concessionários. Leilão em março Sancetur e Consórcio Grande Campinas vencem leilão para operar transporte público Em março, um leilão na B3, em São Paulo, definiu os ganhadores do certame para operar o sistema de transporte público de Campinas pelos próximos 15 anos, prorrogáveis por mais 5 anos. O processo enfrenta um atraso de mais de uma década, desde que o Tribunal de Contas do Estado (TCE) avaliou como irregular a concorrência de 2005. Atualmente, o processo está na etapa de avaliação técnicas das planilhas apresentadas pelos vencedores do certame. Veja abaixo o passo a passo: Análise da Comissão de Licitação: que fará a avaliação técnica das planilhas para verificar se a proposta é economicamente viável. Essa etapa não tem prazo definido. Publicação do julgamento: após a análise, será publicado o julgamento do resultado da licitação. Apresentação de recursos: a partir da publicação, abre-se um período de 3 dias úteis para que as empresas apresentem eventuais recursos administrativos contestando o resultado. Homologação do processo: se não houver recursos (ou após a análise deles), ocorre a homologação da licitação, confirmando oficialmente os vencedores. Criação das empresas operadoras: o consórcio vencedor terá até 2 meses para constituir as Sociedades de Propósito Específico (SPEs) — empresas criadas exclusivamente para operar o transporte coletivo de Campinas. Assinatura do contrato: após a criação das SPEs, ocorre a assinatura do contrato de concessão com a prefeitura. Emissão da Ordem de Serviço: o poder público terá até 120 dias (90 dias mais 30) para emitir o documento que autoriza oficialmente o início dos investimentos pelas concessionárias. Início da operação: a partir da ordem de serviço, as empresas terão até 180 dias para adquirir ônibus, estruturar garagens e preparar a operação, até disponibilizar a frota e iniciar o serviço no sistema de transporte coletivo. Ônibus do transporte público municipal de Campinas Fernanda Sunega/Prefeitura Municipal de Campinas Histórico Inicialmente prevista para março de 2016, a nova licitação é aguarda porque o Tribunal de Contas do Estado (TCE) avaliou como irregular a concorrência de 2005. Segundo o tribunal, as empresas não poderiam ter passado pelo sistema de avaliações técnicas dentro da licitação de preços. Em agosto de 2019, a prefeitura lançou a primeira versão do edital, mas o documento foi suspenso pelo TCE dois meses depois e acabou barrado pela Justiça em novembro daquele ano. A licitação de 2005 venceu em 2020 e a definição do novo contrato virou uma "novela". Com a anulação, a administração municipal recomeçou o processo para consolidar um novo edital, que foi publicado em dezembro de 2022 — já na gestão Dário Saadi (Republicanos). Em março de 2023, o processo chegou a ser interrompido pelo TCE após contestação pelo sindicato das empresas do segmento (Setcamp). Em maio de 2023, o TCE-SP determinou a reformulação do edital com correções de 14 itens para o processo ser retomado. A reformulação foi publicada no dia 14 de julho. Os estudos para adequações foram realizados pela Emdec e secretarias de Transporte, Administração e Justiça, com apoio da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). Com as correções no edital, a licitação ocorreu em 20 de setembro de 2023, mas foi declarada deserta, porque nenhuma empresa apresentou oferta para a concessão. Com isso, a prefeitura recomeçou o processo licitatório do zero. A administração municipal abriu em outubro de 2023, a segunda consulta pública para receber sugestões que pudessem contribuir com o processo. Foram 131 manifestações recebidas. Em junho de 2024 foi nomeado, pela administração municipal, um Grupo de Trabalho Intersecretarial, para conduzir a nova licitação do transporte coletivo. A prefeitura realizou 11 audiências públicas em dezembro daquele ano, e abriu uma consulta pública para receber contribuições. Ao todo, foram enviadas 1,1 mil contribuições na consulta pública, que ficou aberta de 2 de abril a 2 de julho de 2025. Em dezembro de 2025, o novo edital foi lançado. Terminal Campo Grande, em Campinas (SP): metrópole tenta definir nova licitação do transporte público Carlos Bassan/PMC Outras pautas Na mesma sessão, os vereadores votam, também em definitivo, um projeto que cria o Programa de Regularização do Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza (Refis ISSQN Campinas). CLIQUE AQUI e veja o texto do projeto na íntegra O programa permite o parcelamento de dívidas, inscritas ou não na dívida ativa, e descontos de até 100% sobre multas e juras para o acerto de débitos do imposto municipal. Poderão aderir ao Refis débitos constituídos antes da publicação da lei, inclusive aqueles que já tenham sido parcelados anteriormente. VÍDEOS: tudo sobre Campinas e região Veja mais notícias sobre a região na página do g1 Campinas.

Palavras-chave: câmara municipal

Brastemp lança nova linha de lavadoras com sensores inteligentes e muita inovação

Publicado em: 15/04/2026 06:34 Fonte: Tudocelular

A Brastemp anunciou uma nova geração de lavadoras de 16 kg voltadas para automação e eficiência no dia a dia. Os modelos chegam ao mercado em um momento de forte competição no segmento, onde tecnologia e praticidade ganham cada vez mais relevância. Com foco em simplificar a rotina doméstica, a marca aposta em recursos inteligentes para reduzir etapas manuais durante o processo de lavagem.O principal destaque da nova linha de lavadoras Brastemp fica por conta da tecnologia Smart Sensor, capaz de identificar o peso das roupas e ajustar automaticamente o nível de água e o padrão de agitação. Na prática, isso permite reduzir o consumo em até 25% e otimizar o tempo dos ciclos, alinhando eficiência com sustentabilidade.Clique aqui para ler mais

Palavras-chave: tecnologia

Com 10.000 mAh! Powerbank IT-BLUE entra em promoção por menos de R$ 60

Publicado em: 15/04/2026 06:28 Fonte: Tudocelular

Alternativa para quem busca uma powerbank baratinha, a IT-BLUE MAX-0561 traz um pacote bastante completo pelo preço. Além da capacidade de 10.000 mAh, o acessório se destaca pelo suporte a carregamento rápido de até 20 W e boa variedade de conexões. O dispositivo está em preço imperdível nesta oferta da Amazon — você pode levá-lo por apenas R$ 59, com possibilidade de parcelamento em até 2 vezes sem juros no cartão de crédito. Power Bank 10000 mAh, Carregador Portátil Turbo 22,5W, Display de Led Indicador de Bateria, Entrada USB e Tipo C, Tecnologia Power Delivery, Carregamento Super Rápido - Max-0561 (Preto ou Branco) Amazon R$ 59 Ver Oferta Sobre o dispositivoCom elevada capacidade de energia, a powerbank IT-BLUE MAX-0561 armazena 10.000 mAh de carga, valor que representa o dobro do que a maioria dos smartphones suporta (cerca de 5.000 mAh). Ou seja, é possível recarregar até duas vezes um aparelho com esse tamanho de bateria.Clique aqui para ler mais

Palavras-chave: tecnologia

Fraude em licitação, 'folha de pagamento paralela' e contratação de indicados por facção: como era o esquema que afastou prefeito de Cabedelo

Publicado em: 15/04/2026 06:06

Prefeito de Cabedelo é afastado em operação da Polícia Federal Uma operação da Polícia Federal, determinada pela Justiça da Paraíba, na manhã desta terça-feira (14) em Cabedelo, na Grande João Pessoa, afastou o prefeito interino Edvaldo Neto (Avante), que havia vencido a eleição suplementar no último domingo (12). A ação investiga um complexo esquema de corrupção e ligação com o crime organizado. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 PB no WhatsApp A Operação Cítrico é conjunta da Polícia Federal, do Ministério Público da Paraíba (por meio do Gaeco) e da Controladoria-Geral da União (CGU). Foram cumpridos mais de 20 mandados de busca e apreensão na investigação do esquema de fraude em licitações, desvio de recursos públicos e a ligação de agentes políticos com uma facção criminosa. O g1 reuniu perguntas e respostas para explicar os principais pontos do afastamento do prefeito, de outros servidores, além da forma como o esquema operava. O que a investigação apura? Como aconteciam as fraudes? Quem são os alvos da operação e o que faziam no esquema? Sogra de prefeito era advogada de chefe da facção criminosa? Prefeito interino não vai assumir como prefeito eleito? Quem assume a prefeitura de Cabedelo? O que a investigação apura? Apartamento do prefeito de Cabedelo foi alvo de mandado de busca e apreensão Zuila David/TV Cabo Branco A investigação apura a existência de um consórcio entre políticos da alta cúpula do município, empresários e integrantes da facção “Tropa do Amigão”, um braço do “Comando Vermelho”. Segundo a PF, o esquema pode ter movimentado até R$ 270 milhões em contratos fraudulentos, usando empresas de mão de obra para infiltrar membros da facção na prefeitura e desviar dinheiro público. A decisão para determinar o afastamento e a investigação foi do desembargador Ricardo Vital de Almeida, que descreve que empresas terceirizadas, especialmente a Lemon Terceirização e Serviços Ltda, com sede em Olinda, em Pernambuco, eram o eixo central do esquema estruturado dentro da administração pública de Cabedelo. Segundo o documento da decisão, o modelo do esquema operava da seguinte forma: a Prefeitura de Cabedelo realizava contratações de serviços terceirizados, como de limpeza em prédios e domicílios, por meio de licitações que são suspeitas de serem fraudadas, ou direcionadas, para garantir que determinadas empresas, como a Lemon, fossem sempre vencedoras e que, após as contratações, houvesse o desvios dos recursos de volta para facção e para agentes públicos, com salários inflados. Como aconteciam as fraudes? A Justiça aponta que as fraudes ocorriam, por exemplo, com a desclassificação deliberada de empresas concorrentes nas licitações, mesmo quando apresentavam propostas melhores, mediante decisões administrativas e pareceres jurídicos que davam aparência de legalidade ao processo licitatório. Uma vez que os contratos eram fechados, essas empresas terceirizadas funcionariam como um mecanismo de contratação de pessoas indicadas por uma facção criminosa, identificada como a “Tropa do Amigão”, um braço do Comando Vermelho, na Paraíba. Essas indicações, segundo a investigação, partiam da liderança do grupo criminoso e eram operacionalizadas dentro da administração pública por intermediários e servidores, que recebiam currículos e efetivavam contratações dentro da estrutura das empresas terceirizadas. Na prática, isso teria criado uma espécie de “folha de pagamento paralela”, como é citado pelo documento, na qual recursos públicos pagos às empresas terceirizadas eram desviados, total ou parcialmente, para financiar a organização criminosa e pagar propinas a agentes públicos. O dinheiro circulava por meio de salários inflados desses funcionários terceirizados contratados, pagamentos em espécie e uso de contas de terceiros para dificultar o rastreamento dessas quantias, caracterizando indícios de lavagem de dinheiro, também conforme a decisão. Com isso, a estrutura formal da administração municipal, conforme palavras do desembargador, “teria sido convertida em um instrumento logístico e financeiro do crime organizado”. O documento ressalta ainda a ligação entre o núcleo da organização criminosa e o núcleo político do esquema. Um dos nomes citados pelo desembargador é o de Flávio de Lima Monteiro, conhecido por "Fatoka", o chefe da facção criminosa. Ele não foi alvo da operação nesta terça-feira (14) e está na lista dos criminosos mais procurados da Paraíba. Quem são os alvos da operação e o que faziam no esquema? Dinheiro e outros objetos foram apreendidos durante operação da Polícia Federal em Cabedelo Divulgação/Polícia Federal O principal alvo é o prefeito afastado, Edvaldo Neto. Além dele, a operação mirou outras 12 pessoas, incluindo familiares e pessoas ligadas à sua gestão. Entre eles estão sua sogra, Cynthia Denize Silva Cordeiro (ex-secretária de Políticas para Mulheres), e seu cunhado, Diego Carvalho Martins (ex-chefe do Procon municipal). A atual secretária de Administração, Josenilda Batista dos Santos, também está na lista. Veja abaixo quem é quem no esquema investigado pela Justiça e também pela PF: Edvaldo Neto, prefeito interino: teria mantido e garantido a continuidade do esquema como prefeito, assegurando contratos com a Lemon; Vitor Hugo, ex-prefeito: apontado como articulador inicial do esquema, responsável por firmar o pacto com a facção e estruturar o modelo do esquema; Josenilda Batista dos Santos, atual secretária de administração de Cabedelo: apontada como braço operacional interno da facção; recebia indicações da facção e atuava para fraudar licitações e contratar via terceirizadas. Diego Carvalho Martins, atual procurador-geral do município: procurador que teria dado suporte jurídico ao esquema, com pareceres para favorecer a Lemon nas licitações. Luciano Junior da Silva, dono de empresas: controlador de fato do "hub de empresas" utilizadas pela facção criminosa; estruturava a terceirização como fachada para o esquema. Aldecir Monteiro da Silva: sócio formal da Lemon; assinava contratos e aditivos para dar aparência legal. Rougger Guerra Junior, ex-procurador da Câmara de Cabedelo e secretário de João Pessoa: apontado como “lobista”, facilitava a inserção das empresas do esquema na administração pública. Rita Bernadeth Moura Medeiros: apontada como elo operacional do esquema; fazia a interlocução diária entre empresas e Prefeitura. Claudio Fernandes de Lima Monteiro, policial militar reformado e motorista de Josenilda: apontado como gestor de contrato da Lemon indicado para “blindar” a execução do acordo da prefeitura com a empresa e evitar fiscalização. Cynthia Denize Silva Cordeiro, advogada: apontada como elo jurídico entre o núcleo político do esquema com a facção; Ela era advogada de Fatoka e sogra de Edvaldo Neto, o prefeito. Tanison da Silva Santos: apontado como intermediário da facção; repassava indicações e articulava contratações. Genilton Martins de Brito: apontado como operador financeiro; movimentava e pulverizava recursos desviados. Prefeitura de Cabedelo (Contratos/Licitações): estrutura usada para viabilizar licitações e contratos sob suspeita. Lemon Terceirização e Serviços Ltda: empresa central do esquema; utilizada para desvio de verbas e contratação de indicados da facção. LEIA TAMBÉM: Prefeito de Cabedelo afastado em operação que investiga elo com facção criminosa prometeu barrar crime organizado Sogra de prefeito era advogada de chefe da facção criminosa? De acordo com o desembargador, a sogra de prefeito era advogada de chefe da facção criminosa TV Cabo Branco O desembargador Ricardo Vital de Almeida, citando o Ministério Público da Paraíba (MPPB) nos autos do processo, ressaltou que a participação de Cynthia Denize Silva Cordeiro, um dos alvos da operação e da investigação, não teria sido acidental" no esquema e desempenhava um papel importante no esquema criminoso, sendo advogada de Fatoka, chefe do Comando Vermelho, além de ser sogra do prefeito interino. "Ela teria articulado a aliança inicial entre a Prefeitura e a facção. Sua influência, segundo os indícios, se estende, já que é sogra do atual prefeito Edvaldo Neto, o que, em tese, a posicionaria como figura de poder contínuo, garantindo a manutenção do pacto", diz trecho da decisão. Cynthia Cordeiro chegou a ocupar diversos cargos na prefeutura de Cabedelo. O g1 entrou em contato com ela para ter um posicionamento sobre a operação, mas não teve resposta até a última atualização desta reportagem. Prefeito interino não vai assumir como prefeito eleito? Edvaldo Neto (Avante) candidato em Cabedelo Reprodução/TV Cabo Branco O afastamento foi uma medida cautelar determinada pela Justiça da Paraíba para preservar a investigação e impedir a continuidade das condutas investigadas. Edvaldo Neto já era prefeito interino desde 2025 e foi afastado do cargo dois dias após ser eleito para o mandato definitivo. A medida não tem relação com a eleição suplementar deste domingo (12). De acordo com o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-PB), o afastamento do prefeito eleito de Cabedelo não foi determinado por integrante da Justiça Eleitoral e que um " eventual efeito desse afastamento na seara eleitoral, inclusive no tocante à sua diplomação, será oportunamente apreciado pela autoridade eleitoral competente, em processo judicial específico, quando provocada". O TRE-PB havia informado anteriormente que a data da diplomação do prefeito está marcada para o dia 25 de maio e uma cerimônia no Teatro Santa Catarina, em Cabedelo. Quem assume a prefeitura de Cabedelo? Edvaldo Neto ao lado de José Pereira. (Reprodução / Redes sociais) Com o afastamento de Edvaldo Neto, quem assume o comando da prefeitura é o atual presidente da Câmara Municipal, José Pereira (Avante). José Pereira era vice-presidente da Câmara de Cabedelo e assumiu a presidência assim que Edvaldo Neto precisou sair para assumir a Prefeitura de forma interina. O novo prefeito interino, José Pereira, está no terceiro mandato de vereador, tendo sido eleito em 2012, 2020 e 2024. Em 2016, tentou a reeleição, mas acabou ficando na suplência. Com a saída de José Pereira para assumir a Prefeitura, Wagner do Solanense (PV), 2º vice-presidente da Câmara Municipal, deve assumir a presidência do Legislativo de forma interina. Vídeos mais assistidos do g1 Paraíba

Palavras-chave: câmara municipal

Elis Regina revive em álbum póstumo produzido a partir da voz da cantora em especial de TV gravado há 40 anos

Publicado em: 15/04/2026 06:00

Elis Regina (1945 – 1982) no camarim do Teatro Bandeirantes em 1976 Divulgação / Bob Wolfenson ♫ NOTÍCIA ♬ Já está em processo de formatação mais um álbum póstumo de Elis Regina (17 de março de 1945 – 19 de janeiro de 1982), previsto para ser lançado em novembro com dez faixas. Antes mesmo do lançamento da controvertida edição remixada do álbum “Elis” (1973), alvo de indignação pública do pianista e arranjador do disco, Cesar Camargo Mariano, João Marcello Bôscoli e o engenheiro de som Ricardo Camera já vinham trabalhando em álbum criado a partir do áudio extraído da gravação de especial filmado pela cantora para a TV Bandeirantes em 1976. Esse trabalho de revitalização do áudio de 1976 transcorre paralelamente às dissonâncias relativas á remixagem do álbum de 1973 – caso que já pode até parar na Justiça (Cesar Camargo Mariano já notificou a gravadora Universal Music e João Marcello Bôscoli estaria cogitando processar Mariano, de acordo com texto publicado no blog do jornalista Julio Maria, biógrafo de Elis Regina). Feita há 40 anos por Elis no estúdio paulistano Vice-Versa, em 16 canais, essa gravação já tinha originado em 1984 o álbum póstumo “Luz das estrelas”, produzido por Max Pierre e Rogério Costa (1949 – 1996), irmão de Elis, com a voz da cantora posta sobre novos arranjos criados na ocasião com a tecnologia da época. Em essência, o processo que gerou “Luz das estrelas” – disco lançado com pompa pela gravadora Som Livre em 1984 – é similar ao processo feito na corrente produção desse novo álbum gerado a partir da voz da cantora no mesmo especial de TV, só que com o auxílio dos recursos digitais do século XXI. Leia-se IA. A ideia do projeto surgiu em 2023 em conversa de João Marcello Bôscoli com o irmão Pedro Mariano. Extraída da gravação do especial (mas recuperada a partir de fita enviada pela gravadora Som Livre à família de Elis, não da fita original do programa de TV, aparentemente perdida), a voz de Elis Regina nas dez músicas foi restaurada pelo engenheiro de som Ricardo Camera através de softwares de IA que reduzem ou eliminam ruídos e interferências. Restaurada a voz, uma nova base instrumental foi produzida nos Estúdios Trama NaCena, em São Paulo (SP), com arranjos criados por Marcelo Maita com a ambição de soarem contemporâneos e, ao mesmo tempo, serem fiéis ao ao universo musical de Elis Regina, cantora que tinha apurada musicalidade e, por isso mesmo, era exigente com a criação e execução dos arranjos. Foram arregimentados músicos como Conrado Goys (guitarra), Daniel de Paula (bateria), Paulinho da Costa (percussão e percussão vocal) e Robinho Tavares (baixo). Os instrumentistas se juntaram ao arranjador Marcelo Maita (piano elétrico e sintetizador) para a gravação de músicas como “Corsário” (João Bosco e Aldir Blanc). Apresentada ao Brasil na voz de Ney Matogrosso em 1975, no primeiro álbum solo do cantor, a música “Corsário” foi incluída por Elis no roteiro do especial da TV Bandeirantes ao lado de outras composições de João Bosco e Aldir Blanc (1946 – 2020), dupla recorrente no repertório da cantora desde 1972. Com capa que expõe a assinatura de Elis, o single com a nova versão de “Corsário” está programado para ser lançado em 10 de maio, Dia das Mães, dando sequência ao projeto tornado público exatamente dois anos antes, em 10 de maio de 2024, com a edição do single que apresentou a nova versão de “Para Lennon e McCartney” (Lô Borges, Marcio Borges e Fernando Brant, 1970). Originalmente intitulado “Elis para sempre”, esse próximo álbum póstumo de Elis Regina poderá ter músicas como “Triste” (Antonio Carlos Jobim, 1967), “O mestre-sala dos mares” (João Bosco e Aldir Blanc, 1974) e “Gol anulado” (João Bosco e Aldir Blanc, 1967). Capa do single póstumo 'Corsário', de Elis Regina (1945 –1982) Divulgação

Palavras-chave: tecnologia

O remédio de bilhões contra o câncer que poucos conseguem pagar

Publicado em: 15/04/2026 05:04

Pembrolizumabe é imunoterápico ultramoderno, diz oncologista Arquivo pessoal Aprovado para uso contra ao menos 19 tipos de câncer, o remédio conhecido comercialmente como Keytruda (pembrolizumabe), da farmacêutica americana Merck Sharp & Dohme (MSD), é vendido no Brasil por mais de R$20 mil. O alto valor da medicação faz com que muitas vezes ela seja inacessível para os que mais precisam não só em terras brasileiras, mas no mundo todo. Desde o seu lançamento, em 2014, quando foi aprovado pela primeira vez pela Administração de Alimentos e Drogas (do inglês, Food and Drug Administration) (FDA) dos Estados Unidos, o remédio já prolongou a vida de milhões de pessoas, em alguns casos transformando diagnósticos anteriormente fatais em doenças controláveis. Mas nem todos os pacientes oncológicos podem contar com esse "luxo”. Uma investigação internacional conjunta publicada nesta segunda-feira (13/04) apontou que a MSD tem se utilizado de uma combinação de estratégias legais e comerciais para determinar quem tem acesso à medicação. Ou seja, a empresa decide, através de sistemas de preços, proteções de patentes e marcos regulatórios quem terá uma chance – ou não – na luta contra o câncer. O projeto batizado de Cancer Calculus é uma iniciativa do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ), em parceira com 47 veículos jornalísticos, incluindo a DW Turquia, e investigou o que está por trás dos altos preços atrelados a um dos medicamentos mais importantes do mundo contra o câncer e que se tornou um ponto de ruptura na saúde global. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Campeão de vendas O Keytruda pertence a uma classe de imunoterápicos que permitem ao sistema imunológico atacar as células cancerígenas e gerou, só em 2025, uma receita de vendas de 31,7 bilhões de dólares, o que é mais ou menos 1600 bilhões em reais. Isso corresponde a quase metade da receita total da MSD. Se contado desde a sua aprovação, esse valor é ainda maior, chegando na casa dos 163 bilhões de dólares em receita global, com 60% das vendas vindo dos EUA. Enquanto isso, a empresa distribuiu aproximadamente 75 bilhões de dólares em dividendos aos acionistas e realizou 43 bilhões de dólares em recompra de ações. A cifra bilionária impressiona e posiciona o medicamento como um dos maiores sucessos financeiros na história da indústria farmacêutica. O sucesso de vendas, no entanto, não foi capaz de reduzir o preço do Keytruda. Os custos do tratamento seguem exercendo pressão crescente sobre os sistemas de saúde em todo o mundo. As despesas anuais com tratamento variam de aproximadamente 80 mil dólares na Alemanha a 208 mil dólares nos EUA, de 93 mil dólares no Líbano a aproximadamente 130 mil dólares na Colômbia e de aproximadamente 65 mil dólares na África do Sul a 116 mil dólares na Croácia. Esses valores estão sobrecarregando os orçamentos públicos, inclusive em países ricos. Nos últimos anos, o Keytruda contou com uma expansão global bastante acelerada. De acordo com dados fornecidos ao ICIJ pelo Instituto para Ciência de Dados Humanos (Institute for Human Data Science) (IQVIA), entre 2020 e 2024, as vendas aumentaram 265% no Brasil, chegando a 753,7 milhões de dólares. Na França, o aumento foi de 232%, atingindo 2,8 bilhões de dólares; no México, de 491%, alcançando 137,3 milhões de dólares; e na Turquia, de 584%, atingindo aproximadamente 100 milhões de dólares. Com o aumento contínuo dos preços dos medicamentos nos EUA, o presidente Donald Trump se reuniu com executivos da indústria farmacêutica em dezembro passado e prometeu reduzir os custos. Embora as empresas tenham sinalizado possíveis reduções de preços, a MSD não se comprometeu publicamente com nenhum corte no preço da medicação. Pesquisas no Reino Unido mostram que, em alguns casos, o Serviço Nacional de Saúde (NHS) paga um valor excessivo pelo Keytruda. Um estudo constatou que, para alguns pacientes com câncer de pulmão, o valor pago pelo medicamento chegou a ser cinco vezes maior do que seu custo-benefício. Preços, patentes e poder O projeto Cancer Calculus revelou que a MSD utilizou uma combinação de estratégias legais e comerciais para manter sua posição dominante. Um dos aspectos mais importantes é o uso extensivo do sistema de patentes. Jornalistas identificaram pelo menos 1.212 pedidos de patente relacionados ao Keytruda em 53 jurisdições diferentes. Desses, 88 são no Brasil. De acordo com a investigação, embora as principais patentes do medicamento devam expirar em 2028, as patentes de continuação podem estender o monopólio de mercado até pelo menos 2042. Isso poderia atrasar a entrada de alternativas mais baratas no mercado em mais de uma década. O ICIJ também identificou pelo menos 337 pedidos de patente "pendentes". Se concedidos, esses pedidos poderiam ampliar ainda mais o domínio do medicamento. Para especialistas do setor, a situação é vista como uma "fortaleza de patentes" criada para sufocar a concorrência. Tahir Amin, fundador da Iniciativa para Medicamentos, Acesso e Conhecimento (I-MAK), uma organização sem fins lucrativos que examina as desigualdades no desenvolvimento de medicamentos, caracterizou a estratégia da MSD como um "esquema multifacetado de abuso de patentes" para estender seu monopólio e manter preços elevados. A companhia rejeita as críticas e afirma que suas aplicações refletem a inovação contínua, incluindo novos casos de uso, formulações e combinações. A investigação também expôs processos regulatórios e esforços de lobby que ajudaram a expandir o uso do medicamento, bem como relações financeiras estabelecidas com médicos e grupos de pacientes. Somente nos EUA, os registros mostram que a MSD repassou aproximadamente 52 milhões de dólares a profissionais de saúde entre 2018 e 2024 em pagamentos relacionados ao Keytruda. Um estudo realizado nos EUA para o Escritório Nacional de Pesquisa Econômica (National Bureau of Economic Research) constatou que a prescrição de medicamentos oncológicos administrados por médicos, como o Keytruda, aumentou 4% nos 12 meses seguintes ao recebimento de financiamento de uma empresa farmacêutica por um profissional de saúde. Quanto a isso, a MSD afirma que essas colaborações ajudam a informar a comunidade médica e melhorar o atendimento ao paciente, e que qualquer apoio fornecido às organizações de pacientes é independente das decisões de prescrição. Um outro ponto controverso diz respeito à dimensão dos custos de pesquisa e desenvolvimento (P&D) do Keytruda. Em seu depoimento perante o Congresso em 2024, o CEO da MSD, Robert M. Davis, afirmou que a empresa investiu 46 bilhões de dólares entre 2011 e 2023 na pesquisa, desenvolvimento e produção do medicamento. Davis citou mais de 2.200 ensaios clínicos e indicou planos para investir outros 18 bilhões de dólares em estudos futuros. No entanto, uma análise da ONG suíça Public Eye estima o custo de pesquisa e desenvolvimento do medicamento em aproximadamente 1,9 bilhão de dólares - 44 bilhões de dólares a menos do que o informado. Esse custo representa cerca de 1% da receita global gerada desde o lançamento do medicamento. Mesmo incluindo os custos dos ensaios clínicos malsucedidos, essa estimativa sobe para apenas 4,8 bilhões de dólares, ou cerca de 3% da receita total. Adobe Stock Preços exorbitantes, falta de transparência Os preços de tabela do Keytruda variam bastante. Na Indonésia, um frasco do medicamento (100 mg) custa aproximadamente 850 dólares, enquanto nos EUA esse valor ultrapassa os 6 mil dólares. Essa diferença é resultado de um sistema de preços pouco transparente, caracterizado por descontos ocultos e negociações. Mesmo onde os preços parecem mais baixos, a acessibilidade costuma ser pior. Nos EUA, um paciente com renda média pode pagar menos de cinco doses por ano. Em contraste, na África do Sul, uma pessoa com renda mediana não consegue pagar nem mesmo uma única dose (200 mg) por ano. Isso revela que as disparidades de renda, e não apenas o preço, são fatores determinantes para o acesso. Segundo a análise do ICIJ, baseada em parte em dados do Instituto Nacional de Saúde Pública da Áustria, pessoas com renda média nos EUA têm menos condições de comprar Keytruda do que aquelas em alguns países da Europa Ocidental, como França e Bélgica. O medicamento é ainda menos acessível em países de baixa renda da Europa Oriental, como Bulgária e Hungria. Na Índia, o acesso depende em grande parte de pagamentos diretos ou de programas de apoio limitados. Os custos do tratamento podem exceder a renda anual de um paciente, restringindo o acesso a uma pequena parcela da população. O estudo também revelou casos em que a oferta limitada obrigou os médicos a tomar decisões entre a vida e a morte. Um oncologista na Guatemala disse que teve de escolher quais pacientes receberiam tratamento e que se sentia como se estivesse "brincando de Deus". Desde o lançamento do Keytruda em 2014, o ICIJ identificou pelo menos 632 casos em 51 países em que pacientes tentaram arrecadar dinheiro para o tratamento por meio do GoFundMe e outras plataformas de financiamento coletivo. Em alguns casos, os pacientes recorreram ao mercado ilegal, arriscando-se a adquirir medicamentos falsificados. Outros entraram com ações judiciais contra governos. Alguns morreram antes que seus casos fossem resolvidos. Uma característica comum se destaca em todos os países: o sigilo. Em alguns países, as autoridades se recusam a divulgar os gastos públicos ou o número de pacientes relacionados ao Keytruda, frequentemente alegando "segredos comerciais". Isso dificulta a comparação de preços e a avaliação da equidade dos sistemas de saúde. Keytruda no Brasil O alto custo dos medicamentos contra o câncer levou a um aumento repentino de processos judiciais no Brasil. Nos últimos anos, milhares de ações judiciais foram movidas por pacientes que buscam acesso ao tratamento por meio de ordens judiciais. De acordo com o Poder 360, veículo brasileiro que participou da apuração, o Keytruda corresponde ao medicamento com mais judicializações em território nacional, com 6,7 mil ações em instâncias estaduais e federais e 4,6 mil pareces técnicos emitidos pelo Judiciário. Essa também é a tendência em toda a América Latina, onde sistemas jurídicos se tornaram um caminho crucial para o acesso ao tratamento. No Brasil, porém, pode ser que essa realidade mude em breve. No final de março deste ano, o governo brasileiro anunciou uma parceria estratégica para a produção do pembrolizumabe pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A ação prevê a transferência de tecnologia da MSD para o Instituto Butantan, fomentando a produção nacional do medicamento, o que deve permitir a ampliação da quantidade de tipos de câncer atendidos pelo tratamento na rede pública de saúde. Atualmente, o Keytruda só é receitado no tratamento de melanoma. No futuro, o medicamento pode vir a ser utilizado, também, contra os cânceres de mama, pulmão, esôfago e colo do útero. Além disso, a produção própria deve reduzir o custo do produto no mercado nacional, tornando-o mais acessível para tratamentos oncológicos. Debates sobre dosagem e aumento de custos A investigação internacional também levantou questões sobre como o medicamento é prescrito. Alguns pesquisadores argumentam que o Keytruda é frequentemente administrado em doses maiores do que o necessário. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a simples mudança para a dosagem baseada no peso para pacientes com câncer de pulmão poderia gerar uma economia de aproximadamente 5 bilhões de dólares em todo o mundo ao longo de 15 anos. Em muitos países, os hospitais já começaram a testar doses mais baixas, com os resultados iniciais apontando para níveis de eficácia semelhantes, como em Singapura, Malásia e Taiwan. Alguns países, incluindo Holanda, Canadá e Israel, começaram a adotar um sistema em que a dose é determinada de acordo com o peso do paciente e obtiveram resultados promissores. A MSD, no entanto, argumenta que suas recomendações de dosagem são baseadas em evidências clínicas abrangentes e aprovações regulatórias. MSD: Os preços refletem o valor Ao ser contata pelo ICIJ, a MSD defendeu sua estratégia de preços, afirmando que o preço do Keytruda "reflete seu valor para pacientes e sistemas de saúde". A empresa também afirmou que o acesso a medicamentos é uma questão "multifacetada", dependendo não apenas do preço, mas também de muitos outros fatores, como sistemas de saúde, políticas de reembolso e infraestrutura. A MSD confirmou que aplica preços variados em diferentes mercados e mantém programas de apoio ao paciente. A farmacêutica também observou que participa ativamente de programas para aumentar o acesso a medicamentos em países de baixa e média renda. Nos EUA, a empresa relatou ter fornecido 1,7 bilhão de dólares em medicamentos gratuitos e oferecido aproximadamente 125 milhões de dólares em apoio a copagamento, ou coparticipação, em 2024. A companhia também enfatizou que fatores sistêmicos mais amplos, como seguradoras e intermediários, estão entre as principais causas dos altos custos, particularmente nos EUA. Embora a empresa não divulgue publicamente como calcula os custos de P&D para medicamentos individuais, ela afirma que os preços refletem investimentos e riscos de longo prazo em todo o seu portfólio. A MSD também declarou que reconhece as crescentes "pressões políticas e comerciais" em relação a preços e acesso, principalmente em mercados em desenvolvimento, e que está trabalhando para tornar a assistência médica mais "acessível, eficiente, equitativa e sustentável". Sistema global sob pressão O estudo revela que as práticas da MSD não são exclusivas, mas refletem uma dinâmica mais ampla da indústria farmacêutica, onde a proteção de patentes, as estratégias de preços e os marcos regulatórios frequentemente favorecem os fabricantes. As consequências, no entanto, são sentidas pelos pacientes. O acesso a tratamentos que prolongam a vida muitas vezes depende não apenas de necessidades médicas, mas também da localização geográfica, da renda e da capacidade de lidar com sistemas jurídicos e financeiros complexos. Segundo Nasır Nesanır, chefe do Departamento de Saúde Pública da Associação Médica Turca, em entrevista à DW Turquia, essas desigualdades apontam para problemas estruturais mais profundos. Ao chamar a atenção para as regulamentações de patentes e as estratégias globais de preços de medicamentos, Nesanır enfatizou que, embora o progresso científico seja teoricamente "para o benefício da humanidade", na prática, o poder de compra e a capacidade orçamentária nacional tornaram-se os fatores determinantes. "Portanto, a questão não é simplesmente um debate sobre preços. Trata-se de saber se o progresso no tratamento do câncer deve ser um direito universal ou um privilégio dependente do mercado", disse Nesanır, acrescentando: "A inovação médica deve ser vista como um ganho comum para a humanidade ou deve permanecer um ativo comercial sob proteção de patentes que aprofunda a desigualdade global? Essa é a verdadeira questão." O resultado é uma profunda divisão global. Por um lado, o medicamento representa sobrevivência. Por outro, ainda é inacessível para muitos. Sobre o projeto Cancer Calculus O projeto, coordenado pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ) em conjunto com a DW Turquia e outros 46 parceiros de mídia, reuniu 124 jornalistas de 37 países. Representando o Brasil, participaram dois jornalistas do Poder 360. Com base em centenas de entrevistas com oncologistas, pacientes e seus familiares, advogados, reguladores, farmacêuticos, profissionais da indústria farmacêutica e outros, bem como dados exclusivos de preços e análises de patentes, a iniciativa examinou como o medicamento oncológico Keytruda se tornou tanto um marco médico quanto um símbolo de acesso desigual. Os parceiros de mídia do ICIJ também obtiveram registros de saúde pública, atas de reuniões e dados sobre preços e reembolsos por meio de pelo menos 1.018 pedidos de acesso à informação em 27 países. Parceiros como The Indian Express, De Tijd, El País, La Nación e DW Turquia documentaram como a eficácia dos medicamentos contra o câncer varia drasticamente entre as regiões. Inúmeros exemplos foram examinados, desde hospitais obrigados a compartilhar tratamentos até pacientes que recorrem a tribunais ou campanhas de arrecadação de fundos para sobreviver. Autor: Adriana Figueiredo, Pelin Ünker

Palavras-chave: tecnologia

Veja o que se sabe sobre o caso do vereador que agrediu mulher com garrafa após ela recusar sentar com ele em restaurante em MG

Publicado em: 15/04/2026 05:03

Vídeo mostra mulher ferida após agressão com garrafa em restaurante de MG O vereador Eduardo Genro do Juvenal (PL), da cidade de Leandro Ferreira, no Centro-Oeste mineiro, foi preso após agredir uma mulher com uma garrafa dentro de um restaurante na cidade. O caso foi registrado pela Polícia Militar (PM) e pela Polícia Civil como lesão corporal qualificada, perseguição, importunação sexual e injúria. Em nota, o advogado do vereador, Rafael Lino, disse que não vai se manifestar publicamente sobre o caso, por se tratar de um processo que tramita em segredo de justiça. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Centro-Oeste no WhatsApp A seguir, veja o que já se sabe sobre o caso: Quem são vítima e agressor? Agressor e vítima se conheciam? Quando aconteceu a agressão? Quais são as provas encontradas? Por quais crimes o agressor pode responder? O que falta esclarecer? Quem são vítima e agressor? Eduarda Brandão, mulher agredida com uma garrafa de vidro por Eduardo Cézar Lobato Fonseca, tem 25 anos e mora na zona rural de Leandro Ferreira com a avó e um filho menor, que necessita de cuidados especiais. O vereador Eduardo Cézar Lobato Fonseca (PL), conhecido como 'Eduardo Genro do Juvenal', de 41 anos, é o suspeito de agressão. Na última eleição, Eduardo foi eleito pelo PL com 136 votos, 4,8% dos votos válidos. Segundo dados publicados nas últimas eleições pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o parlamentar é natural de Pitangui (MG), casado e atua como produtor agropecuário. O vereador não declarou renda. Em seu nome, há uma empresa registrada em 2013, na área de produção musical, atualmente com situação cadastral baixada. Agressor e vítima se conheciam? Segundo relato da vítima no boletim de ocorrência, ela conhece o vereador 'de vista', por morarem em uma cidade pequena. A vítima relatou que nunca teve um relacionamento com o agressor, mas afirmou que há dois meses ele a tem perseguido em vários lugares e, inclusive, enviou mensagens pelo aplicativo WhatsApp de outras pessoas. Ela afirmou estar incomodada com o comportamento insistente do vereador e o assédio. Quando aconteceu a agressão? Eduarda relatou aos policiais que estava com mais seis amigos em um restaurante no centro de Leandro Ferreira na noite do dia 6 de abril. O vereador passou acompanhado por outras pessoas, a viu no local e também entrou. Ele foi até a mesa dela, sem ser convidado, e a chamou para se sentar com ele. A vítima e os amigos chegaram a mudar de lugar para evitar contato com o vereador que, diante das negativas dela, jogou uma garrafa em seu rosto, provocando um corte na têmpora. Testemunhas afirmaram em depoimento que, mesmo após o ataque, o vereador continuou a agredi-la verbalmente e tentou intimidá-la. Ele negou, em depoimento, a agressão, e chegou a relatar que ela o teria machucado com as unhas, o que não foi confirmado. Quais são as provas encontradas? Testemunhas confirmaram a versão da vítima e relataram a agressão dentro do restaurante. Há também o registro policial com o relato detalhado da ocorrência e imagens que mostram a vítima ferida após o ataque. Segundo o Boletim de Ocorrência, a versão do vereador de que não havia a agredido não foi sustentada por provas imediatas. Por quais crimes o agressor pode responder? O caso foi registrado pela Polícia Militar (PM) e pela Polícia Civil como lesão corporal qualificada, perseguição, ameaça por mais de uma vez, importunação sexual e injúria. Eduardo Cézar foi preso em flagrante com base na lei Maria da Penha e a Câmara Municipal de Leandro Ferreira decretou a licença temporária e sem remuneração do parlamentar enquanto ele estiver detido. A vítima afirma que, apesar de estarem no mesmo local, ela e o agressor não estavam juntos. Por viverem em uma cidade pequena, se conheciam informalmente e, segundo ela, nunca tiveram nenhum tipo de relacionamento. O que falta esclarecer? A investigação ainda deve aprofundar a análise das provas, ouvir mais testemunhas e avaliar todos os elementos do caso. A Justiça também vai decidir sobre o pedido de liberdade do vereador e, ao fim do processo, definir eventual responsabilização criminal. LEIA TAMBÉM: Mulher agredida por vereador com garrafa de vidro em MG considera deixar cidade: ‘Minha vida acabou’ Vítima de vereador teme ser morta: 'Disse que não daria nada' Vereador ameaçou mulher mesmo depois de agredi-la com garrafa em MG Vereador de Leandro Ferreira, Eduardo Cézar Lobato Fonseca (PL), está preso Reprodução/Redes Sociais VÍDEOS: veja tudo sobre o Centro-Oeste de Minas

Palavras-chave: câmara municipal

Assembleia geral dos bispos começa nesta quarta (15), em Aparecida (SP), e reúne 370 religiosos de todo o país

Publicado em: 15/04/2026 05:00

Santuário Nacional de Aparecida Lucas Tavares/g1 A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil inicia nesta quarta-feira (15) a 62ª Assembleia Geral, em Aparecida, no interior de SP. O evento acontece dentro do Santuário Nacional, maior igreja católica do país. O evento segue até o dia 24 de abril e reúne bispos de todo o país. Ao todo, 373 integrantes do episcopado participam das discussões — entre eles bispos em atividade e eméritos. Neste ano, pela primeira vez, os religiosos vão utilizar dispositivos eletrônicos chamados “keypads” durante as votações. Os aparelhos permitem registrar votos em tempo real, sem necessidade de conexão com internet ou redes. A proposta é dar mais agilidade e precisão ao processo de deliberação dos bispos. Antes, as votações eram realizadas por escrutínio, com uso de papel, segundo a CNBB — modelo que agora começa a ser substituído pela tecnologia. O principal tema do encontro é a votação das novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, que devem orientar a atuação da Igreja nos próximos anos. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Como vai funcionar a assembleia A programação diária começa às 8h, com momentos de oração, seguidos por quatro sessões de trabalho ao longo do dia. Durante a manhã, também estão previstas coletivas de imprensa com representantes da CNBB, com transmissão ao vivo pelas redes sociais. À tarde, os debates continuam e, no início da noite, os bispos participam de missas no Santuário Nacional de Aparecida. Nos primeiros dias, o encontro conta ainda com um retiro espiritual reservado aos participantes. O que mais está na pauta Além da votação das diretrizes, os bispos devem discutir outros temas considerados prioritários pela Igreja no Brasil. Entre eles estão: Análises da conjuntura social e religiosa do país; A aplicação do Sínodo sobre a Sinodalidade; Campanhas da Igreja; Proteção de menores e pessoas vulneráveis; e Eventos futuros, como o Congresso Eucarístico Nacional de 2027. Ao todo, a assembleia prevê a análise de dezenas de temas, além da divulgação de mensagens e comunicações oficiais. Veja mais notícias do Vale do Paraíba e região bragantina

Palavras-chave: tecnologia

Qual a luz mais antiga do Universo que já observamos

Publicado em: 15/04/2026 04:02

A luz é eterna ou será que tem data de validade? Getty Images Existem expressões às quais nos acostumamos tanto que não nos surpreendem mais. Mas, se repensarmos um pouco, elas podem despertar nossa curiosidade. De vez em quando, por exemplo, ficamos sabendo que os cientistas detectaram um astro até então desconhecido, que fica a bilhões de anos-luz de distância. A menos que a descoberta altere a imagem que as pessoas comuns têm do cosmos, costumamos ficar apenas com esta informação básica. Mas, se nos detivermos nessa questão dos "anos-luz" e recordarmos que um único ano-luz equivale a cerca de 9,46 trilhões de quilômetros, a magnitude do percurso realizado pela luz para chegar à Terra é mais do que impactante... é inconcebível. Embora se trate de uma unidade de distância, o ano-luz nos conta quanto tempo levou a viagem. O Sol, nossa estrela mais próxima, está a cerca de 149,6 milhões de quilômetros. Por isso, seus raios levam cerca de oito minutos para chegar à Terra. Mas a luz que vemos hoje da galáxia de Andrômeda, em noites escuras e céus claros, saiu dali há cerca de 2,5 milhões de anos. Só isso já é desconcertante. Mas não é nada em comparação com o tempo com que lidam os astrônomos, que chega a ser, digamos... astronômico. A tecnologia nos permite observar restos do passado, que formam as origens do Universo. Tudo graças a essa luz inimaginavelmente antiga que atravessou a imensidão do cosmos até chegar até nós. Será que isso significa que a luz é eterna? Ou irá se apagar algum dia? E, já que estamos no assunto, qual é a luz mais antiga que já observamos até hoje? A luz onipresente A luz começou a brilhar pelo Universo milhões de anos depois do Big Bang Getty Images "A luz mais antiga do Universo nos chega do fundo cósmico de micro-ondas, emitida quando o Universo tinha cerca de 300 mil anos de existência", afirmou o astrônomo Matthew Middleton, da Universidade de Southampton, no Reino Unido, ao programa de rádio CrowdScience, do Serviço Mundial da BBC. O Universo começou com o Big Bang há cerca de 13,8 bilhões de anos. Mas, inicialmente, era um plasma extremamente quente. Durante esses cerca de 300 mil anos, os fótons, que são as partículas elementares que compõem a luz e toda a radiação eletromagnética, não podiam viajar livremente porque se chocavam constantemente com partículas carregadas. "Mas, à medida que o Universo se expandia, ele se resfriava e, quando se resfriou o suficiente para que os prótons e elétrons se combinassem e formassem um átomo de hidrogênio, os fótons conseguiram escapar", explica Middleton. "Essa radiação ficou viajando até nós desde então." Este evento se chama "recombinação". Ele marcou o momento em que "o Universo se tornou transparente pela primeira vez", segundo ele. Por isso, existe uma espécie de pico na linha temporal do Universo, onde, de repente, é liberada muita energia que, agora, está em toda parte. "É muito importante porque nos conta como o Universo desenvolveu sua estrutura", prossegue o astrônomo. "É a impressão digital da criação." Esta digital, de fato, está em todos os lugares. E, se você tiver idade suficiente para recordar a estática dos antigos televisores analógicos, já a terá visto. A estática da TV analógica, que tanto perturbava os espectadores, havia se originado pouco depois do Big Bang. Getty Images Esse ruído branco provém, em parte, da radiação cósmica de fundo de micro-ondas descrita por Middleton. Ela viajou pelo cosmos por 13 bilhões de anos até chegar até nós. Mas, além do fundo cósmico de micro-ondas, qual é o objeto individual mais antigo que conseguimos observar? A luz mais antiga Os astrônomos tentaram determinar a idade de estrelas individuais localizadas nas proximidades do Sistema Solar. E a HD 140283 foi objeto de estudos detalhados para sua estimativa. Apelidada de "Estrela de Matusalém", ela se encontra no nosso entorno galáctico e é considerada uma das estrelas mais antigas, cuja idade pode ser medida de forma confiável. Calcula-se que ela tenha surgido logo depois do próprio Universo, pois ela faz parte das primeiras gerações de estrelas formadas após o Big Bang. Mas isso se refere exclusivamente à sua idade intrínseca como objeto e, aqui, estamos falando de luz. Do ponto de vista cosmológico, sua luz não é particularmente antiga. A uma distância de cerca de 190 anos-luz, os fótons que detectamos hoje foram emitidos há apenas este tempo. Mas nossa pergunta, na verdade, é: qual é a luz mais antiga que já observamos, procedente de um objeto individual. A resposta, neste caso, não está nas estrelas próximas, por mais antigas que sejam, mas sim nas galáxias primordiais extremamente distantes, cuja luz foi emitida quando o Universo tinha "apenas" centenas de milhões de anos e viajou por todo esse período até que pudéssemos observá-la. O recorde da estrela mais antiga e distante é da JADES-GS-z14-0. Sua luz partiu quando o Universo tinha cerca de 300 milhões de anos, ou seja, ela tem mais de 13,4 bilhões de anos de idade. Mas, em meados de 2025, surgiu uma concorrente: a estrela MoM-z14. Sua luz foi emitida cerca de 20 milhões de anos antes. Ou seja, ela é um pouco mais próxima do Big Bang. A MoM-z14 usurparia o recorde anterior de estrela mais distante e antiga, da JADES-GS-z14-0. Rohan P. Naidu et al. (2025)/NASA/JWST, NASA/ESA/CSA/STScI/Brant Robertson (UC Santa Cruz), Ben Johnson (CfA), Sandro Tacchella (Cambridge), Phill Cargile (CfA) Descrita como "milagre cósmico" pela equipe de cientistas que a detectou com o telescópio espacial James Webb, sua descoberta aguarda a revisão de pares para ser confirmada como o ponto mais longínquo e, ao mesmo tempo, mais antigo já detectado por um instrumento científico humano. A MoM-z14 é um eco de um passado muito remoto. Mas não podemos esquecer que o Universo é tão colossal que, quando essas luzes chegam até nós, os objetos que as emitiram já não são os mesmos. O que os astrônomos observam é o que ela foi: um ponto que indica que existiu uma galáxia, que talvez seja agora uma galáxia gigantesca... ou sabe-se lá o quê. Quando olhamos para as luzes no firmamento, viajamos através do tempo. Mas o que acontece com o futuro? Será que a luz tem data de validade? Brilho eterno Se os cientistas já detectaram luzes que começaram sua viagem quase desde a aurora do tempo, isso significa que a luz nunca se apaga? "Os fótons são complicados", responde Matthew Middleton. "Mas não é preciso se aprofundar muito para verificar que a energia se conserva em qualquer sistema fechado. Esta é a primeira lei da termodinâmica. Ou seja, a energia não desaparece, só muda de forma." "Um fóton é uma forma de energia e essa energia sempre existirá de alguma forma. Os fótons podem mudar, mas a energia permanece", explica o astrônomo. Mas como os fótons podem se transformar em outra coisa? "Você pode obter fótons que produzem matéria e partículas de antimatéria", responde ele. "Por isso, você consegue ver a luz literalmente se transformando em matéria. De fato, é por isso que nós existimos." "Mas os fótons também podem ser absorvidos", segundo Middleton. Quando um fóton se choca com um átomo, sua energia pode ser absorvida e fazer com que um elétron suba para um nível de energia mais alto, explica ele. Neste caso, o fóton deixa de existir como partícula independente e o elétron "salta" para um estado excitado, levando consigo a energia fornecida pelo fóton. E, se o fóton tiver energia suficiente, pode até arrancar completamente o elétron do átomo, em um processo conhecido como ionização. "Essa energia já não se encontra na forma de fóton, mas sim é armazenada temporariamente no elétron e no núcleo", explica o astrônomo. "Mas ela continua existindo e, mais adiante, pode voltar a ser emitida na forma de luz, talvez com energia ligeiramente diferente. Ela muda, se movimenta, mas nunca é totalmente destruída." "Existe outra forma de observar isso. Se fosse criado algo que lançasse um fóton para o Universo e ele nunca interagisse com nada, seria um fóton para sempre. Nunca se apagaria... e, se fizesse, enlouqueceria muitos físicos." "Ou seja, em princípio, a luz dura para sempre", conclui Middleton. A luz, portanto, não tem data de validade. Se viajasse pelo espaço vazio, continuaria brilhando para sempre. "E, mesmo se interagisse com outra coisa, ela não seria destruída. A luz apenas se transformaria em uma forma diferente de energia."

Palavras-chave: tecnologia

Esteira com IA detecta sinais precoces de Alzheimer e Parkinson

Publicado em: 15/04/2026 04:02

Cientistas franceses criam esteira conectada que detecta sinais de Alzheimer e outros transtornos Taíssa Stivanin/RFI Um dispositivo que detecta sinais precoces de transtornos cognitivos e de doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson foi desenvolvido pela equipe da neurocientista francesa Leslie Decker, da Universidade de Caen, no noroeste da França. Lançado em 2019 no laboratório de realidade virtual da Universidade de Caen, o projeto Présage (Presságio, em tradução livre) é um programa acadêmico ambicioso que combina realidade virtual, matemática e inteligência artificial. O aparelho criado pelos cientistas franceses, parecido com uma esteira ergométrica, foi instalado em uma sala de cerca de 15 metros de comprimento e nove metros de largura do CIREVE, o laboratório de realidade virtual da Universidade de Caen. Ele rastreia e registra riscos cognitivos e motores enquanto o paciente caminha e responde a perguntas que mobilizam atenção e memória.  “Essa esteira permite avaliar o sistema locomotor e detectar biomarcadores que fornecem informações sobre o estado de saúde do participante. Tecnicamente, a esteira se adapta ao ritmo do paciente. Ela é equipada com duas plataformas de força, que registram o que chamamos de força de reação do solo, gerando dados sobre o equilíbrio dinâmico”, explica a neurocientista francesa. Veja os vídeos que estão em alta no g1 "A esteira também pode se inclinar na direção escolhida pelo participante e nas direções medial e lateral, mais complexas, que mobilizam mais recursos cognitivos para manter o equilíbrio. A esteira, claro, está conectada ao ambiente virtual”, explica. Durante o teste, o paciente é submetido a estímulos cognitivos enquanto caminha — primeiro em velocidade constante e depois em ritmos diferentes com cada perna.  O dispositivo criado pela equipe da neurocientista Leslie Decker coleta dados que podem indicar distúrbios cognitivos em fase precoce Taíssa Stivanin/RFI Ao mesmo tempo em que busca o ponto de equilíbrio, deve executar simultaneamente uma outra tarefa: ler uma palavra em voz alta se ela estiver posicionada embaixo de um retângulo ou dizer qual é sua cor se for um losango.  Em seguida, os pesquisadores franceses utilizam parâmetros matemáticos para avaliar e caracterizar os movimentos do paciente em função do risco cognitivo e motor. Quando detectado, ele triplica a probabilidade de desenvolvimento de transtornos neurocognitivos graves. “A ideia é saber se, nesse estágio bastante precoce, conseguimos identificar pacientes com risco de desenvolver esses transtornos”, afirma Leslie Decker.  A caminha fornece dados sobre o estado de saúde do paciente e pode revelar doenças pré-existentes Taíssa Stivanin/RFI Dispositivo já foi testado em cem pacientes  Cerca de cem pacientes, com idades entre 55 e 87 anos, já testaram a ferramenta e 20 deles apresentavam a chamada síndrome do risco cognitivo motor (MCR), caracterizada por lentidão da marcha e queixas cognitivas subjetivas.  Para definir um perfil locomotor específico dessa síndrome, a equipe utilizou modelos de inteligência artificial e analisou dados de pacientes saudáveis, estabelecendo critérios de comparação, explica o pesquisador Baptiste Perthuy. “Isso permite identificar pacientes com risco de desenvolver doenças neurodegenerativas. A caminhada define um perfil locomotor, que é um reflexo do nosso estado estrutural. Isso é muito interessante porque traz muitas informações sobre uma patologia, uma pessoa e até mesmo sobre suas emoções”, diz.  Segundo o cientista Julien Rossato, outro integrante da equipe, quando esses transtornos afetam os movimentos e as funções mentais, é possível medir no teste a chamada reserva cognitiva - a capacidade do cérebro de se adaptar ao envelhecimento. Ela pode diminuir com o surgimento de uma doença ou simplesmente se esgotar com o passar dos anos.  “O que nos interessa particularmente é medir o desempenho nessas duas tarefas — caminhada e estímulos. Para isso, pontos semelhantes a eletrodos são conectados aos participantes e medem a posição no espaço, com ajuda de câmeras instaladas ao redor do sistema", explica. "Assim, temos acesso a variáveis como ângulos das articulações e o tempo que a pessoa leva para levantar a perna. Também avaliamos o desempenho cognitivo, registrando a voz do paciente e seu tempo de reação”, explica Rossato.  A equipe utiliza modelos matemáticos e algoritmos avançados para analisar os dados e desenvolver estratégias de prevenção personalizadas. “A etapa final do projeto, depois de definido o perfil, é associar essas variáveis de desempenho a testes neurocognitivos ou questionários sociais”, afirma Julien Rossato.  O sistema desenvolvido pela empresa a-gO será em breve testado em hospitais e poderá ser usado em consultórios médicos na França Taíssa Stivanin/RFI O dispositivo utilizado no laboratório da universidade está agora em fase de adaptação para uso em consultórios médicos. O sistema desenvolvido pela startup a-gO usa três iPhones para captar os movimentos do paciente enquanto ele caminha por cinco minutos em uma esteira.  A partir desses vídeos, a inteligência artificial cria um modelo 3D detalhado da marcha e o analisa para identificar sinais da síndrome do risco cognitivo motor — condição que precede doenças neurodegenerativas e associa lentidão da marcha a queixas cognitivas, explica Alexandre Dalibot, um dos fundadores da empresa.  O objetivo é traçar um perfil de pacientes com a síndrome ou com sinais que exijam atenção, possibilitando a adoção de medidas preventivas ou tratamentos mais personalizados. “A meta da a-GO era desenvolver uma ferramenta capaz de detectar precocemente pessoas com risco de desenvolver doenças neurodegenerativas. Nesse estágio, ainda temos todos os neurônios e a reserva cognitiva", diz. "Muitas medidas podem ser tomadas, e a ferramenta pode ser usada no dia a dia para monitorar a evolução desse risco. A ideia é adotar estratégias terapêuticas que permitam ao paciente agir e evitar transtornos associados ao envelhecimento. Vale lembrar que quase 75% das doenças neurodegenerativas podem ser evitadas”, afirma Dalibot.  A ferramenta deve ser testada em breve em centenas de pacientes de hospitais franceses e pode chegar a consultórios médicos do país em até dois anos.  LEIA TAMBÉM: Guitarrista do No Doubt revela Parkinson precoce e mantém música como aliada no tratamento As doenças antes incuráveis que estão ganhando tratamentos graças à IA Japão aprova primeiro tratamento com células-tronco para Parkinson; terapia pode chegar aos pacientes ainda este ano Microplásticos podem desencadear Alzheimer, Parkinson e outras lesões no cérebro, diz estudo; saiba quais

Palavras-chave: inteligência artificial

Hora extra e almoço mais curto: medo da inteligência artificial leva profissionais a trabalhar mais

Publicado em: 15/04/2026 04:01

Trabalhar mais não deve salvar seu emprego da inteligência artificial Freepik O avanço da inteligência artificial no mercado de trabalho e o aumento das demissões, especialmente no setor de tecnologia, têm levado trabalhadores a se esforçar para demonstrar sua própria relevância. Eles trabalham mais, fazem menos pausas e buscam estar sempre visíveis. Uma pesquisa da plataforma Resume.io, com mais de 3 mil profissionais, indica que, para demonstrar valor, empregados têm trabalhado em média 2 horas e 24 minutos extras por semana — o equivalente a quase 125 horas a mais por ano. Essa escolha se traduz em mais horas extras, almoços mais curtos e no chamado “teatro da produtividade” — quando trabalhadores se esforçam para parecer ocupados. (Entenda mais abaixo) Segundo especialistas, essa reação ao avanço da tecnologia nem sempre é a mais eficaz e pode até causar efeito rebote. Thiago Genaro, psiquiatra da Conexa, afirma que aumentar o volume de trabalho não significa, necessariamente, maior proteção profissional. "Trabalhar horas a mais não garantirá postos de trabalho”, diz. Para ele, a insegurança diante da inteligência artificial tem levado parte dos trabalhadores a uma estratégia que pode não dialogar com as mudanças estruturais pelas quais o mercado passa. Para ele, essas mudanças estruturais indicam que o mercado está trocando o "quanto se trabalha" pelo "como e para quê se trabalha". Na avaliação do especialista em tecnologia da RS Systems, Emilio Salcedo, esse cenário de insegurança é agravado justamente pela forma como a tecnologia é incorporada no ambiente corporativo. Ele afirma que, embora a IA possa reduzir tarefas repetitivas, também pode ampliar a pressão por produtividade quando não há revisão das metas e expectativas de desempenho. Como a IA está impactando o trabalho de freelancers A pesquisa da Resume.io sugere que essas mudanças de comportamento do trabalhador ocorrem por meio de ajustes contínuos no dia a dia. Trabalhadores relatam responder a mensagens fora do expediente, reduzir pausas e assumir tarefas adicionais sem mudanças formais no contrato. Um sinal claro dessa intensificação do trabalho aparece no tempo dedicado às pausas. Para 55% dos entrevistados, o intervalo de almoço diminuiu no último ano. A maioria associa a redução à necessidade de se manter produtiva e visível. Em um ambiente em que a eficiência tecnológica redefine expectativas, o descanso passa a ser percebido como um risco. Outro comportamento identificado pela pesquisa é o chamado “teatro da produtividade”, quando empregados sentem a necessidade de “parecer ocupados” para demonstrar valor. Segundo os dados, 67% dos trabalhadores afirmaram sentir essa necessidade e adotar atitudes para se mostrar ocupados, como manter o status online constantemente ativo, responder a mensagens imediatamente e prolongar tarefas simples. Para Genaro, essa lógica tende a perder espaço à medida que os critérios de avaliação evoluem. “Com o avanço da inteligência artificial, as métricas de avaliação de desempenho tendem a ser cada vez mais sofisticadas e detalhadas (...) essas métricas irão identificar trabalhadores e setores com baixo engajamento e baixa produtividade”. A pesquisa também aponta que mais da metade dos entrevistados percebe mudanças na forma como o desempenho é avaliado desde a adoção de ferramentas de inteligência artificial. Para 16%, a principal alteração está no ritmo: se a tecnologia realiza tarefas mais rapidamente, o trabalhador passa a ser cobrado a acelerar. Sobre esse ponto, Genaro afirma que a eficiência técnica tende a se tornar um critério básico de avaliação. Com a inteligência artificial assumindo tarefas repetitivas, sobra menos espaço para atividades mecânicas e mais demanda por análise, tomada de decisão e criatividade. Salcedo reforça essa mudança ao afirmar que a IA não substitui categorias inteiras de forma imediata, mas elimina tarefas específicas, o que exige readequação constante das funções. Nesse contexto, ganham relevância profissionais que conseguem usar a tecnologia como apoio para análise, automação e tomada de decisão. Isso muda também a forma de avaliação: em vez de horas extras ou presença constante, ganham peso as entregas, o impacto e a capacidade de usar a tecnologia a favor do trabalho. “A inteligência artificial já vence o ser humano no xadrez”, exemplifica. “Mas a IA não se emociona com um xeque-mate.” Segundo ele, ainda há um conjunto de competências que permanece restrito à experiência humana. “O lado humano da experiência, da emoção e da criatividade ainda não entra no conjunto de competências da IA. E é nesse rol de competências que o trabalhador deve investir e se destacar no mundo corporativo.” Apesar disso, o medo da substituição direta segue como a principal preocupação dos entrevistados. Para 34%, essa é a maior ameaça percebida. Outros 30% temem uma substituição gradual, enquanto 20% receiam que a IA seja usada para justificar cobranças mais intensas. Já 14% afirmam temer ficar para trás em relação a colegas que dominam melhor as novas ferramentas tecnológicas. Para o psiquiatra da Conexa, a resposta a esse cenário passa pela adaptação estratégica. “O desenvolvimento de novas habilidades, em sintonia com as ferramentas da IA, me parece o melhor caminho para o trabalhador no século XXI”, afirma. Segundo Salcedo, compreender o básico da tecnologia, mapear tarefas automatizáveis e desenvolver pensamento crítico já são diferenciais importantes nesse novo contexto. Ele também chama atenção para os efeitos emocionais dessa transição. Segundo o especialista, a pressão por produtividade pode aumentar a sensação de insegurança e sobrecarga, especialmente quando a adoção da tecnologia não vem acompanhada de ajustes claros nas expectativas de desempenho. “O maior risco não é a tecnologia em si, mas a forma como ela é implementada sem suporte adequado”, resume.

João Gomes, Melody, Luísa Sonza... por que o público não está entendendo o que eles cantam?

Publicado em: 15/04/2026 04:00

João Gomes, Melody, Luísa Sonza: por que o público não está entendendo o que eles cantam? Nas redes sociais, o público tem falado bastante a respeito da cantoria de alguns artistas brasileiros. As queixas variam entre deboche e frustração: "João Gomes tem uma dicção pior do que a minha" ou "é impossível entender uma única palavra que a Luísa Sonza está cantando nessa música nova". A caixinha de reclamações ainda tem espaço para mais. De hits como "Pipoco" e "Assalto Perigoso" de Melody até o sertanejo de Zezé Di Camargo & Luciano, há uma reclamação frequente entre o público: parece que nem todo mundo está entendendo o que está sendo cantado. O g1 ouviu especialistas para tentar desvendar se o que o público contesta é, na verdade, uma escolha estética, uma influência internacional, uma questão de dicção ou tudo ao mesmo tempo. Confira abaixo. Quatro explicações possíveis... no mínimo De acordo com o professor de canto Adailton Silva, a forma como um artista canta é resultado de uma construção moldada por diversos fatores. Ele elenca as quatr ofundamentais: Físico: Envolve desde a anatomia do diafragma até a respiração natural que podem tornar a voz mais anasalada. Técnico: É o uso consciente de "ornamentos" como melismas (várias notas em uma sílaba), apogiaturas e drives, que alteram a estética sonora original. Tecnológico: O uso de efeitos de estúdio, como reverb, eco e corretores de afinação (melodrame), que mexem na textura final da voz gravada. Também a qualidade do som em apresentações ao vivo. Cultural e de estilo: Sotaques e gírias do Norte e do Sul do país influenciam não apenas a pronúncia das palavras, mas também o tom e a cadência da fala. O mesmo vale para outros idiomas. Também influenciam os estilos que os artistas cresceram ouvindo, claro, e acabam incorporando em sua assinatura. João Gomes, Melody e Luísa Sonza Divulgação João Gomes, Luiz Gonzaga e o canto de aboio E é justamente esse pilar cultural, que Adailton chama de "primeira digital da voz", que pode ajudar a decifrar a estética por trás do canto "embolado" de João Gomes. Initial plugin text "Se você reparar nos cantores da mesma região, como o próprio Luiz Gonzaga, eles cantavam de um jeito semelhante. Isso acontece porque a região sofreu muita influência do aboio, o canto usado para tocar o gado", afirma. João Gomes Reprodução/Redes Sociais Para Rafael Dantas, treinador vocal, o cantor do piseiro é um exemplo de como a personalidade reflete diretamente na voz. "Eu vejo o João Gomes como uma pessoa muito tímida e autêntica. Ele canta como se estivesse conversando em casa, numa região confortável para a voz dele", analisa. Melody e seus falsetes... No caso da cantora pop Melody, famosa pelos seus passeios de jetskis e falsetes, o nó na compreensão do público pode residir no uso dos "lugares de ressonância". Os professores explicam que os antigos termos “voz de peito” (notas graves) e “voz de cabeça” (notas agudas) referem-se, na verdade, a ajustes musculares e sensações de vibração no corpo. Initial plugin text Essa técnica é levada ao extremo da nasalidade pela cantora Melody. Embora Rafael elogie o timbre da artista, ele aponta que a escolha por essa sonoridade "fanha" é uma faca de dois gumes: "É um lugar gostoso de cantar e garante uma vida vocal mais longa, pois não exige grandes esforços das pregas vocais. Mas se o som vaza pelo nariz, como é o caso dela, ninguém entende direito o que está sendo dito", explica. ... e autotunes Adailton cita ainda o peso da tecnologia nessa "estética vocal final". O uso de efeitos em estúdios como reverb, eco e corretores de afinação (como o Melodyne) podem criar uma camada na textura da voz a ponto de parecer "robótica". Initial plugin text Essa combinação de ressonância nasal com processamento tecnológico ajuda a criar a sonoridade característica dos hits de Melody, é verdade. Mas também parece levantar uma barreira entre o que é cantado e o que é compreendido. Luísa Sonza e a influência do 'canto americano' O caso de Luísa Sonza é o exemplo de quando o estudo técnico esbarra no idioma. Segundo Rafael, ela domina a técnica, mas na hora de passar isso para o português, a clareza das palavras acaba saindo prejudicada. Initial plugin text A cantora é influenciada musicalmente por uma escola americana de canto: uma técnica focada em grandes palcos, microfones de alta sensibilidade e coreografias complexas. O problema é quando ela leva essa técnica ao canto em português. “Quando a gente diz que a voz ‘bate no nariz’, na verdade estamos falando de uma ressonância na frente do rosto. Mas, como no Brasil nossa referência de frente é o nariz, muitos artistas acabam apoiando o som lá, e isso vira uma coisa bem fanha", diz. Segundo ele, o nosso idioma é uma língua "pesada" e muito silábica, o que gera um conflito estético quando se tenta aplicar a leveza do agudo americano às nossas palavras. Luísa Sonza Divulgação Após o lançamento do novo álbum de estúdio “Brutal Paraíso”, em 7 de abril, Luísa Sonza recebeu diversos comentários por parte do público de que não estaria conseguindo entender as letras. Além da técnica de canto, outro fator que se aplica nesse caso é a mixagem, isto é, o processo de equilibrar e processar múltiplas faixas de áudio (instrumentos, voz e efeitos). A crítica não foi por apenas em uma ou duas faixas. Em boa parte do álbum, a voz de Luísa está "mergulhada" nos instrumentos. Isso pode ser uma escolha estética, mas torna a compreensão ainda mais complicada. Por que um artista pode soar melhor em inglês? Essa "desconexão" por parte do público explica por que muitos fãs comentam que Luísa Sonza e outras artistas "cantam melhor" quando interpretam músicas internacionais. "Os fonemas do inglês são mais fáceis de pronunciar em determinadas notas agudas do que os nossos. O português, por ser muito rígido nas sílabas, não fica tão 'bonito' nessa estética americana", analisa Adailton. Sertanejo, o nosso 'rock americano' A mesma tendência aparece no sertanejo. A busca por notas altíssimas transformou o estilo em uma espécie de equivalente nacional às baladas norte-americanas, exigindo um preparo vocal específico. "O sertanejo vai muito para esse lugar do rock americano. A gente não tem rock cantado em português com essa altura e esses agudos. Para nós, o nome disso é música sertaneja", explica Rafael Dantas. Chitãozinho e Zezé Di Carmargo Divulgação Ele cita Xororó como o grande exemplo de domínio técnico: "Ele busca uma leveza para as notas agudas que é absurda. Parece a mesma voz de 40 anos atrás porque ele buscou a forma do canto, e não apenas o som". O risco, segundo o especialista, é quando o artista tenta imitar o som agudo sem a técnica correta, como aconteceu com Zezé Di Camargo. Mulheres do sertanejo e o 'grave de respeito' No caso das mulheres, o debate ganha ainda uma camada cultural. O professor explica que vozes graves são associadas à credibilidade e imposição. Por isso, artistas como Paula Fernandes, Simone Mendes e Marília Mendonça trouxeram o grave para o centro de suas músicas, mesmo precisando alcançar notas altas. Marília Mendonça: Para o especialista, Marília demonstrava uma técnica superior, transitando com fluidez entre graves e agudos. Simone Mendes: Busca o conforto na região que já domina, enfrentando os agudos até onde o limite vocal permite. Paula Fernandes: É apontada como alguém que canta em uma região confortável, mas com uma articulação "entre os dentes", o que pode dificultar a clareza para alguns ouvintes. Marília Mendonça. Simone Mendes e Paula Fernandes. Divulgação O que pode ser feito para melhorar a compreensão? Para os professores, o caminho é trabalhar mais a articulação. Um deles, Rafael, explica que muitos cantores brasileiros têm um certo medo de “abrir demais a boca” ou de fazer caretas, porque querem estar sempre bonitos para a câmera. Mas é justamente esse contorno facial e essa abertura que trazem clareza para as consoantes. “Compare com uma Beyoncé: ela faz caretas, abre a boca, mexe muito a boca, e a gente entende tudo o que ela canta, mesmo dançando" , comenta. No Brasil, os artistas também precisam, cada um à sua maneira, encontrar esse equilíbrio: seguir com seu estilo próprio e manter a voz confortável, mas não deixar o público perder a mensagem que está sendo dita.

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