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Vc viu? Onda de violência na Grande Ilha deixa mortos, prefeito é afastado em ação de desvio de verbas e outras notícias da semana no g1 MA

Publicado em: 26/10/2025 08:49

Resumo da semana do g1 Maranhão Reprodução/Redes Sociais Confira o resumo completo das principais notícias divulgadas pelo g1 Maranhão na semana de 19 a 25 de outubro. 📲 Clique aqui para seguir o novo canal do g1 Maranhão no WhatsApp Domingo (19) Rua Oswaldo Cruz, mais conhecida como Rua Grande, é o principal centro comercial de São Luís. Divulgação/Fecomércio-MA O comércio concentra 48% das empresas formalmente registradas no Maranhão, segundo a Junta Comercial do Estado (Jucema). São 224 mil negócios ativos no setor, de um total de 466 mil em todo o estado. A Jucema destaca o papel do comércio como um dos principais motores da economia maranhense. Somente em 2025, foram abertas 19 mil novas empresas comerciais. São Luís lidera com 4,4 mil registros, seguida por Imperatriz, São José de Ribamar, Timon e Balsas. Estudante do MA vence feira científica com pesquisa sobre uso medicinal da Janaúba e representará Brasil nos EUA Divulgação/Governo do Maranhão A estudante Ana Clara Barros Almeida, de 17 anos, do Centro de Ensino Raimundo Soares da Cunha, em Imperatriz, conquistou o 1º lugar na Feira de Ciências, Engenharia e Tecnologia (FECET), realizada em Cascavel (PR), com um projeto sobre o uso medicinal da planta janaúba. A pesquisa busca desenvolver um suplemento natural para ajudar mulheres com histórico de abortos espontâneos. Com o trabalho “O potencial farmacológico do látex da janaúba (Himatanthus drasticus): uma abordagem fitoquímica e reprodutiva na prevenção de abortos espontâneos”, Ana Clara também foi selecionada para representar o Brasil em três outras feiras científicas: Genius Olympiad, em Nova York (EUA); Mostratec, em Novo Hamburgo (RS); e Feira Nordestina de Ciência e Tecnologia (FENECIT), em Recife (PE). Segunda-feira (20) Golpe de R$ 199 em cartões de crédito atinge moradores de São Luís e Imperatriz Reprodução/TV Mirante Moradores de São Luís e Imperatriz relataram, nos últimos dias, cobranças indevidas de R$ 199 em cartões de crédito de vários bancos. A origem do possível vazamento de dados ainda não foi confirmada. De acordo com o delegado Jalves Carvalho, da Polícia Civil do Maranhão (PC-MA), as tentativas de compra aparecem em nome de “Raildo Paulo da Silva”, “Vaunice” e “pg*ton Jessica Kuhn”. A Polícia Civil investiga a origem do possível vazamento de dados. Em entrevista à TV Mirante, o especialista em segurança digital, Paulo Barbosa, explicou que o padrão das transações indica ataques sincronizados e automatizados. Violência São Luís Reprodução/Redes Sociais A Grande Ilha registrou os primeiros casos da onda de violência. Da noite de domingo (19) para segunda-feira (20), três homicídios e quatro tentativas de homicídio foram registrados pela polícia em bairros de São Luís e municípios da Região Metropolitana. A Polícia Civil do Maranhão investiga os casos. Ainda não há informações sobre motivação e autoria dos crimes. Terça-feira (21) Ossada humana é encontrada em cova rasa na zona rural de Barão de Grajaú Reprodução/TV Mirante Uma ossada humana foi encontrada em uma estrada que liga Barão de Grajaú ao povoado Ausente, no Sul do Maranhão. O corpo estava enterrado em uma cova rasa, a cerca de 20 metros da pista. De acordo com a Polícia Civil, moradores da região acionaram as autoridades após encontrarem os restos mortais. Perto da ossada, os peritos localizaram roupas e objetos pessoais, como um chinelo, um short preto e uma camiseta vermelha, que podem auxiliar na identificação da vítima. Alunos são transportados em carroceria de picape na zona rural de Caxias Um vídeo que circula nas redes sociais mostra alunos de uma escola pública municipal sendo transportados na carroceria de uma picape, em uma estrada do povoado Caxirimbu, na zona rural de Caxias, a 372 km de São Luís. A cena gerou preocupação quanto à segurança no deslocamento dos estudantes, que estavam sendo transportados sem nenhum tipo de proteção (veja o vídeo acima). Em nota, a Prefeitura de Caxias afirmou que o veículo que aparece nas imagens não faz parte da frota oficial do transporte escolar do município. Ainda segundo a prefeitura, a picape é um veículo particular pertencente à família das alunas. A direção da escola já entrou em contato com os responsáveis pelas estudantes para alertá-los sobre os perigos desse tipo de transporte. Quarta-feira (22) Prefeito de São Benedito do Rio Preto e secretários são afastados em operação da PF contra desvios do Fundeb no MA Reprodução/Prefeitura de S. Benedito do Rio Preto O prefeito de São Benedito do Rio Preto, Wallas Gonçalves Rocha (Republicanos), o secretário de Educação do município, Jairo Frazão, a secretária-adjunta de Educação, Celina Albuquerque, e a tesoureira da secretaria, Andreya Almeida Aguiar Monteiro da Silva, responsável pelo ordenamento de despesas do município, foram afastados do cargo pela Justiça após investigação da Polícia Federal contra um grupo suspeito de fraudar recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (Fundeb) no Maranhão. Mais de mil pessoas teriam sido beneficiadas com o esquema que desviou mais de R$ 13 milhões de reais dos cofres públicos com o objetivo beneficiar sua campanha eleitoral em 2024, segundo a Polícia Federal. De acordo com as investigações, o prefeito realizou, desde o início de 2023, diversas transferências de valores de contas do Fundeb para blogueiros, candidatos a vereador do seu grupo político, familiares, apoiadores e empresas para promover sua campanha eleitoral. Violência São Luís Reprodução/Redes Sociais Novos casos de violência foram registrados na Grande Ilha. Um jovem de 19 anos, identificado como Eduardo Lemos Martins, morreu e outras cinco pessoas ficaram feridas após serem baleadas no bairro Cidade Operária, em São Luís. Testemunhas relataram à Polícia Militar, que Eduardo Lemos e mais cinco pessoas, entre elas um adolescente de 13 anos, estavam na porta de um estabelecimento, quando criminosos armados chegaram em um carro e dispararam contra eles. Em seguida, os autores do crime fugiram em direção ao bairro Cidade Olímpica, também na capital. Jovem morre após ser arrastado por burro bravo no interior do MA Um jovem morreu após ser arrastado por um burro bravo na zona rural de Presidente Sarney, município localizado na baixada maranhense. A vítima, que não teve o nome divulgado, trabalhava como cuidador de gado quando o acidente aconteceu. Testemunhas relataram que o burro se assustou e saiu em disparada e, nesse momento, uma corda se enroscou no pescoço do jovem, que foi arrastado por vários metros. Quinta-feira (23) A onda de violência registrou novos casos em uma noite marcada por casos registrados entre a quarta-feira (22) e a madrugada desta quinta (23) na Grande Ilha de São Luís. As quatro ocorrências registradas envolveram disparos de arma de fogo e tentativas de homicídio, segundo registros do 43º Batalhão da Polícia Militar (BPM). Além das tentativas de homicídio, um assassinato foi registrado no bairro Monte Castelo, em São Luís. Segundo a Secretaria de Estado de Segurança Pública (SSP-MA), a onda de violência é causada pela disputa de facções criminosas por território. Devido aos crimes, a Universidade Estadual do Maranhão (Uema) decidiu suspender nesta quinta-feira (23) as aulas noturnas e as atividades acadêmicas da instituição na sexta-feira (24), no Campus Paulo VI, no bairro Cidade Operária, em São Luís, uma das áreas mais afetadas pelos crimes. Outras instituições como a Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e o Instituto Federal do Maranhão (IFMA) também decidiram suspender as aulas e adotar um horário especial de atendimento administrativo. Fernanda Maroca, de 30 anos, foi encontrada morta em Lago Verde (MA) Reprodução/Redes Sociais A Polícia Civil investiga a morte da vereadora Fernanda Oliveira da Silva, conhecida como Fernanda Maroca (PP), de 30 anos, encontrada morta na residência onde vivia em Lago Verde, a 287 km de São Luís. Fernanda Maroca foi encontrada morta por familiares que acionaram a Polícia Militar do Maranhão (PM-MA). Além de mostrar sua atuação política, Fernanda Maroca compartilhava sua rotina como digital influencer e fazia divulgação de produtos em suas redes sociais. Famílias de pacientes denunciam superlotação no Hospital Nina Rodrigues O Ministério Público do Maranhão (MP-MA) investiga denúncias de superlotação e condições desumanas que pacientes estão sendo submetidos no Hospital Nina Rodrigues, no Monte Castelo em São Luís. A unidade é referência no tratamento de pacientes psiquiátricos no Maranhão. Vídeos gravados pelos acompanhantes de pacientes mostram pessoas aglomeradas em leitos, nos corredores e até no chão da área externa da unidade hospitalar (veja o vídeo acima). As imagens mostram pacientes sendo imobilizados de forma improvisada, sendo amarrados em cadeiras de rodas e tendo os braços e as pernas presas. A situação foi mostrada pela TV Mirante. Sexta-feira (24) Onda de ataques assusta moradores e paralisa aulas na Grande São Luís Moradores da Grande São Luís, especialmente no bairro da Cidade Operária, têm vivido dias de tensão e insegurança. Desde o início da semana, uma onda de violência envolvendo disputa de facções criminosas por território resultou em assassinatos, tentativas de homicídio e ataques a tiros em diversos bairros da capital maranhense e municípios vizinhos. Ataques violentos já deixaram sete mortos e mais de dez feridos na Grande São Luís, além de provocarem a suspensão das aulas em escolas e universidades. O g1 montou uma cronologia dos crimes registrados até a quinta-feira (23). As vítimas tinham entre 17 e 43 anos, todas do sexo masculino, e foram assassinadas a tiros. A Polícia Civil do Maranhão está investigando se há relação entre todos os ataques. Moradores fazem protesto no Jardim América, em São Luís Na manhã de sexta-feira (24), moradores do bairro Jardim América, em São Luís, protestam na Avenida Principal. O ato foi motivado pelo aumento da violência e pelo assassinato do jovem Eduardo Lemos Martins. Pneus foram queimados durante a manifestação. A Avenida Principal, normalmente movimentada, amanheceu com lojas e escolas fechadas. O medo aumentou após a escalada da violência em vários bairros da capital. Parentes e amigos de Eduardo Lemos Martins organizaram o protesto para pedir justiça e mais segurança na região. O secretário de Estado da Segurança Pública do Maranhão, Maurício Martins, deu entrevista à TV Mirante sobre a onda de violência na Grande São Luís. Reprodução/TV Mirante Na sexta-feira (24), o secretário de Estado da Segurança Pública do Maranhão, Maurício Martins, afirmou que o sistema de segurança não vai se intimidar com nenhum tipo de desordem e que a Polícia Militar está nas ruas, a Polícia Civil investiga os casos e o Serviço de Inteligência está fazendo levantamentos. No fim do dia, moradores do bairro Cidade Operária, em São Luís, se reuniram com o secretário da Secretaria de Segurança Pública do Maranhão (SSP), para cobrar respostas sobre os recentes casos de violência na região. Durante o encontro, foi prometido reforço no policiamento. A reunião, realizada na sede da SSP, durou cerca de uma hora e contou com a presença de representantes do Centro Tático Aéreo, Polícia Civil e Polícia Militar. O CNH Social cobre todas as etapas do processo de habilitação. Mateus Xavier/g1 Bahia O governo do Maranhão prorrogou até o dia 1º de novembro de 2025 o prazo de inscrições para o Programa CNH Social. A iniciativa, coordenada pelo Departamento Estadual de Trânsito do Maranhão (Detran-MA), oferece a primeira Carteira Nacional de Habilitação (CNH) de forma gratuita para pessoas de baixa renda. A decisão foi tomada após o alto número de inscritos e pedidos da população. Mais de 300 mil pessoas já se cadastraram na plataforma do programa. Com a prorrogação, o governo espera ampliar o acesso à habilitação e garantir mais oportunidades de inclusão social e profissional. Ao todo, são oferecidas 10 mil vagas: 6 mil para a categoria A (moto) e 4 mil para a categoria B (carro). As inscrições podem ser feitas online ou presencialmente nas unidades do Detran-MA. Sábado (25) Bairros atacados na Grande São Luís Arte/g1 Desde o início da semana, mais de 40 pessoas foram presas suspeitas de envolvimento nos ataques violentos registrados em cidades da Grande Ilha de São Luís. Sete pessoas morreram e mais de dez ficaram feridas nos ataques registrados desde o domingo (19). Na manhã deste sábado (25), a Força Estadual cumpriu mandados de prisão preventiva contra suspeitos de alta periculosidade investigados por integrar organizações criminosas envolvidas em tráfico de drogas e crimes violentos. Até o momento, dois suspeitos foram presos. Onda de violência na Grande São Luís: veja o que se sabe até agora sobre os ataques Um dos detidos, Gilberto Rodrigues Barros, conhecido como “Juba”, foi preso no bairro Alonso Costa, em São José de Ribamar, em cumprimento a mandado de prisão preventiva por participação em organização criminosa. Os casos de violência foram registrados em todos os quatro municípios que compõem a chamada Grande Ilha. São eles São José de Ribamar, Paço do Lumiar, Raposa e a capital maranhense, São Luís. Ponte de madeira desaba e caminhão cai dentro de rio no Maranhão Uma ponte de madeira desabou e provocou a queda de caminhão de carga no rio Alpergatas entre os municípios de Fernando Falcão e Mirador, a 554 km de São Luís (veja acima o momento em que a ponte desaba). O acidente aconteceu enquanto o veículo passava pela estrutura. O caso foi registrado por um morador da região. Nas imagens, é possível ver o caminhão trafegando pela extensão da ponte quando quase no final da travessia, a estrutura colapsa e o veículo cai no rio. O motorista do caminhão sofreu ferimentos leves, foi resgatado com vida e encaminhado a um hospital da região, onde recebeu atendimento médico. O nome dele não foi divulgado. Polícia Federal prende dupla sacando R$ 700 mil Divulgação/Polícia Federal A Polícia Federal prendeu duas pessoas, em flagrante, por suspeita de lavagem de dinheiro em Zé Doca, a 302 km de São Luís. A dupla foi presa sacando R$ 700 mil em espécie em uma agência bancária no município. As investigações apontam que a dupla mantém contratos milionários com prefeituras do Maranhão. Em alguns casos, há envolvimento de verbas federais destinadas à educação, apesar de não terem estrutura operacional compatível com o volume de recursos movimentados.

O guia de espionagem dos EUA que ensina a sabotar o seu trabalho

Publicado em: 26/10/2025 07:01

Veja os vídeos que estão em alta no g1 "Para reduzir moral e, com isso, a produção: seja simpático com trabalhadores ineficientes, dê-lhes promoções imerecidas; discrimine contra os eficientes e queixe-se injustamente do trabalho deles", "marque reuniões quando houver trabalho mais importante a fazer", "multiplique a papelada de forma plausível", "aumente procedimentos: faça com que três pessoas tenham de aprovar o que uma só poderia aprovar". Essas regras que parecem saídas de um livro satírico sobre o que não fazer em sua empresa — uma espécie de anticoach de gestão — não são peça de ficção. Elas constam de material distribuído pelo serviço de inteligência do governo dos Estados Unidos, em janeiro de 1944. Intitulado Simple Sabotage Field Manual (Manual de Sabotagem Simples de Campo, em tradução livre), o documento de 32 de páginas foi formulado pelo Escritório de Serviços Estratégicos dos Estados Unidos, órgão de inteligência que funcionou entre 1942 e 1945 e é considerado o antecessor da CIA, a Agência Central de Inteligência, criada em 1947 pelo governo americano. O manual foi distribuído pelos agentes do organismo aos países internacionais, naquele contexto de Segunda Guerra Mundial. A ideia era preparar cidadãos-sabotadores em países ocupados pelos nazistas na Europa. Em outras palavras, contar com o trabalho de simpatizantes dos países Aliados que, infiltrados em empresas de nações alinhadas ao Eixo, atuassem de forma contraproducente, empacando os esforços nazifascistas durante o período bélico. A introdução do documento foi assinada pelo oficial William Donovan (1883-1959), que comandava o departamento de inteligência dos Estados Unidos. Guerra híbrida William Donovan liderava departamento de inteligência dos Estados Unidos. National Archives via BBC Aos olhares contemporâneos, este documento está dentro das estratégias daquilo que se convencionou chamar de guerra híbrida. "São várias as maneiras de conduzir uma guerra. A tradicional é simplesmente focar nos alvos militares, nas atividades militares. Mas há maneiras mais abrangentes, que estão no conceito hoje chamado de guerra híbrida", contextualiza à BBC News Brasil o cientista político Leonardo Bandarra, pesquisador no Instituto de Estudos de Desenvolvimento e Paz da Universidade de Duisburg-Essen, na Alemanha "Isso significa misturar métodos militares e não militares. Com informação, atividades psicológicas. Isso não é novo. Existe desde a antiguidade", diz Bandarra. Ele explica que, nesse sentido, o esforço de guerra incorpora táticas terroristas e táticas de guerrilhas com armas convencionais. "Há ataques cibernéticos, campanhas de desinformação e maneiras de deixar menos clara a linha do que é guerra e do que é paz, o que é convencional e o que é anticonvencional", comenta o cientista político. "A questão é manter a ambiguidade." O historiador Victor Missiato, pesquisador no Instituto Mackenzie, avalia que, como a Segunda Guerra havia ganhado âmbitos mundiais, foram necessárias diferentes táticas e estratégias para enfrentar diferentes tipos de batalhas. "Nesse contexto, a espionagem, a sabotagem e os serviços secretos se aperfeiçoaram muito.", diz Missiato Para o especialista em segurança Hugo Tisaka, fundador da empresa NSA Global, a estratégia dos EUA era "uma ação de guerra psicológica, algo muito usado em teatros de guerra". "Ações de sabotagem para enfraquecer o inimigo sãoé uma estratégia que ocorre historicamente. É comum, mas não deve ser o normal", diz Tisaka, consultor de segurança para empresas internacionais. Tanto Tisaka quanto Bandarra atentam para semelhanças entre esse manual e o Manual do Guerrilheiro Urbano publicado em 1969 pelo guerrilheiro Carlos Marighella (1911-1969) para orientar os militantes de esquerda no Brasil. O cientista político Paulo Niccoli Ramirez, professor na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp), classifica esse documento como um conjunto de "estratégias antiadministrativas" como instrumento de sabotagem. "Recomendava-se aos infiltrados um excesso de zelo nas ações em suas organizações", explica ele. "Como se eles agissem com hiperrresponsabilidade sobre os processos. E isso acabava por interromper a produtividade dos avanços das instituições burocráticas e produtivas." Em outras palavras, ele comenta que se criava uma contradição. "O excesso de zelo, a profunda minúcia em nome de um suposto aperfeiçoamento eram, na verdade, o contrário: estavam a serviço de prejudicar o avanço dos rivais", diz. O Brasil foi aliado dos EUA e Reino Unido durante a Segunda Guerra e enviou combatentes à Itália Arquivo Nacional via BBC O sabotador: cidadão comum O documento americano foi dividido em cinco partes: Introdução; Possíveis Efeitos; Motivando o Sabotador; Ferramentas, Alvos e Tempo; e Sugestões Específicas para Sabotagem Simples. De forma geral, as instruções se assemelham a táticas de guerrilha. O texto deixa claro que há diferentes tipos de sabotagem, e o manual trata especificamente dos "inúmeros atos simples que o cidadão-sabotador comum pode praticar". Para especialistas, nada do que também não fosse feito pelo outro lado da guerra, no caso os esforços nazifascistas. "Este documento, publicado em 1944, diz muito sobre como os Aliados foram correndo atrás de tudo o que os alemães fizeram primeiro, principalmente nos dois, três primeiros anos de guerra", compara Missiato. "Quando se trata de destruição, as armas do cidadão-sabotador são sal, pregos, velas, pedrinhas, linha ou quaisquer outros materiais que ele normalmente teria como chefe de família ou sabotador em sua função específica. Seu arsenal é a prateleira da cozinha, a pilha de lixo e seu kit habitual de ferramentas e suprimentos", enfatiza o documento. "Os alvos de sua sabotagem geralmente são objetos aos quais ele tem acesso normal e discreto na vida cotidiana." "Um segundo tipo de sabotagem simples", prossegue, "não requer nenhuma ferramenta destrutiva e produz danos físicos, se houver, por meios altamente indiretos. Baseia-se em oportunidades universais para tomar decisões erradas, adotar uma atitude não cooperativa e induzir outros a seguirem o exemplo". "Tomar uma decisão errada pode ser simplesmente uma questão de colocar ferramentas em um lugar em vez de outro. Uma atitude não cooperativa pode envolver nada mais do que criar uma situação desagradável entre os colegas de trabalho, envolver-se em discussões ou demonstrar mau-humor e estupidez." O manual explica que não é simples motivar um sabotador em potencial. Para tanto, uma das sugestões é convencê-lo de que ele está "agindo em legítima defesa contra o inimigo ou retaliando o inimigo por outros atos de destruição". Segundo o texto, um sabotador pode se sentir desanimado se perceber que seus esforços implicam em resultados muito pequenos, por isso é importante demonstrar que cada um faz parte de um projeto maior e abrangente, de um grupo "embora invisível" de sabotadores "operando contra o inimigo". "Não tenha medo de cometer atos pelos quais possa ser diretamente responsabilizado, desde que o faça raramente e tenha uma desculpa", recomenda o manual. De forma geral, o documento ensina que uma sabotagem simples deve "sempre consistir em atos cujos resultados serão prejudiciais aos materiais e à mão de obra do inimigo". No ambiente de trabalho Aos olhos contemporâneos, a parte mais saborosa do guia é justamente a última, que traz as sugestões específicas para sabotagem simples — e de onde foram tiradas todas as frases do primeiro parágrafo desta reportagem e esses dois seguintes: "Levante questões irrelevantes com frequência", "quando possível, redirecione os assuntos a comitês para 'maior estudo e consideração'", "faça discursos", "fale com frequência e por longos períodos", "ilustre seus pontos com longas anedotas e relatos pessoais". "Volte a decisões já tomadas na reunião anterior e tente reabrir a discussão", "exija ordens por escrito", "entenda 'mal' as ordens e faça perguntas intermináveis", "ao atribuir tarefas, ponha primeiro as menos importantes", "ao treinar novos funcionários, dê instruções incompletas ou enganosas". Este capítulo do manual também incentiva ao cometimento de incêndios em armazéns, quartéis, escritórios e outras instalações do tipo, com a dica de que "sempre que possível" o fogo deva "começar depois de você ter ido embora". Há instruções sobre dispositivos simples que podem ser feitos com materiais como vela e algodão. Se a pessoa em questão tiver acesso a compartimentos onde são acondicionados lixo, o texto recomenda que ele procure acumular ali materiais oleosos e gordurosos, facilitando a precipitação de um incêndio. "Se você trabalha como zelador noturno, pode ser o primeiro a relatar o fogo. Mas não o faça muito cedo", diz o documento, já ensinando a construir um álibi. "Uma fábrica limpa não é suscetível a incêndios, mas uma suja é. Os trabalhadores devem ser descuidados […]. Se houver acúmulo suficiente de sujeira e lixo, um edifício à prova de fogo se tornará inflamável", recomenda. Há uma série de outras dicas. "Esqueça de fornecer papel nos vasos sanitários; coloque papel enrolado, cabelo e outras obstruções no vaso sanitário. Sature uma esponja com uma solução espessa de amido ou açúcar. Aperte-a firmemente até formar uma bola, enrole-a com um barbante e seque. Remova o barbante quando estiver completamente seca", ensina o manual. "A esponja terá o formato de uma bola dura e compacta. Jogue-a no vaso sanitário ou introduza-a em uma tubulação de esgoto. A esponja expandirá gradualmente até seu tamanho normal e obstruirá o sistema de esgoto." "Coloque papel, pedaços de madeira, grampos de cabelo e qualquer outra coisa que caiba nas fechaduras de todas as entradas desprotegidas de edifícios públicos", diz o texto. "Deixe as ferramentas de corte cegas. Elas serão ineficientes, retardarão a produção e podem danificar os materiais e as peças em que você as utiliza." O guia ainda ensina a desgastar máquinas adulterando o óleo de lubrificação ou mesmo estragando o sistema de filtragem. "Coloque qualquer substância obstrutiva nos sistemas de lubrificação ou, se flutuar, no óleo armazenado. Pentes torcidos de cabelo humano, pedaços de barbante, insetos mortos e muitos outros objetos comuns serão eficazes para interromper ou dificultar o fluxo de óleo através de linhas de alimentação e filtros", sugere. Há lições sobre como destruir motores elétricos e diluir gasolina para que o combustível não funcione. "Água, urina, vinho ou qualquer outro líquido simples que você possa obter em quantidades razoavelmente grandes diluirá a gasolina a um ponto em que não ocorrerá combustão no cilindro e o motor não se moverá […]. Se usar água salgada, causará corrosão e danos permanentes ao motor", explica. O manual também sugere danificar pneus de veículos e transferir para ramais errados ligações telefônicas recebidas na empresa, entre outros pontos curiosos. Também há orientações sobre como fazer para interferir em transmissões de rádio e atrapalhar a eficiência dos correios. "Essas instruções mostram como as estratégias de guerra podiam adentrar no cotidiano da vida das pessoas, em um tempo em que a guerra ainda era muito restrita ao palco das batalhas", comenta Missiato, historiador do Mackenzie. Enrolação Donovan (esquerda) assinava o início do manual US Army/ Domínio Público via BBC A parte final do documento enfatiza ações que podem ser feitas por empregados em geral. "Interessante notar a sofisticação das estratégias de guerra no cotidiano da vida das pessoas, fazendo com que o social se transformasse também em campo de batalha", afirma Missiato. O documento prossegue; "Trabalhe lentamente. Pense em maneiras de aumentar o número de movimentos necessários no seu trabalho: use um martelo leve em vez de um pesado, […] use pouca força onde seria necessária uma considerável, e assim por diante". "O grande objetivo que eles tinham nessa questão da sabotagem era criar um tempo, ou seja, diminuir o passo das coisas que poderiam ser rápidas. Isso é uma tática interessante", atenta o cientista político Bandarra. "Ao aumentar a burocracia, você gera uma disfuncionalidade burocrática intencional. E o tempo, na guerra, é algo muito importante." O manuel segue: "Crie o máximo possível de interrupções no seu trabalho". "Quando for ao banheiro, passe mais tempo lá do que o necessário. Esqueça as ferramentas: você terá de voltar para buscá-las." "Finja que as instruções são difíceis de entender e peça para repeti-las mais de uma vez", recomenda. "Ou finja que está particularmente ansioso para fazer o seu trabalho e importune o encarregado com perguntas desnecessárias." "Aja de forma estúpida", sugere. "Seja o mais irritável e briguento possível sem se meter em encrenca. Dê explicações longas e incompreensíveis quando questionado." Anticoach As orientações são o avesso de qualquer compilado de recomendações de boas práticas empresariais de hoje em dia. "O meu livro é a antítese desse manual", reconhece à BBC News Brasil o executivo Rafael Catolé, autor de O Poder da Gestão. "O manual [distribuído pelos Estados Unidos] fala sobre burocratização, não dar acesso aos tomadores de decisão, gastar tempo com decisões irrelevantes ou já tomadas e focar naquilo que não traz resultado", resume. "Sabemos que o que funciona é o contrário disso: selecionar o que é importante, democratizar o acesso aos tomadores de decisão, pulverizar as decisões em escalas que fazem sentido." Por outro lado, Catolé reconhece que muitas empresas acabam tendo condutas ineficientes que, ironicamente, se assemelham às práticas de sabotagem recomendadas pelo documento. "Por exemplo, a falácia das reuniões onde as pessoas passam foros e foros para tomar decisão e, como o foro não tem foco principal, não tem foco objetivo, não tem começo, meio e fim, você tem um alongamento de decisões que deveriam ser simples", compara. "Eu diria que muitas vezes as próprias empresas se sabotam quando, por exemplo, importam ferramentas de administração que podem soar como positivas ao racionalizar o organograma mas, por outro lado, não respeitam a queixa que existe de muitos funcionários competentes de que esse excesso de intervenção administrativa sobre certas funções acaba emperrando a criatividade, a espontaneidade e a liberdade em termos produtivos", critica Ramirez. Por que milhões seguem fora do mercado há anos? Defender home office nas redes custou o emprego deles

Palavras-chave: cibernético

Como a academia de boxe que nasceu na favela do Moinho foi parar no maior evento de arte do Brasil

Publicado em: 26/10/2025 05:01

Apresentação na Bienal de Arte de SP do Boxe Autônomo, academia que dá treinos populares na capital paulista Denis Hornos de Queiroz O coletivo Boxe Autônomo, que nasceu em ocupações e espaços públicos do Centro de São Paulo, como a Favela do Moinho, estreou na 36ª Bienal de São Paulo entre os dias 16 e 18 de outubro, com uma instalação-performance que mistura luta, dança e debates sobre esporte e política. Fundado em 2015 por três amigos e baseado na Casa do Povo, no Bom Retiro, o projeto transformou o gesto esportivo em linguagem artística para mostrar que o boxe pode ser ferramenta de transformação social. O grupo começou realizando treinos ao ar livre na Favela do Moinho, nos Campos Elíseos, uma das últimas comunidades remanescentes da região central da capital, marcada por conflitos por moradia, PCC e ações do governo estadual. As atividades combinavam exercícios físicos com rodas de conversa sobre racismo, machismo e cidadania. “Antes de começar os treinos, a gente fazia uma roda para conversar sobre política, racismo, machismo, antifascismo e o combate a todas as formas de discriminação. Era um espaço de aprendizado e escuta”, diz Breno Macedo, um dos fundadores do projeto. Foi nesse ambiente que Kelvy Alecrim, hoje tricampeão brasileiro e tetracampeão estadual, conheceu o boxe aos 14 anos. “Comecei a treinar no mesmo dia e me apaixonei”, conta. O atleta também conquistou títulos nos Jogos Abertos e no desafio Brasil-Argentina, e virou símbolo da filosofia do projeto: esporte como instrumento de transformação social. LEIA TAMBÉM: Academias populares de boxe resistem debaixo de viadutos em SP Projeto social leva boxe para comunidade na Zona Sul de SP e inspira meninas Em 2018, o grupo se instalou na Casa do Povo, no Bom Retiro — um espaço histórico ligado à resistência cultural e política desde os anos 1940. Lá, o Boxe Autônomo consolidou sua rotina de treinos populares, debates e, agora, apresentações artísticas. Boxe, performance e política O Boxe Autônomo já montou ringues no Sesc Pompeia e reforça que não busca reconhecimento artístico, mas visibilidade social. Divulgação/@eurodrigoespindola O convite para a Bienal veio da Casa do Povo, que integra o programa “Ensaio Geral”, realizado no subsolo do Teatro de Arte Israelita Brasileiro (TAIB), localizado na própria instituição histórica. Durante três dias, o coletivo promoveu treinos abertos, apresentações de sparring, mesas de debate e performances que exploram o corpo, a luta e a arte. A estreia contou até com a presença do ex-jogador de futebol Raí. 🥊Sparring é uma simulação de combate, ou treinamento, usado em esportes de luta para praticar técnicas, táticas e condicionamento físico em um ambiente controlado. Os objetivos principais são desenvolver habilidades, aprimorar movimentos e preparar o atleta para competições de forma segura e realista. Entre as performances, “Quadrilátero da Fragilidade” chamou atenção ao unir socos e palavras sobre medo e vulnerabilidade. Segundo Michael de Paula Soares, o Micha, doutor em antropologia pela USP e coordenador do coletivo, atuar no campo expandido das artes é uma forma de mostrar que o boxe pode ser muito mais do que agressão. “A nossa modalidade é constantemente desvalorizada porque os corpos que estão em ascensão nesse esporte são corpos negros, racializados, de diversas origens. Mas existe uma pedagogia, um método, uma tradição muito antiga no Brasil.” Para Micha, o boxe é também cuidado, linguagem e invenção. “Quando um corpo periférico entra em um espaço de arte, ele mostra que também produz pensamento. Nossa atuação no campo das artes é uma forma de mostrar isso e desafiar o olhar conservador sobre o boxe." Inspirado nas academias antifascistas italianas, o projeto surgiu em um contexto de forte politização das lutas de contato. Enquanto parte significativa das artes marciais se aproximava de discursos conservadores, o coletivo decidiu criar um ambiente inclusivo e seguro para pessoas LGBTQIA+, mulheres, migrantes e trabalhadores precarizados. “Queríamos um espaço em que cada pessoa se sentisse respeitada, independentemente de quem fosse ou de onde viesse. Se não gosta, se afasta; quem se identifica, fica”, afirma Raphael Piva, um dos fundadores. Apresentação na Bienal de Arte de SP do Boxe Autônomo, academia que dá treinos populares na capital paulista Denis Hornos de Queiroz Novos horizontes Em setembro deste ano, Anderson participou de intercâmbio cultural em Paris, na França, unindo boxe e arte, e na Bienal descobriu que o esporte também pode ser dança. Divulgação/@eurodrigoespindola Entre os participantes da Bienal está Anderson Diniz, de 20 anos, ex-aluno e hoje treinador do Boxe Autônomo. Paraibano, ele enfrentou desafios pessoais desde cedo e encontrou no projeto um caminho de transformação. “Vim da Paraíba com muitos problemas familiares e comecei a morar sozinho aos 15 anos. Com 17, entrei numa academia só para emagrecer. Depois conheci o Boxe Autônomo e contei minha história para o Breno. Ele me colocou num campeonato de estreantes — e fui campeão", conta. Quando chegou a São Paulo, Anderson conciliava treinos com jornadas de trabalho exaustivas e, depois, passou a dar aulas no projeto. Em setembro deste ano, o jovem participou de intercâmbio cultural em Paris, na França, unindo boxe e arte, e na Bienal descobriu que o esporte também pode ser dança. “Para ser sincero, eu nem sabia o que era Bienal. Quando me chamaram para dançar, pensei que tivessem escolhido a pessoa errada. Mas era uma dança com o boxe, e no fim deu tudo certo. Descobri que o boxe também pode ser arte.” Na Bienal, a apresentação "Aproximações!" uniu a dança popular brasileira e o boxe. No ringue, Micha e Anderson exploram os gestos que unem a capoeira, festa e luta. “É a ideia de que o corpo é memória. A gente traz para dentro da arte o que o Brasil sempre teve nas ruas: o movimento, o enfrentamento, a invenção”, explica Micha. O Boxe Autônomo já montou ringues no Sesc Pompeia e reforça que não busca reconhecimento artístico, mas visibilidade social. “A gente não separa arte, esporte e política. Tudo está junto no mesmo corpo”, resume. Apresentação na Bienal de Arte de SP do Boxe Autônomo, academia que dá treinos populares na capital paulista Denis Hornos de Queiroz Apresentação na Bienal de Arte de SP do Boxe Autônomo, academia que dá treinos populares na capital paulista Denis Hornos de Queiroz Segundo Michael de Paula Soares, doutor em antropologia pela USP e coordenador do coletivo, atuar no campo expandido das artes é uma forma de mostrar que o boxe pode ser muito mais do que agressão. Divulgação/@eurodrigoespindola Durante três dias, o coletivo promoveu treinos abertos, apresentações de sparring, mesas de debate e performances que exploram o corpo, a luta e a arte. Divulgação/@eurodrigoespindola

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COP 30: pesquisadores de BH saem de motorhome em expedição inédita de 3 mil km até Belém

Publicado em: 26/10/2025 05:01

Motorhome sairá de BH com destino a Belém, no Pará Divulgação Pesquisadores de Minas Gerais farão pela primeira vez uma viagem de mais de 3 mil quilômetros rumo à Convenção do Clima da Organização das Nações Unidas (COP-30), que será realizada em novembro em Belém, no Pará. Em um motorhome, o grupo sairá de Belo Horizonte no dia 1º de novembro. A empreitada ambiental vai coletar dados e informações sobre os principais biomas brasileiros. Veja mais abaixo o infográfico com a rota que será feita pelo grupo. ✅Clique aqui para seguir o canal do g1 MG no WhatsApp O motorhome do Instituto Bem Ambienta (Ibam) fará paradas em diversos municípios antes de chegar a Belém, compartilhando atualizações em tempo real, conteúdo visual e histórias da comunidade. Os pesquisadores também farão workshops públicos sobre temas diversos relacionados ao meio ambiente. Para Sergio Myssior, arquiteto e coordenador institucional da expedição, entre o discurso de alerta sobre as mudanças climáticas e a participação popular como agentes das transformações urgentes e necessárias, ainda existe uma lacuna a ser preenchida. "Estamos na ponta lidando com as comunidades, cidades, com a realidade local e muitas vezes essa construção dessa política global parece muito desconectada do dia a dia. Isso nos motivou a fazer a conexão entre o global e o local", afirmou ao g1. Delegações ainda negociam hospedagem para a COP 30, em Belém LEITA TAMBÉM Às vésperas da COP30, apenas Brasil investiu em fundo para preservar florestas ONU aponta que 90% dos vazamentos de metano detectados por satélite continuam sem resposta; veja IMAGENS Expedição A expedição passará por 4 biomas brasileiros: Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga e Amazônia. Durante cerca de dez dias, os pesquisadores conversarão com moradores, gestores e representantes do poder público. O objetivo é registrar locais que já sofrem com os impactos da mudança do clima e destacar iniciativas locais de adaptação das cidades e resiliência de territórios. "O termo mudança climática ainda é muito difuso, distante. Quando a gente traduz para uma linguagem acessível, falando sobre vetores de doenças como dengue, zika, ou deslizamentos, enchentes e efeitos da onda de calor, conseguimos aproximar o tema das pessoas", afirmou Sérgio. Belém: metrópole de rica herança cultural Belém é conhecida por ser uma metrópole de rica herança cultural e histórica, com influência das florestas pela diversidade amazônica. A cidade está listada entre as capitais brasileiras de maior vulnerabilidade diante da crise climática. O município tem lidado com o aumento da intensidade de enchentes, a elevação do nível do mar e a ocorrência de eventos climáticos extremos. "A gente tem falado muito dessa pauta, da fragilidade da infraestrutura. Tentando ver por outro ângulo, Belém tem suas fragilidades, e isso tem impacto também na possibilidade de as pessoas se deslocarem para o encontro. Por outro lado, é a oportunidade de mostrar para o mundo a realidade das cidades brasileiras de lidar com problemas do passado que se tornam mais agudos diante dos eventos climáticos", completou Sérgio. Como será a rota dos pesquisadores Pesquisadores de MG farão expedição de 3 mil g1 Vídeos mais vistos no g1 Minas:

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Agricultores comemoram resultados na colheita de milho: 'Uma das melhores safras'

Publicado em: 26/10/2025 05:01

Agricultores comemoram resultados na colheita de milho Amazônia Agro O mês de outubro é marcado pela colheita do milho nas áreas rurais de Boa Vista. O período é resultado de meses de trabalho no campo e o uso de tecnologias que têm contribuído para o aumento da produtividade neste ano. Na área de cultivo de Juscelino José de Mello, localizada no Projeto de Assentamento Nova Amazônia, zona rural de Boa Vista, é possível observar diferentes etapas do processo produtivo - desde a silagem, quando o grão é preparado para uma nova fase, até a colheita do milho. “Essa colheita de agora está sendo muito boa. É uma das melhores. Eu tirei 500 sacos de silagem, 300 sacos de milho verde que mandei para Manaus, mais 500 sacos de lá, e agora tô colhendo essa”, contou o produtor rural. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 RR no WhatsApp Durante o mês de maio, foram plantados 865 hectares de milho em todo o município Amazônia Agro Durante o mês de maio, foram plantados 865 hectares de milho em todo o município. A colheita é a etapa final de um ciclo que começou em abril, com o preparo do solo e a distribuição de sementes e fertilizantes. O milho é uma das principais fontes de renda e sustento das famílias do campo. Além de garantir alimento na mesa, também é utilizado em outras cadeias produtivas, como a de ração animal, e na comercialização em feiras e mercados locais. O Plano Municipal de Desenvolvimento do Agronegócio (PMDA) atende cerca de 1,9 mil famílias e ultrapassa 4 mil hectares de área cultivada. O programa disponibiliza 145 máquinas e implementos agrícolas para o plantio e a colheita. Segundo o secretário municipal de Agricultura, Cézar Riva, as colheitas de 2025 superaram as expectativas. “No ano passado, tivemos uma média de 110 sacos por hectare. A expectativa era superar esse número e, para nossa surpresa, este ano conseguimos uma média de 140 sacos, com propriedades chegando a 170 em algumas áreas do município”, destacou. Os produtores já se preparam para o próximo ciclo. O edital de seleção para o PMDA 2026 deve ser lançado em março, seguido pela distribuição de insumos em abril, plantio em maio, silagem entre agosto e setembro e colheita em outubro. Veja a colheita do ano passado: Agricultores iniciam plantio de milho em Roraima Leia outras notícias do estado no g1 Roraima.

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Como agro brasileiro se tornou referência mundial em reciclagem de embalagens de defensivos

Publicado em: 26/10/2025 05:01

Conheça o sistema de logística reversa que evita o descarte de embalagens de defensivos Produtor de amendoim e soja há 45 anos em Guaíra (SP), Luiz Brito não descarta a embalagem nem dá a ela qualquer finalidade depois de utilizar um defensivo na lavoura: primeiro, ele lava três vezes e armazena em um local apropriado até levar a um centro de coleta, de onde o material será retirado para indústrias capazes de reaproveitar toda a matéria-prima em novas embalagens para, mais uma vez, armazenarem insumos. "Na cultura do amendoim e da soja, as devoluções de embalagem se concentram entre os meses de novembro e março. No meu caso, umas 400 por mês", diz. O agricultor está na ponta de uma cadeia produtiva que, graças ao alinhamento entre tecnologia, organização da iniciativa privada, legislação e fiscalização, torna o Brasil um exemplo mundial em logística reversa de embalagens plásticas de defensivos agrícolas. Siga o canal do g1 Ribeirão e Franca no WhatsApp Em 24 anos, o volume de embalagens vazias processadas cresceu 20 vezes desde o início das operações do "Sistema Campo Limpo", nome dado à política nacional de logística reversa desse tipo de material financiada pelas próprias indústrias do setor. Começou com 3,8 mil toneladas, atingiu mais de 68 mil em 2024 e deve estar próximo de 75 mil toneladas em 2025, segundo Marcelo Okamura, diretor-presidente do Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (inpEV). Desde 2002, foram mais de 800 mil toneladas recicladas que evitaram a emissão de mais de 1 milhão de toneladas de carbono equivalente (Co2e), o mesmo trabalho de 7,5 milhões de árvores. "É importante, primeiro, para você tirar esse material para não contaminar o ambiente e gerar novas matérias-primas a outras cadeias de valor. O lixo que era jogado no campo, com papelão e metais, volta para a cadeia de reciclagem e gera materiais de maior valor agregado", afirma. Cadeia produtiva de defensivos agrícolas conta com logística reversa de embalagens plásticas regulamentada por lei Divulgação/Sistema Campo Limpo O g1 conversou com integrantes do inpEV e conheceu uma das linhas de produção em Ribeirão Preto (SP), de uma das maiores indústrias de reciclagem plástica do país. A seguir, entenda como funciona o sistema. O agro e a produção de plásticos Das primeiras legislações à organização do setor Logística reversa: recibo de compra, tríplice lavagem e devolução Da compactação à resina pós-consumo Embalagens de defensivos: tecnologia e rastreamento O agro e a produção de plásticos Historicamente um aliado nos avanços da humanidade, da indústria à medicina, o plástico se tornou um dos vilões das questões climáticas devido ao descarte indiscriminado e fortemente associado à poluição de oceanos. Estima-se que, em todo o mundo, foram produzidas 500 milhões de toneladas do material em 2024, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), das quais quase 400 milhões se tornaram resíduos. De acordo com dados do pesquisador Silvio Vaz Júnior, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), apenas 16% é destinado para a reciclagem. Na agricultura, o plástico não é menos importante. Estufas para controle de ambiente e cultivo de hortaliças, sistemas de irrigação e proteção do solo são algumas das aplicações em suas variadas formas, inclusive para fazer frente às mudanças climáticas. Parte importante dessa cadeia, o transporte e a armazenagem de defensivos também encontrou no material uma solução confiável para um dos países que mais utilizam agrotóxicos no mundo: é resistente tanto para suportar adversidades do transporte quanto para se manter inerte à ação do produto, garantindo que ele chegue ao destino sem vazamentos. "O plástico é um material barato, moldável, (...) leve em termos de transporte. É muito mais vantajoso do que os metais, que o vidro. (...) O culpado são as pessoas que não têm essa capacidade, essa educação de fazer essa logística reversa de plástico, ou o culpado é o próprio plástico? Quem tem culpa são as pessoas que fazem do plástico um lixo", afirma o representante do inpEV. Das primeiras legislações à organização do setor A criação de um sistema de logística reversa de embalagens de defensivos, sem paralelo em outros segmentos da economia, é consequência de uma sequência de marcos regulatórios que se iniciou nos anos 1970, com as primeiras legislações sobre o assunto. Segundo Okamura, é dessa época uma importante pesquisa de fabricantes de agrotóxicos que constatou a dificuldade dos agricultores em destinar as embalagens. Estes que enterravam ou queimavam os recipientes, quando não reaproveitavam desavisadamente para outros fins. "Era uma destinação que tinha o risco de um reciclador pegar o material, produzir resinas sabe-se lá com que nível de contaminação e produzir qualquer artefato. (...) O agricultor não tinha muita opção. Na verdade, as opções eram muito desfavoráveis." Sistema de logística reversa de embalagens de defensivos agrícolas entrou em atividade em 2002 no Brasil. Divulgação/ Sistema Campo Limpo/inPEV Essa preocupação levou à promulgação da Lei Federal 7.802, a Lei dos Agrotóxicos, de 1989, mais tarde atualizada por textos como a Lei Federal nº 9.974, regulamentada em 2002, que disciplinou a logística reversa de embalagens de defensivos agrícolas no país e inclusive estabeleceu parâmetros para fiscalização e aplicação de sanções, quando as normas não são seguidas. Em 2001, uma entidade foi criada para cuidar desse assunto, o Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (inpEV). Formado por mais de 200 indústrias e entidades como a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o instituto é o idealizador do Sistema Campo Limpo, nome dado à política brasileira de logística reversa das embalagens de defensivos agrícolas. Hoje, o sistema integra agricultores, postos de coleta credenciados, centros de distribuição, além de indústrias recicladoras e revendas, e é regulamentado pela Lei Federal 14.85, de 2023, e pelo decreto federal 4.074, de 2022. "Para ser eficiente, o agricultor tem que fazer a parte dele, o distribuidor tem que fazer a parte dele, a indústria tem que fazer parte dela, mas os órgãos públicos têm que fazer a parte deles também, porque, se não tiver fiscalização, como vamos controlar o sistema?", afirma Okamura. Sistema de logística reversa conta com lavagem e separação de embalagens de defensivos Divulgação/Sistema Campo Limpo Logística reversa: recibo de compra, tríplice lavagem e devolução Pelo menos dois princípios norteiam esse sistema para que ele faça sentido, segundo Okamura. Um deles é a reciclabilidade, ou seja, a garantia de que aquele material pode ser reaproveitado. Porém, mais do que evitar o descarte, o sistema tem o objetivo de garantir que o mesmo plástico nunca mais volte à natureza. É o que o diretor do inpEV chama de circularidade. "Eu produzi essa embalagem e essa embalagem foi reciclada, mas não vai parar aqui, vai reciclar de novo e vai reciclar de novo." Com essas bases, esse sistema conta com os seguintes integrantes: agricultores: responsáveis por levar aos pontos de coleta as embalagens para serem recicladas; pontos de coleta e canais de distribuição: mais de 400 unidades de recebimento fixas e móveis aptas a receber embalagens usadas; parte delas também prepara os "packs" que serão levados às indústrias; indústrias: capazes de receber as embalagens, retrabalhar a matéria-prima, chamada de resina pós-consumo (RPC), e fabricar novas embalagens; poder público: os estados são responsáveis por fiscalizar os entes envolvidos e aplicar sanções, se necessário. Tudo começa com o agricultor. Assim que compra um defensivo, fica com um recibo que descreve o local para onde aquela embalagem deve ser levada no prazo máximo de um ano. "Quando ele chega a uma unidade de recebimento, nós temos um sistema que fala assim: você está retornando 200 bombonas de 20 litros, 100 bombonas de 10 litros (...) e ele tem um recibo que tem que guardar por um ano. Dentro desse ano, qualquer fiscalização na propriedade, se ele não tiver esse recibo, ele é multado. E o agricultor que não entregar as embalagens a legislação diz que ele pode ser penalizado até com detenção", explica Okamura. Ao terminar de utilizar os defensivos, o agricultor fica então responsável por realizar a tríplice lavagem na embalagem e armazená-la em um local seguro até que leve a um ponto de coleta credenciado. Isso se forem as embalagens destinadas a soluções líquidas, que geralmente são rígidas, de polietileno de alta densidade, e consideradas laváveis. "No momento da aplicação, após estar vazia, já é feita a tríplice lavagem no campo. Retira as tampas, de preferência se faz um furo nas embalagens e vai armazenando dentro de bag. Quando acumula uns quatro bags, eu levo para a base de recolhimento. Costumo falar que graças a Deus tem hoje esses centros de recebimento de embalagens, pois ficaria muito difícil direcionar essas embalagens", afirma Luiz Brito, de Guaíra (SP). 🔎A tríplice lavagem é um método bastante simples, mas eficaz, que consiste em lavar a embalagem três vezes com água limpa e que é inclusive regulamentada por uma norma da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), a NBR 13968. Esse método pode ser substituído pela lavagem sob pressão, feita com o auxílio do próprio pulverizador. "Ele faz um enxágue dessas embalagens por três vezes. Coloca um pouco d'água, chacoalha e coloca essa água no tanque de pulverização para não jogar no solo, em lugar nenhum. Ele faz esse processo por três vezes para tirar todo o resíduo que fica dentro dessa embalagem. Fazendo esse processo, tem estudos que comprovam que retira mais de 99% do produto que estava dentro, deixando menos de 100 partes por milhão de resíduos dentro dessa embalagem", afirma Okamura. 🚩Para outros casos, como de embalagens não laváveis ou flexíveis e contaminadas, a lavagem não é válida. A orientação é o armazenamento em local seguro, sem vazamentos e sem contato externo, até a destinação aos pontos de coleta. Na sequência, a devolução dessas embalagens ocorre por meio de um agendamento eletrônico disponível no site do inpEV em que ele determina a data e o local. No estado de São Paulo, são pelo menos 9 cidades com estrutura para receber esses materiais. Essas centrais possuem certificação ISO 9001. "Durante esse período, ele não pode deixar essa embalagem no tempo, tem que ter um lugar apropriado para guardar até a devolução." Agricultor há 15 anos em Araraquara (SP), José Mário de Castro Marcato chega a utilizar dez embalagens de 20 litros cada em época de plantio. "Após o uso das embalagens, elas são lavadas na roça e, antes de armazená-las para a coleta, verificamos e fazemos uma nova lavagem e fazemos o corte. A destinação correta é importante para não haver contaminação indevida. Se forem para um centro de reciclagem comum, poderá afetar o produto final que será reutilizado, na natureza é um lixo persistente de longas décadas", diz. Plástico de defensivos agrícolas é processado até se tornar resina pós-consumo para produção de novas embalagens. Divulgação/Sistema Campo Limpo Da compactação à resina pós-consumo Levadas aos postos de coleta, as embalagens são transportadas pelas próprias indústrias para centrais de recebimento, onde é feita a compactação das embalagens, antes de serem levadas para a reciclagem industrial. Tanto os postos quanto as centrais precisam atender a uma série de requisitos estabelecidos pela Resolução 465 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) para que a destinação seja considerada segura. "O chão tem que ser concretado, tem que ter um pé direito de tal tamanho, tem que ter uma certa estrutura que tem que ser coberta, não pode deixar essas embalagens ao vento, não pode tomar chuva. Então tem uma série de condicionantes para que se tenha essa licença." Pelo Sistema Campo Limpo, esses grandes pacotes de plástico têm como destino dez indústrias recicladoras espalhadas pelo país que têm a capacidade de processar o plástico até o transformar na resina pós-consumo (RPC), a matéria-prima para a produção de novos itens de plástico. A partir dela, as unidades parceiras produzem cerca de 40 produtos diferentes, de conduítes de energia elétrica e tubulações de esgoto, além de novas versões das mesmas embalagens rígidas de agrotóxicos, produzidas especificamente por apenas uma indústria no interior de São Paulo. Segundo o inpEV, 100% de todas as embalagens rígidas e de suas tampas que entram no sistema são recicladas. A exceção fica com itens como equipamentos de proteção individual (EPIs) contaminados e plásticos flexíveis que ainda precisam ser destinados para incineração. "Toda logística reversa é paga pela indústria. Toda mão-de-obra é paga pelo sistema. Toda incineração daquilo que não presta para reciclar, nós pagamos, gastamos quase R$ 10 milhões todos os anos para queimar materiais que não estão em condição de ser reciclados." Essa realidade, de acordo com Okamura, deve mudar nos próximos três anos, com a abertura de uma nova indústria especializada em reciclagem de embalagens flexíveis no interior de São Paulo. "Quando nós atingirmos isso em 2028, nós vamos estar incinerando aí 2 a 3% do material que é lixo que nós não temos como reciclar." Embalagens produzidas a partir de resina pós-consumo passam por testes de qualidade e resistência antes de voltarem ao mercado. Divulgação/Sistema Campo Limpo Embalagens de defensivos: tecnologia e rastreamento A única indústria hoje direcionada para embalagens de polietileno de alta densidade para agrotóxicos a partir da resina pós-consumo produz, por ano, mais de 15 milhões de unidades em suas plantas localizadas em Taubaté (SP) e Ribeirão Preto. Com o aumento da demanda pelo produto, que não perde em qualidade para os recipientes feitos a partir de matéria-prima virgem, o grupo Campo Limpo - que tem o mesmo nome do sistema de logística reversa de que faz parte - investiu nos últimos anos mais de R$ 20 milhões para aprimorar e expandir suas atividades. "Nós estamos falando de algo em torno de 14 mil toneladas de plástico reciclado que a gente transforma todos os anos", afirma Rogério Fernandes, diretor de operações da Campo Limpo. No chão de fábrica, equipamentos de última geração, chamados de extrusores, derretem os grãos de RPC para que se tornem maleáveis. O plástico então é expelido por sopradores, em um aspecto que lembra grandes bexigas, a altas temperaturas, para então ser moldado. Assim que o molde toca esse material, a embalagem, cujo desenho e especificações foram previamente programadas, ganha não só a forma final como também uma série de indicações e especificações impressas, entre elas um código que indica a origem e dá rastreabilidade ao produto. Ou seja, quem compra aquele produto saberá que ele foi feito a partir de um processo sustentável. "Essa matéria-prima, a origem dela são embalagens pós-consumo, evidentemente, que passaram pelo processo de reciclagem. Primeiramente elas foram moídas e lavadas para esse material ter condições de ser extrusado novamente e obter a matéria-prima. Uma vez isso feito, essa matéria-prima entra no nosso sistema de alimentação das nossas sopradoras. Todas as nossas sopradoras têm um conjunto de extrusoras que vão processar este plástico e evidentemente soprá-lo novamente fazendo uma nova embalagem." Ao final do processo, essas embalagens, compostas por três camadas diferentes, passam por verificações no chão de fábrica, inclusive com uso de inteligência artificial, para garantir que elas estejam dentro das especificações, além de testes de qualidade e resistência por amostragem em um laboratório que funciona 24 horas por dia. "Uma vez essa embalagem soprada, ela vai passar por processos fora da sopradora para verificação de diversos pontos, toda parte de controle de qualidade até a gente embalar diretamente para o nosso cliente." Segundo Fernandes, cada embalagem de 20 litros feita a partir de material reciclado representa 1,49 kg de dióxido de carbono equivalente (Co2e) que deixou de ser emitido. "Uma árvore no seu ciclo de vida de 20 anos consegue sequestrar 140 kg de CO₂ equivalentes, ou seja, 100 embalagens desta daqui, feita com matéria-prima reciclada, equivalem a uma árvore em um ciclo de vida de 20 anos", diz. Veja mais notícias da região no g1 Ribeirão Preto e Franca VÍDEOS: Tudo sobre Ribeirão Preto, Franca e região

Grafite para tocar: obra em Piracicaba torna arte de rua acessível para pessoas com deficiência visual

Publicado em: 26/10/2025 05:00

Projeto de Piracicaba transforma arte de rua em obra acessível para deficientes visuais O projeto Graffiti Pra Cego Ver, que torna a arte urbana acessível a pessoas com deficiência visual, ganhou novas cores e texturas em Piracicaba (SP). A proposta? Tornar o grafite acessível ao tato. O painel conta com superfícies em relevo, inscrições em braile e QR codes com audiodescrição, que transforam o grafite em uma experiência sensorial. A obra foi instalada na sede da Associação de Atendimento a Pessoas com Deficiência Visual de Piracicaba (Avistar), que atende 60 pessoas e busca a integração sócio-educativa-cultural para elas e suas famílias. 📲 Participe do canal do g1 Campinas no WhatsApp A obra começou com a criação em formato digital, passou por um processo de vetorização e foi transformada em peças tridimensionais com recursos como braile, relevos e diferentes texturas. Depois, recebeu a pintura e elementos táteis que ajudam na compreensão da imagem. "Eles conseguem sentir e ter a percepção do todo como qualquer vidente. É uma maneira diferente de olhar. E a gente quer abrir isso para toda a população, para que as pessoas possam sentir como é a leitura de uma obra de arte por um deficiente visual", diz Maria José Beloni, presidente da Avistar. Arte para todos os sentidos Grafite para tocar: obra em Piracicaba torna arte de rua acessível para pessoas com deficiência visual Reprodução EPTV Além do toque, as obras contam com audiodescrição, ampliando a acessibilidade. Para a artesã Natalícia da Silva, conhecida como Nata, que é cega, a vivência foi emocionante. “É muito estimulante, muito interessante. Uma emoção para a gente”, disse. Nata e o marido, Hélio dos Santos Mendes, também deficiente visual, são exemplos de independência. Juntos, eles criaram o filho Gabriel, de 16 anos. Enquanto Hélio trabalha como massagista, Nata participa de diversos projetos sociais no bairro e em outras regiões da cidade. Cleusa Maria Pupin Bottini, que tem baixa visão e enxerga apenas 18% com o olho direito, se emocionou ao interagir com a obra. “O que me chamou atenção foi uma casinha que tem ali. A casa é o nosso aconchego, onde a gente se sente melhor. Essa emoção que me bateu foi a casa”, contou. Uma nova forma de ver Grafite para tocar: obra em Piracicaba torna arte de rua acessível para pessoas com deficiência visual Reprodução EPTV Gislaine Martins, artista responsável pelo grafite adaptado e conhecida como Gim, conta que precisou repensar a forma de criar. O cabelo da personagem retratada, por exemplo, fori criado de forma que direcione o público para outros elementos do painel. “Quando você bate o olho em um grafite, você já tem uma leitura completa do trabalho, né? Nesse caso, as pessoas vão ler por partes", explica. A proposta também provoca reflexões sobre como todos — com ou sem deficiência visual — percebem a arte. “Você conhece a Monalisa? Todo mundo conhece a Monalisa. Quantas árvores tem atrás da Monalisa? Ninguém lembra. Às vezes, a compreensão exata e completa da obra não é o que te impacta, mas a ideia é dar essa chance para a pessoa formar uma ideia no coração dela”, comentou Murillo Denardo, diretor de arte do projeto. Grafite para tocar: obra em Piracicaba torna arte de rua acessível para pessoas com deficiência visual Reprodução EPTV Segundo o curador do projeto, Roberto Parisi, a iniciativa consiste em uma tecnologia que visa ampliar a cidadania e o acesso à arte urbana para pessoas não videntes. Em entrevista à EPTV, afiliada Rede Globo para Piracicaba e região, ele descreveu como o mural é elaborado. "Ele começa numa arte digital, feita pela artista. A gente trabalha a curadoria com eles (deficientes visuais) em temas de diversidade e inclusão. Depois, nosso diretor de arte que faz toda a parte de acessibilização com nosso consultor de acessibilização, o Marcelo. Isso é vetorizado, transformado em 3D com o Braille, todo o descritivo da obra, e é impresso em impressão 3D", descreveu. Durante a instalação do painel, é feita a audiodescrição, testando as camadas e alturas do painel com cegos e pessoas de baixa visão. E, com base, nessa perspectiva é feita a pintura. "Então, os cegos veem antes da gente o painel já pintado", diz. VÍDEOS: saiba tudo sobre Campinas e Região Veja mais notícias da região no g1 Campinas

Palavras-chave: tecnologia

Chip ajuda quem sofre perda de visão a enxergar de novo

Publicado em: 26/10/2025 04:01

Paciente passa por treinamento para usar o sistema Prima no Moorfields Eye Hospital, no Reino Unido. Moorfields Eye Hospital Restaurar a visão – ou pelo menos melhorá-la – pode em breve ser possível para quem sofre de degeneração macular. A esperança está em um novo sistema que consiste num pequeno chip e óculos especiais. Juntos, chip e óculos se mostraram eficazes no tratamento de um tipo de doença ocular conhecida como Degeneração Macular Relacionada à Idade (DMRI). Após um ano de monitoramento, mais de 80% dos pacientes em centros de estudo nos Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, Holanda e Itália apresentaram melhora significativa na visão central. Com o implante, os pacientes conseguiram ler números e palavras em casa e melhoraram sua capacidade de leitura em 25 letras – ou cinco linhas – em uma tabela padrão de exame oftalmológico. A maioria dos participantes, com mais de 50 anos de idade, teve a visão melhorada para cerca da metade da acuidade visual padrão de 20/20 – ou o nível de detalhes que um indivíduo médio consegue enxergar a uma distância de 6 metros. "É a primeira vez que ficou demonstrado que a visão pode ser restaurada em uma área da retina cega que é importante para a vida cotidiana", disse Frank Holz, líder do estudo e chefe do departamento de oftalmologia da Universidade de Bonn, à DW. À medida que algumas pessoas envelhecem, a mácula – parte da retina responsável pela visão central – pode se deteriorar, levando inicialmente ao embaçamento da visão e, depois, à degeneração progressiva. A degeneração macular atrófica relacionada à idade (DMRI atrófica) é uma das principais causas de perda de visão em idosos, afetando pelo menos 5 milhões de pessoas em todo o mundo. VEJA TAMBÉM: Paciente com Parkinson toca clarinete enquanto faz cirurgia no cérebro Implante é esperança para quem tem DMRI atrófica Um olho saudável "enxerga" ao receber luz do mundo exterior e convertê-la em sinais elétricos que são enviados ao cérebro pelo nervo óptico para interpretação. A degeneração macular reduz a capacidade do olho de realizar esse processo. A solução de implantar na retina um chip do tamanho da cabeça de um alfinete capaz de compensar essa deterioração inspirou Daniel Palanker, oftalmologista da Universidade Stanford, nos Estados Unidos. Para o desenvolvimento da tecnologia, ele colaborou com um especialista em visão, o francês Jose-Alain Sahel, da Escola de Medicina de Pittsburgh. A ideia era criar um implante que eliminasse a necessidade de fios sob a pele. Mas o chip é apenas uma parte do que eles chamam de sistema Prima. A outra parte consiste em um conjunto especial de óculos. Eles utilizam uma câmera acoplada para transmitir dados visuais ao implante, que envia essas informações a um processador portátil para aprimoramento e, em seguida, recebe as imagens com qualidade melhorada de volta. As imagens são convertidas em impulsos elétricos, utilizando as células remanescentes da retina para enviar as informações ao cérebro. "É necessário, especialmente nessa doença, que o biocomputador, por assim dizer, a fiação [biológica] anterior ao chip, ainda esteja presente", disse Holz, referindo-se às células do olho que ainda funcionam. "Se todas as células da retina estão mortas, o chip não funciona. [O implante] apenas substitui os fotorreceptores e basicamente traduz a luz em estímulos elétricos, que é o que a natureza faz no olho por meio da retina." LEIA TAMBÉM: Cirurgia dente-no-olho: entenda procedimento que faz pessoas cegas recuperarem a visão Queimadura nos olhos após uso de sérum para cílios: internautas relatam reações e médicos fazem alerta Resultado de colaboração Tanto Sahel, em Pittsburgh, quanto Palanker, em Stanford, estavam trabalhando em tecnologias distintas para resolver o mesmo problema quando se conheceram em uma conferência em 2012. Foi então que eles decidiram unir esforços para desenvolver o implante, começando com estudos menores com alguns pacientes e depois evoluindo para o ensaio mais recente, que envolveu mais de 30 pessoas. Em 2024, porém, o estudo atual quase teve que ser interrompido por causa da falência da empresa responsável pelo desenvolvimento do Prima. "Lembro vividamente daqueles dias, não muito distantes, em que tudo estava prestes a ruir justamente quando o estudo estava quase concluído", recorda Sahel em entrevista à DW. "Poderia ter acontecido de termos um produto funcional e não haver forma de fazê-lo chegar às pessoas." Entretanto, a empresa desenvolvedora acabou sendo adquirida pela americana Science Corporation, que assumiu a produção e atualmente busca aprovação da Food and Drug Administration (FDA), agência dos Estados Unidos equivalente à Anvisa no Brasil, para uso como terapia médica nos Estados Unidos, além da certificação CE para uso na Europa. Ao realizar o estudo em vários países e locais diferentes, a equipe espera conseguir aprovação em ambas as regiões. "Queremos demonstrar que a tecnologia não está limitada a um ou dois cirurgiões altamente especializados", disse Sahel à DW. "E que pacientes de diferentes perfis também podem se beneficiar dela." É um critério essencial para os órgãos reguladores que os pesquisadores comprovem que operações complexas como essa implantação podem ser realizadas com sucesso por cirurgiões oftalmológicos. Embora alguns efeitos adversos tenham sido relatados por alguns pacientes, eles desapareceram até o final do período de estudo de 12 meses. "Demonstrar que houve consistência nos resultados em 13 locais diferentes e com diferentes cirurgiões permite ampliar o acesso a mais centros e pacientes", afirmou Sahel. Implantação do chip: uma cirurgia complexa Sahel e Holz destacaram que há limitações na nova tecnologia. Embora a implantação do chip já tenha sido realizada com sucesso por diversos cirurgiões ao redor do mundo, eles disseram à DW que não se trata de uma operação simples. "Trata-se de uma cirurgia muito complexa, que requer uma boa capacitação", afirmou Sahel. Outro desafio está no próprio paciente. Existem barreiras logísticas que podem afetar a adequação ao tratamento, como a capacidade de visitar repetidamente uma clínica para reabilitação pós-cirúrgica e de contar com apoio em casa durante esse período. Holz explica que quem recebe o implante precisa estar disposto a passar por avaliações contínuas após a cirurgia, além da necessidade de passar por um treinamento para usar a câmera e o processador, a fim de utilizar o implante com sucesso. Atualmente, o programa de reabilitação leva cerca de 12 meses.

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Em fase final de testes, biocurativo 3D pode beneficiar 5 milhões de pessoas que sofrem com feridas crônicas

Publicado em: 26/10/2025 04:01

Biocurativo 3D pode beneficiar 5 milhões de pessoas que sofrem com feridas crônicas Até 2027, o biocurativo 3D feito a partir de células-tronco, desenvolvido por duas pesquisadoras de Ribeirão Preto (SP), deve chegar a 5 milhões de pacientes refratários no Brasil. 🔎Pacientes refratários são aqueles que não respondem ao tratamento convencional de maneira adequada, mesmo com todas as opções disponíveis no mercado. O produto já passou por todos os testes em laboratório e agora entra em uma nova fase: a de reunir documentação para apresentar à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), segundo a bióloga Carolina Caliari, CEO da In Situ, empresa que desenvolveu o biocurativo. ✅Clique aqui para seguir o canal do g1 Ribeirão e Franca no WhatsApp "Ele [o biocurativo] está em uma área da Anvisa, que entra no rol das terapias avançadas. E, por estar nessa classificação, tem de cumprir vários testes antes de chegar no paciente. São testes extremamente necessários para provar, principalmente, a segurança do produto". O Mensencure, que ganhou este nome porque é feito a partir de células mesenquimais (que são células-tronco retiradas do cordão umbilical), é capaz de agir em feridas crônicas, como em pacientes com diabetes, e queimaduras graves, principalmente. "Na terapia celular, a gente usa nossas próprias células em nosso favor. É uma coisa que a célula já faz naturalmente, ela já tem essa habilidade de promover a cicatrização não só da pele, mas de outros tecidos. Então, a gente pega essa célula do cordão umbilical, traz para o laboratório, isola essa célula e utiliza na terapia". LEIA TAMBÉM Curativo feito com impressão 3D em Ribeirão Preto usa células-tronco contra feridas crônicas Entenda como biocurativo pode acelerar cicatrização de feridas Como um dos maiores centros de inovação do Brasil busca ampliar projetos de IA Ao g1, o Ministério da Saúde informou que, segundo dados do Sistema de Informação Ambulatorial (SIA/SUS), em 2024 foram registrados 175.711 atendimentos a pacientes com feridas crônicas refratárias (infecção da pele, infecção prós-traumática, infeccão decorrente de cirurgia, absesso, úlcera). O Sistema de Informações Hospitalares (SIH/SUS) contabilizou 70.738 procedimentos no mesmo período. Ainda segundo o Ministério da Saúde, o número de atendimentos não corresponde, necessariamente, ao número de pacientes, uma vez que uma mesma pessoa pode ser atendida mais de uma vez. Para chegar até o produto, as células-tronco são 'misturadas' com hidrogel, e impressas em uma máquina 3D. O biocurativo tem formato transparente, bem parecido com uma lente de contato gelatinosa, e mede 80 centímetros quadrados, o tamanho médio de um celular. Biocurativo 3D com células tronco desenvolvido em Ribeirão Preto (SP) Murilo Corazza/g1 Para imprimir o biocurativo, são necessários 30 minutos. Como é um produto desenvolvido a partir de terapia celular, ele não estará disponível para compra em farmácias e a aplicação será exclusivamente em ambiente hospitalar. "Nossa ideia é não fazer um produto personalizado, porque um produto personalizado aumenta muito o custo e a gente não conseguiria oferecer imediatamente para o paciente. Se o paciente precisa de mais de um, a gente aplica mais de um curativo. Se precisa de menos, tem a possibilidade de cortar aquele biocurativo", explica Carolina. O produto tem aplicação única, porque é absorvido pela pele. Ao g1, a bióloga Adriana Oliveira Manfiolli, CTO da In Situ, explicou que o tratamento é eficaz, por causa da ação das próprias células no organismo. "Através do biocurativo, essa membrana é absorvida, é compatível com a pele, não tem problema nenhum. A célula penetra ali e faz a função dela. A ideia é que você não tenha troca desse curativo, que seja uma única aplicação". Biocurativo 3D com células tronco é de aplicação única, porque é absorvido pela pele In Situ O biocurativo chega também como uma alternativa a uma gama de produtos já existentes no mercado, mas que acabam não atendendo uma parcela específica da população. "Tem géis, pomadas de aplicação tópicas, coberturas diversas. Quando a gente insere um pouco mais de tecnologia, tem matrizes de polímeros associadas ou não, agentes microbianos, terapias de pressão negativa, que são os curativos a vácuo, câmeras hiperbáricas. Só que, do outro lado, têm inúmeros pacientes refratários a essas terapias. Temos, só no Brasil, cinco milhões de pacientes que não são tratadas de maneira efetiva com tudo o que tem disponível no mercado. Eles já trataram com tudo e, infelizmente, estão com aquela ferida há semanas, meses e até anos. Nossa ideia é que o biocurativo resolva, de fato, o problema desses pacientes". Como funciona o biocurativo? Como a base do Mensencure é a célula-tronco, o biocurativo age de maneira inteligente, não só cobrindo a ferida, mas tratando-a efetivamente, como conta Carolina. "O biocurativo não visa só recobrir a ferida. Ele recobre, sim, com a membrana, mas a superfície da célula tem como se fossem 'anteninhas', que ficam captando sinais do local onde é colocada. Ela vai captar os sinais da ferida. Se a ferida estiver inflamada, ela libera fatores para resolver aquela inflamação. Se estiver dolorida, ela libera fatores que vão resolver a dor. Se não está mais inflamada e precisa só fechar, libera fatores que vão conversar com as células da pele 'fecha essa ferida'". Biocurativo com células tronco é impresso em impressa 3D e fica pronto em 30 minutos Murilo Corazza/g1 Outra vantagem do biocurativo é que a célula do cordão umbilical pode ser utilizada de uma pessoa para outra, sem ser rejeitada. "A gente isola essa célula e armazena congelada aqui no laboratório. A gente tem um container de nitrogênio líquido, que é bem parecido com o botijão de cozinha, que tem bilhões de células congeladas. Aí, a gente descongela essa célula, imprime o curativo em 30 minutos e ele fica pronto para uso", diz Carolina. A ideia, segundo a CEO, é ter um estoque de biocurativos na empresa para que um paciente que chegue a um hospital consiga ser atendido. "Um paciente grande queimado, por exemplo, precisa de tratamento imediato. Então, essa é a estratégia para conseguir atender imediatamente esse paciente". Veja mais notícias da região no g1 Ribeirão Preto e Franca VÍDEOS: Tudo sobre Ribeirão Preto, Franca e região 🔎A, que são aqueles que não são tratados de maneira efetiva com todas as opções disponíveis no mercado.

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'Bilingo': como pesquisadores e indígenas apostam na tecnologia para salvar línguas ancestrais ameaçadas em RO e MT

Publicado em: 26/10/2025 04:01

Alicativo ajuda a revitalizar línguas indígenas ameaçadas em RO e MT Um projeto que une tecnologia e transmissão de saberes pretende contribuir para a revitalização das línguas em risco dos povos indígenas Bororo, no Mato Grosso, e Makurap, em Rondônia. O aplicativo chamado 'Bilingo' foi criado para registrar vocabulários, frases e narrativas nas línguas maternas desses povos e ajudar a repassar esses ensinamentos para novas gerações. A iniciativa envolve pesquisadores no Brasil e na Alemanha, professores e jovens indígenas. Gustavo Poletti, desenvolvedor do sistema, explica que o objetivo é que professores das próprias comunidades indígenas possam acessar a tecnologia para criar e distribuir o aprendizado. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias de RO em tempo real e de graça 🔎Os Makurap, que habitam Rondônia, estão localizados nas Terras Indígenas Rio Guaporé e Rio Branco e pertencem à família linguística Tupari, do tronco Tupi. No fim da década de 1990, eles ainda falavam a língua, mas hoje ela é usada principalmente por pessoas mais velhas. 🔎Já os Bororo chamam a própria língua de Wadáru, classificada por linguísticas como parte do tronco Macro-Jê, segundo o Instituto Socioambiental (ISA). Eles estão em Mato Grosso. O Censo 2022 do IBGE, divulgado nesta sexta-feira (24), aponta que o Brasil tem 295 línguas indígenas catalogadas, presentes em cerca de um quinto dos municípios. De acordo com o Atlas das Línguas em Perigo da Unesco, são 190 idiomas em risco no Brasil. O país é o segundo com mais línguas em risco no mundo - atrás apenas dos EUA, de acordo com o documento de 2021. Para conter essa ameaça, o aplicativo foi criado para preservar essas duas línguas em risco. A ideia é frear a perda de transmissão entre gerações e aproximar crianças do idioma por meio de jogos e exercícios interativos. O nome 'Bilingo' vem de Brazilian Indigenous Languages (Línguas Indígenas Brasileiras) e a iniciativa experimental e sem fins lucrativos, apesar de não ser inédita, tem a pretensão de ser a maior em quantidade de dados armazenados. O trabalho está na fase de testes e ainda não tem prazo de conclusão. LEIA TAMBÉM: Número de povos e línguas indígenas cresce no Brasil, aponta Censo MAPA: veja quantos povos e línguas indígenas existem na sua cidade Tukano, Nheengatu... Ouça as 10 línguas indígenas mais faladas Para Heloisa Helena Siqueira Correia, docente na Universidade Federal de Rondônia (UNIR), ferramentas tecnológicas como essa trazem em si a resistência e a luta dos povos originários. "Demonstra que as comunidades não estão, e nunca estiveram, congeladas no tempo", disse. (leia mais abaixo) Infográfico mostra onde vivem os povos indígenas Bororo e Makurap Arte/g1 Preconceito e proibição “A gente foi perdendo a língua, deixando de falar na língua materna, e isso aconteceu porque muitos não indígenas tinham preconceito. Eles proibiam os indígenas de falar. A língua Makurap era a mais falada nas terras indígenas, e hoje em dia já não é mais”, disse Jéssica Makurap, jovem da comunidade. Segundo Carolina Aragon, linguista e integrante do projeto, o desenvolvimento do aplicativo em si já é educativo. Isso porque são os próprios jovens indígenas os responsáveis por coletar palavras e áudios da língua materna com os tios, avós e professores, e alimentar a ferramenta digital. “Quando o jovem pergunta para um tio, avô ou avó como se diz algo na língua e grava essa resposta, ele já está aprendendo, e assim o aplicativo ensina enquanto é construído. Dessa forma, a nossa intenção é fazer com que a língua volte a circular em outros espaços da comunidade, e não apenas dentro da escola”, explica. O projeto enfrenta desafios práticos, como a dependência de internet para captar e enviar os áudios para os pesquisadores. Além disso, como são os indígenas que alimentam o sistema, o desenvolvimento da ferramenta acompanha o ritmo de vida da comunidade, que envolve estudo, trabalho na roça, caça e pesca. Como funciona o app 'Bilingo' O aplicativo funciona de forma semelhante a plataformas de aprendizado de línguas como Duolingo, Busuu e Rosetta Stone. Os usuários seguem uma jornada de aprendizado temática, que inclui seções sobre alfabeto, alimentação, família e outras áreas do cotidiano. Cada seção contém exercícios variados: 🔙 Tradução de palavras do português para a língua indígena. 🔊Associação de palavras a imagens ou sons. 🗣️Montagem de frases usando palavras disponíveis no exercício. “Estamos formando o vocabulário certinho, colocando palavras e frases, e a ideia é encher o aplicativo com histórias, mitos e tudo o que faz parte da nossa tradição. Conforme a gente alimenta o aplicativo, a gente também aprende”, afirma a indígena Jéssica. Gustavo explica que eles também estão desenvolvendo um exercício para praticar a fala. Nele, o usuário pronuncia uma palavra na língua e um modelo de IA indica se a pronúncia está correta. O app ainda terá suporte offline, permitindo o uso em áreas sem internet e garantindo privacidade dos dados, já que as informações ficam sob controle das próprias aldeias. Fabrício Gerardi, linguista e participante do projeto, destaca que o aplicativo também oferece noções de gramática para adultos que querem compreender melhor o idioma, não apenas para crianças. Com o aumento do interesse de diferentes povos, a ferramenta precisou ser adaptada para realidades variadas, de comunidades que ainda falam a língua no dia a dia a aquelas em que as crianças falam português, mas têm noção do idioma tradicional. Crianças Bororo serão estimuladas a ter contato com a língua originária do povo Reprodução/TVCA Fortalecimento da cultura A professora Heloisa Helena, que é Doutora em Teoria e História Literária pela Unicamp e Docente do Departamento Acadêmico de Letras da UNIR, destaca a importância da iniciativa para preservar as línguas indígenas e fortalecer as identidades e culturas dos povos originários. "A criação de um aplicativo que permite a recuperação de línguas indígenas sob risco de desaparecer completamente traz em si a resistência e a luta dos povos originários. Demonstra que as comunidades não estão, e nunca estiveram, congeladas no tempo, e que são instrumentos a favor da memória, pois dialogam com o passado ancestral, atualizam essa memória e, ao mesmo tempo, interferem no presente para que, no futuro, as etnias indígenas tenham seu protagonismo e autonomia consolidados", diz Heloísa. Veja quais são as 10 ínguas indígenas mais faladas no Brasil Povo Makurap Universidade Federal de Rondônia Expectativa Os pesquisadores destacam que o aplicativo deve servir não só como uma ferramenta de apoio à educação linguística, mas também como instrumento de fortalecimento cultural. O conteúdo será inteiramente controlado pelas comunidades, garantindo que os indígenas mantenham a propriedade sobre sua língua e tradição. “O aplicativo é uma forma de aprender e, ao mesmo tempo, de manter viva a nossa cultura”, resumiu Jéssica Makurap. Segundo Gustavo, quando o aplicativo estiver pronto, a própria comunidade será responsável por administrar a iniciativa, definir o conteúdo e decidir como ele será distribuído. Como surgiu o projeto? A ideia surgiu quando Gustavo Poletti fazia um doutorado na Universidade de São Paulo (USP) e se inspirou em iniciativas que tinham como propósito revitalizar línguas indígenas. “Na época, eu estava iniciando meu doutorado e pensei que este seria um campo onde eu poderia contribuir, tanto pela minha experiência em pesquisa como também por eu ter trabalhado com jogos de celular no passado”, disse Gustavo. Em 2024, durante uma conferência, Gustavo conheceu Fabrício Gerardi, linguista da Universidade de Tübingen, na Alemanha, que já desenvolvia trabalhos com a comunidade Bororo, no Mato Grosso. Pouco depois, Caroline Aragon, professora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), passou a atuar na equipe, conectando o grupo com os Makurap, em Rondônia. O aplicativo começou com o povo Bororo que já tem maior avanço no desenvolvimento do conteúdo. Em Rondônia, a fase inicial está sendo feita com os Makurap, priorizando o registro de vocabulário. montagem bilingo Reprodução

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Entre boleros, salsas e memórias, clubes tradicionais do Recife mantêm viva história cultural da cidade e resistem abraçando novas gerações

Publicado em: 26/10/2025 02:01

Bailes do Recife mantêm viva história cultural da cidade Nos salões iluminados por luzes coloridas e sons de orquestras, o Recife ainda guarda espaços onde o tempo parece desacelerar. São os bailes dos clubes tradicionais da cidade, como o Clube das Pás, o Clube Lenhadores e o Clube Bela Vista, que mantêm viva a cultura dos encontros dançantes e da convivência comunitária. Entre ritmos variados e trajes cuidadosamente escolhidos, esses espaços continuam reunindo pessoas de diferentes idades, unidas pela música e pela dança. Mesmo com as transformações no lazer urbano, os bailes permanecem como refúgios de memória e celebração. ✅ Receba no WhatsApp as notícias do g1 PE Com dinâmicas próprias, os espaços ainda cultivam regras que podem soar peculiares para quem está acostumado às boates modernas: Nada de bebida na pista de dança; Cruzar o salão, apenas se for de tanto dançar com o par; E “carinhos intensos”, só da porta para fora. Além de serem espaços culturais, os clubes seguem como potente ferramenta de lazer e socialização, especialmente para o público feminino. Em um mundo que se transformou, hoje, dançarinos profissionais acompanham mulheres que já não precisam de parceiros fixos para se divertir e redescobrir a vida, em qualquer idade. Confira, abaixo, as histórias e dinâmicas desses locais: Clube das Pás Clube Lenhadores Clube Bela Vista O legado das Pás O Clube das Pás, na Zona Norte do Recife, é uma das mais antigas agremiações do Recife Iris Costa/g1 No bairro de Campo Grande, Zona Norte do Recife, o Clube das Pás se destaca como uma verdadeira joia da história carnavalesca. Fundado há 137 anos, em março de 1888, sua origem remonta a carvoeiros que, após abastecer um navio inglês, celebraram a conquista no carnaval local com o "Bloco das Pás de Carvão". A agremiação é mais antiga que o próprio frevo, que tem 118 anos, e é um dos símbolos da vida cultural recifense. Em 2023, tornou-se Patrimônio Cultural Imaterial do Recife. Os bailes acontecem quase todos os fins de semana, com orquestras ao vivo e temas que variam entre o romântico e o festivo. O público veste-se conforme a ocasião: no Baile das Rosas, por exemplo, predominam as estampas florais e o traje a rigor; no Baile Cigano, brilham saias rodadas, lenços e adereços. Álvaro Melo, diretor de promoções e eventos do clube, explica que o sucesso das festas está na combinação entre tradição e acolhimento. "As Pás têm um público fiel, mas sempre chega gente nova. Muita gente vem pela curiosidade e acaba voltando", disse. Vestidos sempre de preto, com roupa social, suspensórios e sapato de bico fino, dançarinos profissionais ajudam a manter a pista movimentada. A presença sorridente dos rapazes que compõem o grupo "Pés de Valsa" representa muito mais que apenas a diversão de dançar. Simboliza empoderamento feminino para as mulheres que frequentam o espaço. "Tem muita mulher que vem só e, às vezes, o volume de homens, dos cavalheiros, é menor. Então, ela vai lá na bilheteria, compra sua senha, que é 10 reais, e tem direito a três danças. E ela escolhe o que ela quer dançar, em qualquer ritmo", explicou Álvaro Melo. Lêda Melo é uma dessas mulheres. Aos 75 anos, 30 deles dedicados à dança, mantém no clube uma rotina saudável junto aos dançarinos, todo fim de semana. Para ela, a presença dos "pés de valsa" representa liberdade. "Hoje, a mulher é quem escolhe. Antes, você precisava esperar um cavalheiro vir lhe tirar para dançar, mas agora não, a mulher também é poderosa, ela escolhe. ‘Eu quero dançar com você. Com você, não’, e vai para o salão com ele. Tem coisa melhor do que essa?", brincou. Um dos "pés de valsa" é Jefferson Silva, de 27 anos. Ele trabalha como gerente em uma loja de carnes e, aos fins de semana, como dançarino profissional. Aprendeu a dançar frequentando clubes com a mãe ao longo de 20 anos e transformou o hobby em renda extra. "Normalmente, venho direto do meu trabalho. Levo minha roupa, tomo banho, passo a roupa lá mesmo e depois sigo para cá. [...] É algo libertador, a gente se sente bem. Às vezes, a gente está com tanta coisa na mente e, quando chega aqui na pista de dança, esquece dos problemas do dia a dia. A maioria das pessoas aqui já passou por alguma dificuldade na vida e vem para aqui para espairecer naquela conversa, aquela dança", contou Jefferson. A aposentada Nice Pereira, de 81 anos, é outra que não perde um fim de semana. Sempre maquiada, com seu melhor perfume e acessórios caprichados, é no Clube das Pás onde ela celebra sua vontade de viver. "Tem uns cinco anos que venho para cá. Gosto de todos os ritmos, bolero, forró… nossa! O pessoal chega, vem cumprimentar a gente na mesa. É tão legal você chegar, ser beijada, abraçada, é muito bom", disse. A tradição dos Lenhadores Imagem de arquivo mostra pista de dança do Clube Lenhadores, na Mustardinha, Zona Oeste do Recife Reprodução/TV Globo No bairro da Mustardinha, o Clube Carnavalesco Misto Lenhadores ocupa um lugar singular na cartografia dos clubes recifenses: nasceu de uma ruptura, tornou-se abrigo de uma história política e transformou uma festa em emblema de resistência negra na Zona Oeste do Recife. Hoje, o local também é Patrimônio Cultural Imaterial da cidade. A origem dos Lenhadores está ligada a uma cisão interna no Clube das Pás no fim do século XIX. “Começou na Rua da Glória, na Boa Vista, e depois foi para a Mustardinha. Os lenhadores compraram o terreno e começaram a subir o clube há 128 anos. A dissidência foi causada porque o Clube das Pás quis colocar como candidata à presidência do clube uma mulher e eles [lenhadores] não aceitavam”, explicou Maria Cleta Souza, diretora administrativa do clube. Apesar da ruptura conturbada em resistência a avanços no protagonismo feminino, o Clube Lenhadores foi vanguardista na criação de uma festa de gala voltada à população negra em uma realidade onde a abolição da escravatura tinha acontecido há menos de 30 anos: a Matinê Branca. A matinê nasceu num contexto de exclusão racial, quando negros eram sistematicamente impedidos de frequentar as festas dos brancos, e se constituiu como resposta estética e política: traje branco, ornamentação prateada, regras de vestuário rígidas e uma coreografia social que transformava a presença numa reivindicação pública. Hoje, o evento mantém elementos que remontam à sua origem: homens em ternos brancos com gravata preta, mulheres em saias abaixo do joelho ou vestidos longos, bijuterias em prata e uma decoração que privilegia o branco e o prateado. Mais do que um figurino, a codificação visual funciona como memória coletiva — um modo de mostrar que um espaço que já foi negado virou, pela persistência, lugar de orgulho. “A festa é lindíssima, o pessoal passa um ano todinho esperando. Eu não perco uma Matinê Branca, é a coisa mais linda do mundo. Eu considero uma festa política, foi um movimento político para chamar a atenção dos brancos ricos”, declarou a diretora do clube. Paralelamente ao rito da Matinê, o Lenhadores consolidou uma rotina festiva que atravessa semanas: o “Revivendo o Passado”, nas sextas; as noites de DJ, aos sábados; e o ciclo da “Boa Idade”, aos domingos, que reúne públicos distintos ao longo do dia. A programação mistura brega, boleros, e músicas contemporâneas — uma aposta na convivência entre gerações e no caráter híbrido do clube. A batida cubana do Bela Vista Sede do Clube Bela Vista no bairro de Água Fria, Zona Norte do Recife Iris Costa/g1 No bairro de Água Fria, na Zona Norte do Recife, o Clube Bela Vista se ergue como um reduto de música, afeto e tradição. O espaço, que hoje é reconhecido como ponto turístico cultural, nasceu de maneira simples, quando um grupo de amigos decidiu transformar um antigo cinema em local de dança na década de 1970. O Bela Vista nasceu como uma extensão da vizinhança e cresceu com ela. Foi no começo dos anos 1990 que surgiu a Noite Cubana, uma festa inspirada nos ritmos latinos, que se tornaria a marca registrada do clube. Em 2024, o evento virou Patrimônio Cultural Imaterial do Recife. “A Cubana surgiu pelo estilo de música latina. Um grupo de amigos que gostavam e se reuniam para fazer essa festa. Teve uma repercussão boa”, comentou o presidente da casa, João Batista. A experiência deu tão certo que o evento ganhou nome e identidade própria: Encontro da Família Cubana. A festa tornou o Bela Vista conhecido além dos limites do bairro, atraindo públicos diversos e até reconhecimento acadêmico. “Nós recebemos uma homenagem pela Universidade Federal de Pernambuco, a gente recebeu um título, o troféu de Gregório Bezerra pela divulgação da cultura cubana”. “Quando nós começamos, eram pessoas da terceira idade quem mais frequentava o Bela Vista para esse tipo de evento. [...] Com o desenvolver do tempo e a divulgação, a gente foi mostrando ao povo o que é uma dança de salão. Os jovens vieram, gostaram e estão trazendo seus amigos sempre para renovar”. O diretor resume o segredo da longevidade: “Se a gente não se renovar, acaba”. E no salão, o público ainda guarda os rituais que marcam a estética do baile. “Tem pessoas que são marcantes, não perdem o evento. [...] São pessoas mais da terceira idade, que se vestem a rigor. Eles gostam de ter um sapato de duas cores, por exemplo. Você vai ver isso numa Cubana, uma toalhinha para botar no ombro. Eles não soltam, isso aí já faz parte do vestuário deles”, descreve João Batista. Por trás do sucesso e da sonoridade da Cubana, um nome carrega o peso da identidade da festa: Valdir Português, discotecário da casa desde 1992. Aos 81 anos, ele continua comandando a festa. Sem streaming ou pen drive, o DJ escolhe cada música diretamente de seu acervo de CDs, tirando e colocando disco a disco. Somente no clube, a coletânea é de mais de 100 mil faixas. “Eu ainda me lembro, foi no dia 12 de janeiro de 1992 que fiz a primeira programação, parecia o Galo da Madrugada de tanta gente", contou. O sucesso foi imediato. “O povo gostou e pediram para fazer outra programação aqui. Naquela época, não era o público de hoje, era outra geração. A primeira geração era mais frequentada pelo povo do morro, do alagado, da classe mais pobre. Hoje em dia eu sinto muita falta deles”, comentou o DJ. Aos 81 anos, o DJ Valdir Português segue como discotecário do Clube Bela Vista desde 1992 Iris Costa/g1 O DJ também ajudou a projetar a Cubana para fora do Recife, levando o estilo do Bela Vista a outros públicos. “Eu já toquei em muito lugar. O único lugar que eu pensei que ia tocar e o povo não ia gostar foi em São Paulo e eu fiz a Virada Cultural lá. Eu fiz essa programação e todo mundo gostou”, relembrou. Além disso, ele destaca a parceria com Roger de Renor, figura essencial na cena musical pernambucana e dono do bar Soparia, um dos principais redutos do movimento manguebeat. “Eu fui na onda dele, fui comprando computador, vendo algumas coisas desconhecidas. Eu me adaptei também às tecnologias”, contou. Mais do que um espaço de festas, o Bela Vista representa um território de permanência. No meio da pista é possível sentir que dançar ainda é uma forma de existir em comunidade e extrapolar as fronteiras da América Latina. VÍDEOS: mais vistos de Pernambuco nos últimos 7 dias

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Protestos da geração Z: o que une jovens em diferentes países do mundo

Publicado em: 26/10/2025 00:06

Manifestações lideradas por jovens da geração Z - nascidos da metade de 1990 até o início da década de 2010 - têm se espalhado pelo mundo. No Nepal e em Madagascar, a onda de protestos derrubou os governos. No Peru, presidente recém-empossado decretou 30 dias de emergência em meio à onda de violência. Os protestos também tomaram as ruas de países como Indonésia, Filipinas e Marrocos, por diferentes motivos. Mas quais motivações unem os jovens em todos esses países? Todos estes protestos têm presença maciça de jovens descontentes com as elites políticas e econômicas, em um cenário de “pessimismo palpável” que impulsiona mobilizações. É o que explicou Oliver Stuenkel em conversa com Natuza Nery no episódio do podcast O Assunto da quinta-feira (23). OUÇA NO PLAYER ACIMA. Os protestos da geração Z Professor de Relações Internacionais da FGV, Oliver falou como a geração Z tem a percepção de que as elites políticas estão “desconectadas” dos problemas reais do dia a dia da população. Além da conectividade digital, Oliver listou razões comuns que unem jovens em diferentes países do mundo: Percepção de desconexão das elites políticas em relação aos problemas do dia a dia da população; Desconfiança nas instituições; Insatisfação com serviços públicos ruins e incapacidade do Estado de responder às demandas da nova geração; Desigualdade econômica como principal fonte de mal-estar; Falta de perspectivas de futuro e sensação de que o esforço individual não garante ascensão social como no passado; Diferença geracional: os jovens não acreditam que terão as mesmas oportunidades das gerações anteriores; Incerteza econômica crescente, somada à instabilidade geopolítica; Impacto das novas tecnologias, que trazem mudanças rápidas e podem aumentar a sensação de insegurança sobre o futuro do trabalho. O simbolismo de One Piece Segundo Oliver, o pessimismo é algo palpável em todas as manifestações, mas a interconectividade digital também explica o uso de um símbolo específico que os une: a bandeira de um mangá originário no Japão chamado One Piece. "É sobre piratas que lutam contra uma oligarquia corrupta. [Esse símbolo] acaba surgindo em manifestações em países diferentes, não apenas no Sul Global, mas também, recentemente, nas manifestações nos Estados Unidos." "One Piece", publicado desde 1997 e transformado em anime em 1999, conta a história de piratas que lutam contra uma oligarquia corrupta. "Então, isso realmente tornou-se algo global que, apesar das muitas diferenças em cada país, conecta os jovens manifestantes." A história por trás do 'One Piece' No contexto da série, o protagonista é um candidato a rei dos piratas, em um mundo que é basicamente aquático. Essa bandeira é vista como um símbolo de insurreição contra um poder autoritário. "É um símbolo de resistência e de insatisfação, mas também, talvez, de um certo otimismo — de que é possível, por meio das manifestações, por meio da pressão, fazer uma diferença positiva", avalia Oliver. Um manifestante usa uma máscara enquanto olha perto de uma bandeira de 'One Piece' durante um protesto em Madagascar, em 3 de outubro de 2025 Siphiwe Sibeko/Reuters O exemplo do Chile Na entrevista, Oliver também alertou sobre possíveis impactos negativos das manifestações. Ele advertiu que é “difícil traduzir essa energia nas ruas em avanços institucionais”. E mais: a derrubada de um governo pode criar um vácuo político, que muitas vezes é preenchido pelas Forças Armadas, como ocorreu em Madagascar. O risco de repressão aumenta quando a estabilidade política não é alcançada. Stuenkel citou o Chile como um exemplo de país que conseguiu lidar bem com a instabilidade, promovendo a participação cívica e levando uma nova geração ao poder, embora as tentativas de reescrever a Constituição tenham fracassado. “Eu diria que o Chile talvez represente o melhor cenário, porque as grandes manifestações levaram uma nova geração ao poder, representada pelo atual presidente Gabriel Boric.” “Também há candidatos mais jovens agora à direita, promovendo debates muito organizados — um reflexo de muita maturidade política sobre que tipo de país o Chile gostaria de ser”, conclui Oliver. Ouça a íntegra do episódio aqui. O Assunto é o podcast diário produzido pelo g1, disponível em todas as plataformas de áudio e no YouTube. Desde a estreia, em agosto de 2019, o podcast O Assunto soma mais de 168 milhões de downloads em todas as plataformas de áudio. No YouTube, o podcast diário do g1 soma mais de 14,2 milhões de visualizações. Jovens tiram selfie com o palácio do governo do Nepal em chamas ao fundo, em 9 de setembro de 2025 AP Photo/Niranjan Shrestha

Palavras-chave: tecnologia

Por que os trens não têm cinto de segurança?

Publicado em: 26/10/2025 00:01

Trem em estação de Berlim, na Alemanha Daniel Abadia/Unsplash Os trens de fato não são o meio de transporte mais comum no Brasil. Mas se você já viajou pela ferrovia Vitória-Minas, a Estrada de Ferro Carajás ou mesmo em um trem europeu, deve ter notado uma característica particular: não há cintos de segurança. Os carros têm, os ônibus e os aviões também, mas nos trens eles não são obrigatórios nem comuns. No Brasil, por exemplo, o cinto de segurança é obrigatório apenas nos assentos reservados para pessoa portadora de deficiência. A razão, segundo especialistas, não é a falta de preocupação com a segurança, mas sim uma combinação de fatores técnicos, práticos e econômicos. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias em tempo real e de graça Veja os vídeos que estão em alta no g1 Para começar, os acidentes ferroviários são extremamente raros. Dados da Comissão Europeia de 2019 indicam que o risco de morte para um passageiro de trem na União Europeia é de apenas 0,09 morte por bilhão de quilômetros percorridos, cerca de 28 vezes menor do que no transporte por automóvel. Diante dessa baixa taxa de acidentes, equipar todos os trens com cintos seria um gasto difícil de justificar, segundo o IFL Science. Mas a explicação vai além dos custos. Os trens são projetados de forma muito diferente dos carros: os passageiros podem viajar em pé, caminhar entre os vagões ou trocar de assento. Essa variedade de posições impossibilita garantir o uso do cinto no momento de um acidente. Neste cenário, os passageiros que circulam livremente podem se tornar projéteis humanos, colocando os demais em risco. Um relatório de segurança ferroviária explica que a maioria das lesões em acidentes de trem ocorre devido ao impacto dos passageiros contra os assentos. No entanto, nos trens, eles são projetados para absorver o choque e limitar o movimento corporal, reduzindo a gravidade das lesões. Nesse contexto, os cintos de segurança não trariam uma melhoria significativa e, em alguns casos, poderiam até piorar os resultados. LEIA MAIS: Tradução em tempo real pode revolucionar as viagens internacionais Como é viver nas cidades com tecnologia mais avançada do mundo Trem de passageiros no Japão Siborey Sean/Unsplash Pouco prático Pesquisadores também testaram a instalação de cintos de segurança de três pontos, semelhantes aos usados em automóveis. Os resultados foram mistos: os passageiros que os usavam sofriam menos lesões e os que não os utilizavam saíam mais prejudicados ao colidir com assentos mais rígidos. Entretanto, chegou-se a detectar um aumento de lesões cervicais em mulheres de baixa estatura e adolescentes. Além disso, o cinto de segurança de três pontos não pode ser facilmente adaptado aos assentos existentes dos trens, o que exigiria a substituição de toda a infraestrutura interna dos vagões. Veja também: Voo sem bagagem de mão? Entenda como funcionam as tarifas em viagens internacionais Voos mais baratos sem opção de bagagem de mão valem a pena? Assim, instalar cintos de segurança em trens também seria pouco prático. Segundo o jornal americano The New York Times, a opção mais simples e econômica — o cinto de dois pontos usado em aviões — não protegeria adequadamente os passageiros em trens, que se movem lateralmente, além de para frente e para trás. Em teoria, se todos os passageiros permanecessem sentados e com os cintos afivelados durante toda a viagem, os cintos poderiam melhorar a segurança. Mas isso quebraria a essência da experiência de viajar de trem, em que os passageiros valorizam a liberdade de se movimentar, levantar-se ou ir até o vagão-restaurante. "Isso tem sido considerado por muitos anos", explicou em 2017 Steven R. Ditmeyer, ex-diretor de pesquisa e desenvolvimento da Administração Federal Ferroviária dos Estados Unidos, ao site Global News. "Em nenhum lugar do mundo se usam cintos de segurança em trens. As pessoas gostam de viajar de trem justamente pela liberdade de se levantar e caminhar, e os funcionários não querem ter que obrigar os passageiros a usar cintos." Portanto, ao menos por enquanto, a resposta parece clara: os cintos de segurança não são necessários nos trens, não porque não sejam importantes, mas porque o design, a segurança estrutural e a baixa taxa de acidentes fazem com que viajar sem eles continue sendo uma das formas mais seguras de locomoção.

Palavras-chave: tecnologia

Santa Quitéria, no Norte do CE, tem nova eleição neste domingo após prefeito ser cassado por apoio de facção; veja candidatos

Publicado em: 26/10/2025 00:01

Santa Quitéria: cidade cearense que vai ter novas eleições após interferência de facção Os eleitores do município de Santa Quitéria, o maior do Ceará em território, vão às urnas neste domingo (26) em uma eleição suplementar para escolher o novo prefeito, um ano após as eleições municipais de 2024. Três candidatos concorrem ao cargo. (Veja abaixo) 🔍A cidade vai votar novamente porque o prefeito reeleito em 2024, José Braga Barroso (PSB), conhecido como Braguinha, e o seu vice-prefeito, Gardel Padeiro (PSB), foram cassados pela Justiça Eleitoral por abuso de poder político e econômico, acusados de ter recebido apoio da facção Comando Vermelho (CV), que ameaçou apoiadores da oposição, ofereceu drogas em troca de votos durante a campanha e intimidou eleitores. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Ceará no WhatsApp Pouco mais de 33 mil eleitores estão aptos a votar na eleição, que será a única realizada em todo o Brasil neste domingo (26). Cerca de 600 mesários foram convocados para atuar nos 52 locais de votação do município. O pleito acontece sob um forte esquema de segurança: mais de 200 policiais militares e 40 policiais civis vão estar na cidade, além de equipes do Exército, da Polícia Federal, da Polícia Rodoviária Federal e até a Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Três candidatos concorrem ao cargo de prefeito de Santa Quitéria: Cândida Figueiredo (União), ex-deputada estadual e esposa do ex-prefeito Tomás Figueiredo, adversário de Braguinha Joel Barrozo (PSB), atual prefeito interino, presidente da Câmara Municipal e filho de Braguinha Lígia Protásio (PT), ex-vice-prefeita de Braguinha no primeiro mandato e prefeita interina durante o afastamento do gestor em 2024 Cândida Figueiredo (União), Joel Barroso (PSB) e Lígia Protásio (PT) disputam prefeitura de Santa Quitéria (CE) Reprodução LEIA TAMBÉM: A cidade cearense que vai ter novas eleições após interferência de facção e cassação de prefeito TRE confirma cassação de prefeito e vice-prefeito de Santa Quitéria, acusados de envolvimento com facção Comando Vermelho interferiu em eleições e comprou votos em troca de drogas no interior do Ceará, aponta MP A campanha eleitoral suplementar, de 33 dias, transcorreu sem denúncias de ameaças por parte do Comando Vermelho. O tema, aliás, foi pouco abordado pelos três candidatos, conforme uma fonte da cidade relatou à reportagem. 📍Localizada na região do Sertão de Crateús, Santa Quitéria tem um território de mais de 4.200 km², 3,5 vezes maior que a cidade do Rio de Janeiro. A cidade tem pouco mais de 41 mil habitantes, dos quais 33 mil são eleitores. Cassação do prefeito José Braga Barrozo (PSB), o Braguinha, foi reeleito em 2024 para seu segundo mandato como prefeito, mas foi preso no dia 1º de janeiro, horas antes de tomar posse. Ele era acusado, entre outras coisas, de ter sido favorecido pela facção criminosa Comando Vermelho (CV), que agiu para comprar votos a favor do político e intimidar eleitores, em especial apoiadores do ex-prefeito e então candidato Tomás Figueiredo (MDB). Prefeito Braguinha (à esquerda, de paletó azul) e vice Gardel na cerimônia de diplomação. Os dois foram cassados Reprodução A interferência do crime organizado nas eleições municipais de Santa Quitéria em 2024 envolveu o fornecimento de drogas para comprar votos, com um dos traficantes ordenando publicações nas redes sociais para “conseguir o apoio dos viciados". As ações a favor de Braguinha foram ordenados direto do Rio de Janeiro por Anastácio Paiva Pereira, conhecido como Doze, descrito como líder do Comando Vermelho no sertão central do Ceará. Ele é natural de Santa Quitéria. Sob ordens de Doze, membros do Comando Vermelho ameaçavam cabos eleitorais que trabalhavam na campanha de Tomás Figueiredo, que disputou a prefeitura de Santa Quitéria contra Braguinha. As ameaças eram enviadas por mensagens de WhatsApp e por pichações nos muros das casas dos apoiadores de Figueiredo. O Ministério Público Eleitoral (MPE) havia pedido a cassação de Braguinha e do seu vice ainda no fim de 2024 após investigação sobre a interferência do crime organizado nas eleições. De acordo com a acusação, a chapa praticou ou se beneficiou do abuso de poder político e econômico, comprometendo a legitimidade do pleito. A defesa de Braguinha nega todas as acusações. Em maio de 2025, a Justiça Eleitoral cassou o mandato de Braguinha, decisão esta confirmada pelo Tribunal Regional Eleitoral do Ceará (TRE-CE) em julho, ocasião na qual as eleições suplementares foram marcadas para o dia 26 de outubro. Infográfico - disputa em Santa Quitéria Arte/g1 Entenda o que são eleições suplementares Assista aos vídeos mais vistos do Ceará

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Belém inaugura Museu das Amazônias às vésperas da COP 30

Publicado em: 25/10/2025 22:08

Às vésperas da COP30, Belém inaugura o Museu das Amazônias Às vésperas de receber a Conferência do Clima da ONU (COP 30), Belém inaugurou o Museu das Amazônias. As boas-vindas vêm no "abraço" de uma serpente logo na entrada. No Museu das Amazônias, a biodiversidade não só encanta, ela ensina. Colorir aves no papel e vê-las alçar voo com ajuda da tecnologia é mais que brincadeira: é mergulho no conhecimento da floresta. O museu valoriza os saberes de comunidades tradicionais e urbanas para enfrentar os desafios climáticos. Nessa viagem imersiva, onde arte e ciência se encontram, o visitante recebe um alerta essencial: o futuro da humanidade depende da nossa conexão com a natureza. "Se nós queremos a floresta em pé, nós precisamos contar com os povos que cuidam dessa floresta, com outras maneiras de ver, de enxergar e, sobretudo, de interagir", disse a curadora Helena Lima. A mostra Ajuri reúne oito instalações de onze artistas. Interativa e cheia de mensagens a começar pelo nome: "ajurí" vem do tupi e quer dizer "eu vim ajudar". "Ajurí é um mutirão, é a reunião de pessoas, coisas e elementos por algo. Acho que o público sai também preenchido com a ideia de olhar para esse lugar de uma forma mais generosa e dando a devida importância para essa região", analisou a artista visual Roberta Carvalho. Alguns espaços lembram ocas, e até as cores do museu contam histórias. "As tintas desse museu foram produzidas com as tintas que os nossos ancestrais marajoaras usavam para fazer cerâmicas. Isso tudo em parceria com o Instituto Mãos Caruanas, um instituto superimportante do Marajó", contou o arquiteto Luis Guedes. O Museu das Amazônias é uma das obras da COP 30. Mostra os impactos das mudanças climáticas e, com a voz da atriz Dira Paes, convida o público a ouvir e respeitar a natureza. Nas lentes do fotógrafo Sebastião Salgado, a Amazônia surge em preto e branco. São duzentas imagens captadas ao longo de sete anos de expedições, que aproximam o público da exuberância da floresta. "Muito emocionante estar conhecendo um pouquinho também da minha história, porque eu tenho um pouco desse sangue correndo aqui em mim", disse John Furtado, de 13 anos. LEIA TAMBÉM: Como o homem que plantou uma floresta no bairro pode inspirar você? COP30 tem menos da metade dos países confirmados a menos de um mês do início da conferência Museu das Amazônias, em Belém Reprodução/TV Globo

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